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Patricia Carvão: Três produções da Netflix que divertem e provocam

Inserido em 16 de outubro de 2026
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Na coluna desta sexta-feira, trago indicações de produções caprichadas, todas disponíveis na Netflix. A primeira delas é “A Terapia Certa”, filme recém-chegado ao catálogo, com o excelente ator argentino Ricardo Darín, o que, por si só, é um excelente cartão de visitas!

O filme argentino — que, além de Ricardo Darín, conta também com a atuação de Diego Peretti — traz uma proposta instigante: um psicanalista, desacreditado dos métodos tradicionais, decide interferir diretamente na vida de seus pacientes, convencido de que sabe o que é melhor para eles.

A narrativa, que transita entre a comédia, o drama psicológico e o suspense, nos convida a refletir sobre os limites da intervenção na vida do outro. Até que ponto ajudar alguém significa respeitar suas escolhas? E quando essa ajuda se transforma numa tentativa de impor nossas próprias convicções?

Há uma frase atribuída a José Saramago que dialoga profundamente com essa questão: “O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”

A reflexão é especialmente pertinente quando pensamos na relação terapêutica. O papel de um terapeuta não é moldar o paciente segundo suas próprias expectativas, mas ajudá-lo a compreender seus conflitos e encontrar seus próprios caminhos.

Existe uma diferença fundamental entre cuidar e controlar, entre escutar e convencer. Muitas vezes, acreditamos estar fazendo o bem quando, na verdade, estamos tentando fazer com que o outro enxergue o mundo a partir das nossas próprias referências.

O filme também permite refletir sobre os limites éticos de nossas boas intenções. Afinal, acreditar que sabemos o que é melhor para alguém não nos autoriza a decidir por essa pessoa.

Talvez uma das reflexões mais importantes seja justamente esta: a verdadeira escuta exige que renunciemos à pretensão de sermos donos da verdade sobre a existência do outro. Respeitar a subjetividade de alguém significa, ao final, reconhecer seu direito de ser diferente de nós.

Passemos agora para a segunda sugestão de hoje, que é um filme dirigido e protagonizado por Julie Delpy: Vizinhos Bárbaros é uma comédia francesa que, com humor e sensibilidade, aborda questões profundas sobre preconceito, xenofobia e nossa própria dificuldade de conviver com as diferenças.

A história acompanha a chegada de uma família de refugiados a uma pequena cidade francesa. Inicialmente, os moradores parecem dispostos a acolhê-la, alguns até movidos pela satisfação de se reconhecerem como pessoas generosas e solidárias. Mas, aos poucos, surgem desconfianças, julgamentos e preconceitos em relação aos hábitos e valores daqueles que chegam.

O filme revela como frequentemente enxergamos o diferente a partir de nossos próprios valores, como se fossem os únicos legítimos. Em vez de procurar compreender o outro, temos a tendência de classificá-lo, julgá-lo e, muitas vezes, rejeitá-lo.

Mas, à medida que a história se desenvolve, percebemos que, apesar das diferenças culturais, existem sentimentos, necessidades e experiências que sempre podem nos aproximar enquanto seres humanos.
Talvez uma das reflexões mais bonitas do filme seja justamente esta: temos muito mais a aprender com as diferenças do que a temer diante delas.

O filme é uma comédia inteligente, que utiliza o humor para questionar não apenas a xenofobia explícita, mas também os preconceitos mais sutis, que podem existir até mesmo por trás de atitudes aparentemente solidárias.
Afinal, a diferença não deveria ser percebida como uma ameaça, mas como uma possibilidade de encontro, troca e aprendizado. Gostei bastante! Um filme que diverte, mas também nos convida a olhar para além das nossas próprias certezas.

Termino a coluna com chave de ouro, sugerindo a minissérie A Leste do Éden, que tem sete capítulos.
Baseada no consagrado romance de John Steinbeck, publicado em 1952, A Leste do Éden mergulha na complexidade das relações humanas, explorando sentimentos como amor, inveja, culpa, ressentimento e a necessidade de reconhecimento e afeto.

Inspirada na história bíblica de Caim e Abel, a narrativa nos convida a refletir sobre as contradições da natureza humana, os conflitos entre o bem e o mal e as marcas que as experiências familiares deixam em nossas vidas.
Um dos grandes destaques da produção é Florence Pugh, cuja atuação tem recebido elogios da crítica. Na pele de Cathy Ames, uma personagem complexa e contraditória, a atriz transita entre a vulnerabilidade, a frieza e a crueldade, dando profundidade a uma mulher que desafia qualquer julgamento simplista sobre a natureza humana.

A narrativa explora as marcas do passado e a repetição de erros e equívocos que ultrapassam gerações, com foco na relação complexa entre Adam Trask, seu irmão Charles e Cathy Ames, dentre outros personagens que integram essa saga familiar.

Mas talvez uma das questões mais instigantes da obra seja justamente a tensão entre aquilo que herdamos e aquilo que escolhemos ser. Afinal, nossas experiências podem influenciar profundamente quem somos, mas será que precisam determinar nosso destino?

Timshel é uma palavra em hebraico que aparece ao final da minissérie e vai trazer uma profunda reflexão para o espectador.

Recomendo muito essa produção.

Um abraço e até a próxima coluna.