Escrever um livro é tarefa difícil e demanda criatividade e organização sistemática de ideias. Alcançar sucesso e reconhecimento literário é um padrão ainda mais aleatório. E três mulheres da mesma família, vivendo numa época de rejeição às iniciativas literárias femininas, conseguiriam escrever obras mundialmente reconhecidas? Pois foi isso que aconteceu na Inglaterra em plena era vitoriana.
Responsáveis por alguns dos maiores clássicos da literatura inglesa, as irmãs Brontë viveram em um tempo onde a literatura era proibida para mulheres. A proposta do ensaio é contextualizar quem foram essas jovens de extraordinário talento literário que produziram obras do cânone da literatura ocidental. As circunstâncias da vida e da morte delas também se deram de um modo improvável. E só receberam reconhecimento artístico póstumo.
Charlotte, Emily e Anne nasceram no século XIX, na aldeia de Thorton. Filhas do reverendo Patrick Brontë e Maria Branwell, morta prematuramente. As Brontë tinham outros três irmãos: duas morreram crianças com tuberculose e Patrick, único filho e irmão homem, que morreu aos 31 anos graças a seu vício por bebidas.
As três irmãs eram caladas, devotadas ao pai, gostavam umas das outras e não tinham maiores interesses pelo sexo oposto. Apesar da pouca educação escolar formal, tinham o dom da narrativa e a paixão pela literatura, ambicionando a escrita de romances. Desde pequenas, Charlotte, Emily e Anne viajavam para universos alternativos em suas brincadeiras. Foi através dessas aventuras que nasceu a inspiração para suas histórias. Na infância, Charlotte, Emily e Anne Brontë devoraram a biblioteca do pai e inventaram mundos paralelos em brincadeiras inspiradas nas obras consumidas. Na adolescência, se reuniam para escrever tramas, misturando as confidências que ouviam das mulheres mais velhas e suas próprias experiências.
Todas à frente de seu tempo. Pesquisadores consideram seus textos como “proto-feministas”, apresentando um tom de denúncia às limitações que as mulheres sofriam, antes do conceito de feminismo existir. Não à toa, nomes como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir expressaram admiração às obras das Brontë. Os temas das histórias eram quase sempre censurados por serem considerados tabus.
Quando já eram legalmente adultas, o aparecimento de um homem na cena familiar, Arthur Bell Nicholls, trouxe grande alegria à primogênita, Charlotte. Nicholls foi empregado como assistente do reverendo Brontë, pai das meninas e, passando a frequentar a casa, casou-se com Charlotte depois da morte trágica de Emily e Anne, ambas abatidas pela tuberculose em curto intervalo temporal. Charlotte, também viria a falecer alguns anos após, meses depois de seu casamento, consumida pelo mesmo mal. A tuberculose. Assim, em menos de uma década, todos os irmãos Brontë, inclusive Patrick Branwell, estavam mortos. Jovens, teriam sido vítimas das terríveis condições climáticas e da fragilidade agravada por doenças respiratórias.
As três irmãs escritoras viveram o suficiente para produzirem uma obra de grandes proporções futuras. Emily escreveu um romance: O Morro dos Ventos Uivantes. Anne morreu deixando dois romances como legado, Agnes Grey e A Senhora de Wildfell Hall. Charlotte viveu até os 38 anos, quando estava grávida de seu primeiro filho. Sua produção literária foi a mais extensa do trio, com quatro romances publicados, sendo Jane Eyre o mais exitoso deles.
Há suspeitas de que Charlotte padeceu devido à complicações relacionadas à gravidez. Charlotte, por muito tempo sofreu com náuseas e desmaios frequentes. A certidão de óbito declarava causa da morte por doença respiratória, mas muitos biógrafos acreditam que morreu por desidratação e subnutrição causadas por vômitos constantes.
Recentemente, um lunático escritor, de nome James Tully, escreveu um livro chamado “Os Crimes de Charlotte Brontë”. O escritor britânico aposta na possibilidade de que Arthur Nicholls, marido de Charlotte, tenha envenenado as duas irmãs Emily e Anne, interessado em embolsar os lucros de suas obras. Nicholls teria agido tendo Charlotte como cúmplice. O casamento de ambos teria viabilizado a tomada da herança. Tully defende que Nicholls tenha sido o responsável pela morte da própria Charlotte, movido por mais ambição. A história foi contestada e não tem evidência plausível, aumentando a curiosidade e o mito sobre a vida e morte das irmãs.
