Enquanto a OAB estrutura diretrizes, especialistas apontam que maior desafio deixou de ser a adoção da tecnologia e passou a ser governança e supervisão responsável
A inteligência artificial se tornou uma realidade no setor jurídico. Hoje, integra pesquisa jurisprudencial, elaboração de peças processuais, revisão de contratos, organização documental e até construção de estratégias jurídicas. Segundo o relatório “2026 AI in Professional Services”, da Thomson Reuters, 41% das organizações jurídicas já usam inteligência artificial de forma ativa, enquanto a maior parte das demais se prepara para incorporá-la nos próximos meses.
O avanço da tecnologia, porém, trouxe uma discussão sobre como preservar a confiança no sistema de Justiça. O Conselho Federal da OAB anunciou um plano com diretrizes de uso e o presidente do STF, ministro Edson Fachin, se pronunciou sobre os benefícios da IA, mas alertou que a supervisão humana é imprescindível. O tema preocupa magistrados, membros do Ministério Público e operadores do Direito em geral para a necessidade de se estabelecer critérios de transparência, rastreabilidade, responsabilidade e supervisão humana capazes de preservar a segurança jurídica e a confiança nas decisões.
Renan Hannouche, especialista em inovação e transformação digital aplicada ao sistema de Justiça e fundador da Just.ai — empresa que desenvolve consultorias, palestras e soluções de inteligência artificial para o setor jurídico —, defende que a IA deve ser encarada como uma tecnologia de ampliação das capacidades humanas. “Há muitos anos, nossas empresas atuam como evangelizadoras de futuros, porque acreditamos que a forma como imaginamos os futuros, no plural mesmo, muda nossas ações no presente. Ao estudar a rotina de diferentes áreas da Justiça, de tribunais a defensorias e procuradorias, buscamos imaginar novas realidades que possam substituir modelos existentes. Quando pensamos em inteligência artificial, não acredito que ela veio para nos substituir, mas para nos aumentar”, destaca. “Ao mesmo tempo, ela nos convida a repensar o nosso papel, porque grande parte daquilo que fazemos no dia a dia está ligado a uma busca incessante por produtividade, eficiência e performance, que são características de máquina. A IA veio para ocupar esse espaço de hipereficiência, enquanto o humano precisa retomar aquilo que lhe é mais próprio. O humano, pra mim, habita no invisível, na capacidade de imaginar novos e melhores futuros.” Para ele, seria importante um movimento coordenado e conjunto das instituições para a adoção segura da tecnologia.

Ferramenta ajuda na produtividade, mas exige profissionais mais bem preparados
Atento às mudanças no mercado e sobre como implementá-las com segurança em seu próprio escritório, o advogado tributarista Bruno Abreu, sócio do Abreu Faria Advogados, desenvolveu com o administrador de empresas André Estrella uma ferramenta sob medida para suas demandas, o LawAgent. A IA específica para Direito pode assumir tarefas, algumas repetitivas, liberando o advogado para atuar de forma mais inteligente e estratégica, e mantendo o estilo e o raciocínio jurídico dos sócios, o “DNA do escritório”.
“A plataforma nasceu de uma necessidade do dia a dia do escritório. Os advogados seniores passavam tempo demais em tarefas mecânicas — revisão de minutas, consolidação de jurisprudência, organização documental —, e pouco tempo no que realmente agrega valor ao cliente: a reflexão estratégica sobre cada caso. Não queríamos uma ferramenta genérica que descaracterizasse o trabalho, mas uma infraestrutura que aprendesse com nosso repertório, respeitasse o DNA e operasse em padrões rigorosos de segurança e sigilo”, observa, acrescentando que o advogado se mantém no centro de todo o processo. “A decisão jurídica continua sendo humana.”
André Estrella, que se dedica ao estudo das IAs aplicadas a atividades jurídicas, acredita que as novas plataformas, cada vez mais complexas e específicas, vão modificar a dinâmica dos escritórios e até mesmo a trajetória de carreira dos advogados.
“O grande ativo do escritório é o capital humano. A tecnologia não substitui o advogado, mas o potencializa. Nossa infraestrutura permite que o advogado sênior do escritório foque na inteligência jurídica enquanto a IA cuida da base operacional”, explica.
Segundo Estrella, o maior desafio passa a ser preservar a transmissão do conhecimento jurídico e da cultura institucional, com investimentos crescentes em mentoria para preparar os profissionais do futuro.