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Yasunari Kawabata: literatura japonesa e Prêmio Nobel

Inserido em 23 de outubro de 2026
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A literatura japonesa tem uma herança histórica de dois mil anos de tradição. Apesar de diferentes estilos e fases, há algumas características marcantes e comuns aos autores nipônicos, como a concisão, a simplicidade, o uso de metáforas e símbolos, as descrições da natureza e a valorização da tradição e da modernidade. Hoje falaremos de um importante escritor japonês do século XX, um dos mais reconhecidos da história da literatura do Japão.

Yasunari Kawabata (1899-1972) foi o primeiro escritor japonês a receber um Prêmio Nobel de Literatura, “pela sua arte narrativa, que exprime com uma sensibilidade cheia de sutileza a alma japonesa na sua verdade mais caracterizada”, segundo a Academia Sueca.
A afirmação traz parte do que é essencial em Kawabata: a simplicidade do estilo, a observação e o caráter sensível/sensorial. Sua escrita é lírica e fluida, com recursos estilísticos que favorecem a imersão no texto e tornam a narrativa sutil e introspectiva.

Essa introspecção não é apenas o aprofundamento psicológico de suas personagens, mas uma conjunção de reflexões, sensações e percepções; metáforas táteis, visuais e auditivas que convidam o leitor a experimentar um universo sensorial onde as palavras carregam signos que aguçam o paladar, o olfato e os demais sentidos.

O escritor promove essa revisão das possibilidades de diálogo da escrita com o leitor, usando muito a técnica do fluxo de consciência, praticada por autores como James Joyce e Virginia Woolf.

Um dos grandes diferenciais de Kawabata está em sua estrutura narrativa. Não há uma preocupação com repetições. Há muitos “eu”, “ele” e “ela” que se repetem constantemente. Os cenários e as situações colocadas não possuem relevância na trama, e muito do que ele escreve é intimista e trivial. É o fluxo de consciência poético e reflexivo do personagem.

A estratégia é compreender o íntimo, a forma de pensar do ser e seu cotidiano. O fragmento da vida é constante nas obras dele, já que seu processo criativo é simplesmente ir escrevendo, sem saber aonde vai chegar a sua história.

Ler um livro de Kawabata é como apreciar um quadro. Kawabata “pinta” com as palavras cenários e situações que inspiram sentimento e poesia.

Yasunari Kawabata foi mestre em pintar palavras. Nascido em 1899 e assumidamente influenciado pelas vanguardas europeias do início do século seguinte, em especial o surrealismo francês, Kawabata usou palavras tal qual os pintores modernistas usaram suas tintas, criando imagens aparentemente ingênuas, porém repletas de conceitos e significados implícitos.

Um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX, nasceu em Osaka, em 1899. Após uma infância solitária e sofrida, interessou-se cedo pelos clássicos japoneses, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.

Não se ocupou de condensar universos complexos, mas de simplificá-los até encontrar sua essência, explorada depois na forma de metáforas. Seus romances são leves, curtos, com poucos cenários e personagens. Mas, por meio de histórias aparentemente banais, contemplamos um Japão em crise, com seus valores antigos sendo substituídos pela cultura estrangeira, que ganha espaço dia após dia.

Além das temáticas humanas e de uma narrativa que preza pelo sentimento e pela reflexão, os livros dele não têm começo, meio e fim, e a maioria é anacrônica. Os capítulos têm sentido próprio e isolado, mas, ao fim, contam fragmentos da vida de seus personagens e momentos de suas existências no mundo comum deles.

Mas é preciso certa paciência para ler as obras. A poética de suas histórias e as situações inusitadas e distantes da nossa cultura ocidental (distantes não apenas geograficamente, como também cronologicamente) podem parecer exageradas e até hilárias, quando deveriam ser trágicas e tristes.

É preciso ter uma mente aberta e livre de preconceitos. O leitor deve encarar a obra com visão ampla, como se observasse um quadro ou como se estivesse lendo poesia, pois são esses os cenários que Kawabata pinta com suas palavras, inundados de sentimentos, de beleza e do inalcançável que todos procuramos ao longo de nossas vidas. Uma busca sem fim que se torna fim estético em si mesma.

Kawabata traz a literatura do comedimento, do dizer menos, da economia verbal exposta em sutilezas que só a cultura japonesa possui.

Sua obsessão pelo mundo feminino, pela sexualidade humana e pelo tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda sucessiva de todos os seus familiares) rendeu-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado pelo excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.

Em seu discurso de recebimento do Nobel, em 1968, Kawabata condenou o suicídio. Porém, em 1972, após um acesso de depressão, suicidou-se em sua casa, intoxicado com gás. Já era noite em Zushi quando sirenes interromperam a tranquilidade dessa cidade ao sul de Tóquio, em 16 de abril de 1972.

A polícia e as câmeras de TV se aglomeraram em torno de uma pequena residência à beira-mar. No carpete vermelho do apartamento 417, havia uma garrafa de uísque vazia e uma mangueira de gás. O corpo sem vida de Kawabata, de 73 anos, havia acabado de ser descoberto lá.

O ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1968 gostava de se isolar para escrever nesse pequeno escritório de frente para o mar. Os vizinhos não viram nada. A polícia não comentou. Mas o Japão perdeu um tesouro, e o público se perguntou por quê. Durante a noite, uma multidão se reuniu nas colinas da cidade vizinha de Kamakura. Foi aqui que o Sr. Kawabata viveu e onde vários de seus romances foram ambientados.

Termino esse texto deixando a sugestão de dois livros emblemáticos da obra do grande autor japonês.

“A Casa das Belas Adormecidas”. Esse “pequeno” romance é um dos grandes clássicos da literatura mundial, no qual Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel de 1968, soube lidar com realismo e, ao mesmo tempo, extrema delicadeza, com temas difíceis, como a busca pela felicidade após a perda da juventude, e polêmicos, como a morte, a perversão e a sensualidade. Kawabata imaginou um estranho bordel onde homens de idade avançada podem passar as noites com jovens virgens, adormecidas sob o efeito controlado de narcóticos. Esse livro inspirou outros autores a escrever sobre os sentimentos e a sexualidade na terceira idade, como o colombiano Gabriel García Márquez, em “Memória de Minhas Putas Tristes”, que aborda a impossível história de amor entre um ancião e uma jovem prostituta. Existe uma tendência, nas sociedades do Ocidente e do Oriente, a ignorar e evitar o assunto do erotismo na idade da impotência, quando o desejo e a atividade sexual certamente ainda existem.

“Kyoto” também é um belo livro. Nesse romance, lançado originalmente em 1962, a cidade de Kyoto, que foi a capital do Japão de 794 a 1868, é uma das protagonistas mais importantes, e as descrições líricas dos eventos religiosos, dos costumes locais e das belezas naturais da cidade são um legado cultural que o Japão ficou devendo a Kawabata.

O livro narra a história de duas irmãs gêmeas, Chieko e Naeko, que foram separadas quando bebês e criadas em ambientes distintos. Chieko foi adotada por um comerciante tradicional de quimonos da área central de Kyoto e sua irmã Naeko ficou na aldeia de Kitayama, região montanhosa localizada na periferia da cidade. As duas, apesar de fisicamente idênticas, têm personalidades muito distintas por conta da influência do ambiente e da educação. Enquanto Chieko tem características de formação próprias dos jovens de classe média urbana, influenciados pela cultura ocidental, Naeko é mais sensível e amadurecida emocionalmente por conta da simplicidade da vida e do trabalho no campo.