Como viveram na Era Vitoriana, a literatura das irmãs trazia traços inequívocos da época. Suas histórias são o retrato de um cotidiano duro, onde o trabalho, a perseverança e o amor têm o papel de redimir os personagens. Como as irmãs viveram no século XIX, a premissa de igualdade entre os sexos não estava sedimentada. Por isso elas publicaram seus livros com codinomes masculinos. Charlotte era Currer Bell, Emily era Ellis Bell e Anne, Acton Bell. A estratégia se deu por não serem bem vistas as mulheres que se envolvessem com atividades intelectuais. Ainda em vida, revelaram suas identidades. O medo do preconceito era enorme, mas elas ousaram se revelar, assumindo a autoria dos livros.
Se você é um grande fã de literatura clássica, você já se deparou com títulos como “Jane Eyre”, “O Morro dos Ventos Uivantes” e “A inquilina de Wildfell Hall”. Falarei um pouco de cada um deles.
A primeira a publicar foi Charlotte. “Jane Eyre” se tornou um marco entre romances de formação, aquele formato idealizado por Goethe que acompanha a personagem desde a infância, narrando seu amadurecimento. Jane Eyre conheceu o sofrimento ainda pequena, na casa da tia que a criou e na austera Lowood Institution onde foi educada. Mas pequena já mostrava sua natureza firme, dinâmica e independente. Fiel a si mesma, ciente do seu valor, assim se manteve por toda a vida – ao abandonar os tormentos de Lowood e se empregar como governanta em Thornfield Hall, vindo a descobrir o amor e um terrível segredo
A obra tem um viés de rebeldia contra normas impostas às mulheres na era vitoriana. Com toques góticos e boas doses de crítica social e moral, esse clássico da literatura inova ao apresentar personagem feminina forte e inova ao explorar questões de classe, sexualidade, religião e gênero, acompanhando a busca daquela protagonista por espaço, respeito e autonomia financeira, num mundo que não esperava ambições vindas de uma mulher.
Já Emily é considerada a mais misteriosa e reclusa das irmãs, a “Esfinge da Literatura Moderna”. Seu livro, talvez, é o mais famoso dos publicados pelas irmãs: O Morro dos Ventos Uivantes. Uma história de amor e de obsessão. E de purgação, crueza, devastação. No centro dos acontecimentos estão a voluntariosa e irascível Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo, Heathcliff. Rude nos modos e afetos, humilhado e rejeitado, ele aprende a odiar todo o entorno, mas com Catherine desenvolve uma relação de simbiose, paixão e também perversidade.
Nada poderá destruir a essência desse laço, mas quando ela se casa com outro homem, por convenções sociais, as consequências são irreparáveis para todos em volta. A obra foge do padrão dos romances da época, com golpes de violência verbal e mau comportamento das personagens, e enfrenta os temas do adultério e incesto. Por isso, ao lançamento, foi considerado inadequado e imoral, pois tratava de personagens nada tradicionais e explorava temáticas impróprias. Muitos dizem que Heathcliff, o personagem retraído e selvagem, seria um reflexo da autora. Há mesmo muito de Emily Brontë em sua obra. A inspiração para a paisagem bucólica, realista e poética do romance foi o seu vilarejo Haworth. Apesar das primeiras críticas negativas, o tempo fez com que a obra fosse revista e celebrada como um clássico.
Por fim, os livros de Anne trazem a trajetória de figuras femininas fortes e independentes. O segundo, “A Senhora de Wildfell Hall”, é sobre uma mulher que abandona o marido agressivo e foge com o filho. A obra quebra os paradigmas de seu tempo e oferece uma mulher forte e independente, que comanda a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários nos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham dica interessado pela moça e vai estreitando amizade com ela e com seu filho, mas os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido por ambos se concretize,
Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. A narrativa é uma das poucas do período a contestar o sistema legal que desfavorecia as mulheres e não lhes davam os mesmos direitos civis que os homens. A temática escandalizou a sociedade inglesa e atraiu muitas críticas.
Sucessoras de Jane Austen, as irmãs receberam o bastão desta e seguiram abrindo espaço à fórceps no meio literário machista e conservador, para que as mulheres pudessem aos poucos conseguir espaço e reconhecimento sem pseudônimos e como escritoras independentes e talentosas.
Seus livros são clássicos absolutos da literatura universal e acolhidos por crítica e público, jóias a serem descobertas e exploradas. Comece por Jane Eyre e o Morro dos Ventos Uivantes. Os melhores.