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Patricia Carvão: Filme de Wagner Moura na Netflix é um dos destaques da semana

Inserido em 14 de agosto de 2026
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Nas últimas semanas, consumi um cardápio bem variado no streaming, e um dos destaques é o aguardado “A Última Casa”, lançamento da Netflix com Wagner Moura, de quem gosto bastante, e Greta Lee, cuja atuação em “Vidas Passadas” me marcou. O filme parte de um cenário angustiante: uma família de um bucólico condomínio americano percebe, de repente, que está completamente impedida de sair de casa. Portas e janelas tornam-se intransponíveis, e o mesmo acontece com os vizinhos.

Para mim, foi inevitável fazer uma associação com a pandemia. Naquele período, também experimentamos, embora de outra forma, a sensação de confinamento e vimos nossas casas assumirem essa dupla dimensão: lugar de proteção e, ao mesmo tempo, de aprisionamento. À medida que a explicação para o fenômeno evoluiu e entra no terreno da fantasia, confesso que meu interesse diminuiu. Não é um gênero que me atrai particularmente. Ainda assim, o filme prende a atenção pela curiosidade em saber como aquela família conseguirá sobreviver ao isolamento prolongado.

Fiz também uma segunda associação, agora com a violência urbana. Em nome da segurança, vamos construindo muros, colocando grades, instalando câmeras, evitando lugares e horários e restringindo nossa própria circulação. De certa forma, o medo também vai nos aprisionando. Que mundo estamos construindo quando, para nos sentirmos seguros, precisamos cada vez mais nos fechar dentro de nossas casas?

Tenho algumas restrições à narrativa do filme, especialmente à forma como a família enfrenta uma situação tão extrema com uma resiliência que, em alguns momentos, me pareceu bem pouco convincente e artificial. Wagner Moura está bem, embora eu tenha sentido certa inadequação entre o ator e esse universo — mas talvez isso se deva pelo meu próprio distanciamento do gênero.

No fim, o longa diverte e mantém a curiosidade sobre o destino daquela família. Para quem gosta de Wagner Moura, Greta Lee e de histórias distópicas, pode agradar bastante. Para mim, funcionou com algumas restrições — e acabou sendo mais interessante pelas reflexões que provocou do que propriamente pela história que contou. Na minha opinião, é um bom filme de aventura: apenas isso!

Minha segunda sugestão também está na Netflix. Trata-se de “Conspiradores”, um filme que parte da estrutura clássica de um bom suspense: uma morte cercada de dúvidas leva uma filha a retornar à casa da família em busca de respostas. Mas, aos poucos, fica claro que o verdadeiro interesse da história não está em descobrir quem fez o que — e sim em investigar como o luto, a solidão e a necessidade de encontrar sentido para acontecimentos traumáticos podem abrir espaço para a paranoia real.

O diretor Roger Gual constrói uma narrativa de ritmo deliberadamente lento, em que a tensão nasce menos da ação e mais da incerteza. Em vez de oferecer respostas fáceis, o filme convida o espectador a desconfiar de tudo, o tempo todo: das lembranças, das versões apresentadas e até da própria percepção dos personagens. José Coronado sustenta boa parte desse clima ambíguo com uma atuação contida e inquietante.

Talvez esse seja justamente o aspecto mais interessante de “Conspiradores”. O filme propõe uma reflexão sobre nossa necessidade de preencher lacunas, de transformar coincidências em certezas e de encontrar culpados quando a realidade se mostra complexa. A psicologia chama isso de “viés de confirmação”, que é a tendência mental de buscar, prestar atenção e lembrar de informações que confirmam nossas crenças preexistentes, enquanto ignoramos ou descartamos evidências contraditórias.

Não é um suspense voltado para grandes reviravoltas nem para um desfecho completamente linear. É um filme que aposta mais na psicologia dos personagens do que na mecânica do mistério e oferece uma discussão interessante sobre os limites entre investigação, obsessão e sofrimento psíquico.

Enfim, seguindo em frente: já assistiu “Enquanto houver Amor?” É difícil definir exatamente em que momento começamos a nos vincular a alguém — e aqui falo do vínculo afetivo amoroso que se estabelece entre duas pessoas. A paixão talvez nasça em uma fração de segundo. Em um gesto, um sorriso, um tom de voz, um olhar. São nuances quase imperceptíveis que fazem surgir essa conexão entre duas pessoas.

Depois, aquilo que começou de maneira tão espontânea e descontrolada, vai se transformando em amor — algo mais construído ao longo do tempo, talvez menos impulsivo do que a paixão, mas ainda assim profundamente intenso. E se é tão difícil entender como tudo isso começa, talvez também seja difícil perceber quando termina. Esse filme fala um pouco sobre isso.

A história acompanha um casal maduro, casado há muitos anos, acostumado a uma dinâmica em que existe certa hierarquia da mulher sobre o homem. E isso também faz parte das relações: casais são formados por pessoas com temperamentos diferentes e, muitas vezes, a personalidade de um acaba prevalecendo sobre a do outro. Mas existe um momento em que esse equilíbrio pode se romper. E aquele que parecia mais conformado, mais silencioso dentro da relação, pode finalmente dar um grito de basta.

O filme fala sobre o amor, mas também sobre seu fim e como esse rompimento impacta cada pessoa de maneira diferente. E sobre como, às vezes, até mesmo os finais podem abrir espaço para recomeços. É uma história bonita, com interpretações muito fortes e cenas profundamente simbólicas — daquelas que nem precisam de diálogo para transmitir tudo o que os personagens sentem. Disponível para aluguel no Prime Video.

Termino com uma série espanhola que assisti no MUBI: “Os Anos Novos”. Ana (Iria del Río) e Óscar (Francesco Carril) se conheceram na noite de Ano Novo de 2015. A partir daí, cada episódio acompanha um novo ano de suas vidas, sempre começando no dia 31 de dezembro ou em 1º de janeiro.

A história mostra como um sentimento intenso aproxima os dois e como, quase naturalmente, eles constroem uma vida a dois. A forte atração física do início vai se transformando com o passar do tempo, dando lugar a uma relação atravessada pela rotina, pelos desencontros e pelas diferentes intensidades, expectativas e buscas individuais. O roteiro foge das idealizações e mostra, com muita sensibilidade, o quanto pode ser difícil conciliar o amor com a vida real. Porque amar alguém nem sempre significa caminhar no mesmo ritmo ou desejar as mesmas coisas ao mesmo tempo.

Acima de tudo, “Os Anos Novos” fala sobre aquelas pessoas que atravessam a nossa vida e deixam uma marca profunda e inesquecível. Pessoas que, independentemente dos caminhos que a vida tome, permanecem em nós. Uma verdadeira tatuagem na alma. São dez episódios, e a gente vibra, se emociona e sofre junto com Ana e Óscar. Uma série delicada, madura e muito humana. Vale conferir.

Espero de coração que algum título te agrade. Bom final de semana e até a próxima!