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A epidemia silenciosa dos golpes digitais no Brasil: impactos financeiros, sociais e psicológicos

Inserido em 17 de agosto de 2026
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Nas últimas duas décadas, o smartphone consolidou-se como o dispositivo central da vida contemporânea. No Brasil, país de rápida adesão às tecnologias de comunicação móvel, os celulares passaram a guardar não apenas fotografias e registros pessoais, mas a totalidade das finanças, documentos oficiais, canais de trabalho e laços afetivos. No entanto, essa extrema centralização digital transformou o aparelho na principal porta de entrada para uma infraestrutura criminosa cada vez mais organizada, invasiva e persuasiva.

Segundo dados apresentados em levantamento recente divulgado pela TV Cultura, no período compreendido entre março de 2025 e fevereiro de 2026, foram registradas cerca de 34 bilhões de tentativas de golpes digitais no Brasil. Esse volume traduz-se em uma média impressionante de mais de 200 investidas criminosas por cada cidadão adulto ao ano.

A dimensão dos golpes reflete a velocidade com que as quadrilhas aprimoram suas abordagens de engenharia social – técnica focada na manipulação psicológica da vítima em vez de invasões cibernéticas diretas, o que envolve sistemas complexos.

De acordo com o estudo, o telefone tradicional e os aplicativos de mensagens instantâneas (como o WhatsApp) são o canal principal e representam 7 de cada 10 fraudes aplicadas no Brasil. As táticas envolvem desde chamadas falsas de centrais bancárias alertando sobre supostas compras ou créditos liberados até mensagens de texto simulando notificações oficiais de instituições de cobrança ou órgãos públicos.

Mesmo quando os cidadãos desconfiam e encerram a ligação por perceberem inconsistências (como ausência de conta na instituição mencionada), a repetição massiva das chamadas faz com que, estatisticamente, milhões de pessoas terminem caindo nas armadilhas em momentos de desatenção ou urgência.

O impacto financeiro é enorme! No período analisado (12 meses) a marca atingida foi de mais de R$ 20 bilhões de reais perdidos por 16,5 milhões de brasileiros – o que equivale a um prejuízo médio na casa dos milhares de reais.

Contudo, os danos vão além do financeiro. Especialistas e relatos do estudo indicam que ser vítima de um golpe digital afeta profundamente o bem-estar mental. O sentimento de vulnerabilidade e a perda do patrimônio provocam ansiedade e quadros depressivos, além de agravar condições médicas prévias. Além disso, há sério desgaste das relações familiares, afinal a perda de economias da família gera tensão interpessoal, discussões e quebra da confiança no ambiente doméstico.

Um dos pontos mais alarmantes revelados pela reportagem é que quase metade das vítimas de golpes não registraram uma denúncia formal as autoridades competentes. As justificativas para esse silêncio expõem tanto falhas de orientação pública quanto aspectos comportamentais marcantes:
– Falta de Informação (50%): metade das vítimas que não denunciaram relata que simplesmente não sabia a quem recorrer ou como proceder.

– Descrédito nas Instituições (36%): das pessoas que sabiam onde denunciar, 36% preferiram não procurar a polícia por acreditar que o boletim de ocorrência não faria qualquer diferença.

– Vergonha e constrangimento (28%): cerca de 28% apontaram a complexidade do caso, o sentimento de vergonha e o medo de se expor perante conhecidos como motivo para esconder a fraude sofrida.

– Desprezo pelo ocorrido (2%): uma pequena parcela afirmou não ter visto sentido ou motivo em relatar o fato.

Essa subnotificação gera um “efeito invisibilidade”, dificultando o mapeamento real das quadrilhas pelas polícias civis e órgãos de inteligência.

Diante da escala do problema, especialistas orientam que a população adote uma postura de alerta contínuo e desconfiança sistemática.

Dicas de Ouro para Evitar Golpes:

– Questionar e Checar Sempre: nunca cumpra instruções passadas por ligação ou mensagem de texto sem antes desligar e checar pelos canais oficiais do banco ou empresa, mesmo que o interlocutor conheça seus dados pessoais (como CPF, nome etc).

– Selo de verificação no WhatsApp: empresas legítimas e bancos utilizam contas comerciais com o selo de verificação. Mensagens sem o selo devem ser tratadas com suspeita imediata.

– Números internacionais: chamadas ou mensagens originadas com prefixos internacionais (ex: +1, +63, etc.) sem contexto prévio são quase integralmente tentativas de golpe.

– SMS de cinco dígitos (Shortcodes): mensagens vindas de números curtos (como 21109 ou similares) são amplamente utilizadas para disparos em massa por fraudadores.

Assista a íntegra do vídeo. Fonte: Jornalismo TV Cultura (Exibido em 11 de agosto de 2026)

Allan Julianelli é gerente de TI da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e policial civil do Estado do Rio de Janeiro desde 2002.
allan.julianelli@amperj.org