A perda, furto ou roubo de um smartphone, por si só, já gera muita dor de cabeça, mas criminosos têm elevado o nível de sofisticação de seus ataques recentemente. Um novo golpe tem chamado a atenção de especialistas em segurança cibernética: o uso de inteligência artificial (IA) para enganar brasileiros que ficaram sem seus iPhones, com o objetivo de assumir o controle definitivo dos aparelhos. Saiba como se prevenir.
Com base em informações divulgadas sobre o esquema (identificado pela empresa de segurança SOCRadar), detalhamos abaixo como a fraude funciona e, principalmente, quais providências você deve tomar para blindar seus dados e mitigar os danos caso seja vítima de perda, furto ou roubo.
Como funciona o “Golpe da IA”
Quando um iPhone é perdido, ele conta com um recurso nativo de segurança chamado Bloqueio de Ativação, que vincula permanentemente o aparelho ao Apple ID (conta iCloud) do proprietário. Sem a senha da conta ou o código de desbloqueio da tela, o celular se torna basicamente um “peso de papel”, impossibilitando que os criminosos o revendam no mercado paralelo como um aparelho funcional.
Para contornar essa barreira, os golpistas criaram uma plataforma de phishing (pescaria digital) chamada AnonyMousKIT, que opera da seguinte forma:
- A Isca Inicial (SMS e E-mail): os criminosos enviam mensagens de texto ou e-mails para a vítima se passando pela Apple, afirmando que o aparelho roubado foi “localizado”. A mensagem inclui um link falso que simula a página do iCloud, pedindo as credenciais do usuário.
- A Ligação Falsa (Voz de IA): se o link não funcionar, entra em cena a Inteligência Artificial. A vítima recebe uma ligação de uma suposta atendente chamada “Alice”, do suporte da Apple. A voz, gerada por IA, é programada para soar profissional e informar que o iPhone subtraído foi recuperado em uma loja física.
- O Roubo do Código: para “prosseguir com a recuperação”, a IA pede que o usuário confirme o seu código de desbloqueio de tela (de 4 ou 6 dígitos) e, em alguns casos, o código de autenticação de dois fatores.
Uma vez de posse desses dados, os criminosos removem o Bloqueio de Ativação, desvinculam o iCloud da vítima, limpam o aparelho e o revendem pelo preço de mercado.
Se você teve seu iPhone arrebatado, o momento exige frieza. As medidas abaixo garantem não apenas a proteção dos seus dados bancários e pessoais, mas também impedem que você caia em golpes secundários como o descrito acima.
- Ative o “Modo Perdido” Imediatamente
Acesse o site oficial da Apple (icloud.com/find) através de um computador ou outro celular seguro. Faça o login com seu Apple ID e ative o “Modo Perdido” (Lost Mode). Isso bloqueia a tela imediatamente e permite exibir uma mensagem com um número de contato na tela do aparelho.
- NUNCA remova o iPhone da sua conta do iCloud
Ao acessar o site do iCloud, você verá a opção “Remover da Conta”. Não clique nela em hipótese alguma. É exatamente isso que o recurso “Bloqueio de Ativação” utiliza para impedir que terceiros usem o celular. Se você remover o aparelho da sua conta, ele ficará livre para ser ativado por qualquer pessoa.
- Desconfie de ligações e mensagens do “Suporte”
A regra de ouro, reforçada pela própria marca, é clara: a Apple nunca liga, manda SMS ou e-mail pedindo sua senha, código de desbloqueio ou código de verificação.
- Se receber um SMS dizendo que seu iPhone foi encontrado e contendo um link, não clique. Acesse sempre o icloud.com digitando o endereço diretamente no navegador.
- Se receber uma ligação, mesmo que o identificador de chamadas pareça legítimo e a voz soe humana, desligue imediatamente.
Ligue para a sua operadora de telefonia para bloquear a sua linha (evitando que os criminosos recebam SMS de recuperação de senhas de redes sociais ou bancos) e solicite o bloqueio do IMEI (o número de identificação do aparelho). Você geralmente encontra o IMEI na caixa do produto ou na nota fiscal.
Se você usa aplicativos de banco, entre em contato imediatamente com as instituições financeiras o mais rápido possível e solicite o bloqueio temporário das suas contas e cartões virtuais vinculados ao aparelho. A maioria dos bancos possui canais de atendimento telefônico 24 horas específicos para fraudes e roubos.
Por fim, faça o registro de ocorrência na Polícia Civil (pode ser feito de forma online na maioria dos estados brasileiros, no Rio entre no endereço: https://delegaciaonline.pcivil.rj.gov.br/). O registro é um documento importante para acionar seguros (caso você tenha) e para resguardar você caso os criminosos tentem usar sua identidade para cometer fraudes.
Se você ainda está com o seu iPhone em mãos (atualizado a partir do iOS 17.3), vá agora mesmo em Ajustes > Face ID e Código e ative o recurso “Proteção de Dispositivo Roubado” (Stolen Device Protection). Essa função exige a biometria do Face ID (impedindo o uso apenas de senhas numéricas) para realizar alterações críticas, como mudar a senha do iCloud ou desativar o Buscar, adicionando uma camada extra e robusta de segurança caso o bandido descubra a senha da sua tela.
Todo cuidado é pouco.
Allan Julianelli é gerente de TI da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e policial civil do Estado do Rio de Janeiro desde 2002. Contato: allan.julianelli@amperj.org