A escalada da compulsão digital, que varre, sem distinção, adultos e crianças, idosos e adolescentes, de maneira silenciosa, vem fulminando um hábito milenar e essencial do que significa ser humano: o dom da leitura. Essas reflexões pretendem fazer soar um alarme sobre o tema. Já passou da hora de se fazer algo como política pública em reação a esse diagnóstico.
Ler é o refúgio humano restante, o último ato de resistência em um mundo que não pensa mais. Que não reflete. Que não se importa. Estamos proliferando uma geração de seres humanos sem iniciativa, indiferentes, desprovidos de senso crítico, de jogo de cintura, de poder de questionamento, nada persuasivos e com grave intolerância às dificuldades e frustrações típicas e inevitáveis da vida adulta. Pessoas pobres de argumentos. Pessoas que não sabem o que dizer. Zumbis ambulantes. Triste. Apavorante. Real.
A leitura está fora de moda e virou gesto contracultural. O leitor contemporâneo é um cara estranho, sem muita paciência para redes sociais e destoante do grupo, pois não interage na velocidade exigida pela turba. As redes sociais e os streamings seduzem mais facilmente a massa destreinada, passiva e preguiçosa. Em sociedades de terceiro mundo, onde há um déficit maior da educação de base, o problema se intensifica.
Ninguém nega as mudanças. O mundo muda e precisa mudar. Sempre foi assim. Um novo modelo hierárquico de transferência e obtenção de informações está em curso. Mas a coisa saiu de controle. A internet, as redes sociais e a inteligência artificial induzem pensamentos e tendências, simplificam tarefas e facilitam as conclusões. Mas para uma transição bem sucedida, faltou comedimento e, preferivelmente, que os destinatários tivessem sido submetidos ao modelo analógico anterior. Não foi assim com todos.
A nova geração não teve esse treino, não estagiaram no mundo analógico. Foram concebidos e largados na era digital. Sem aviso prévio de como era o mundo antes. Seu parâmetro de comparação está ausente. O preço a se pagar pela lacuna é caríssimo. O excesso de digital em mentes virgens e a completa substituição do padrão analógico anterior sem adaptação cria padrões de funcionamento cerebral incompletos e insuficientes dos seres humanos mais novos. As consequências são imprevisíveis. Embora algumas já causem estrago.
Num tempo de respostas imediatas, sem tempo para que se amadureçam conclusões, onde se cria e se consome conteúdo de qualquer tipo na velocidade da luz, poucos ainda conseguem ter o dom estratégico de trabalhar e de digerir ideias. Os bons argumentos e as sínteses criativas estão em extinção. Sem exageros aqui. Ideia dá muito trabalho, exige elaboração, exige dor do parto de pensar. Pensar é chato. Ser original é difícil. É incômodo. O ser humano se desabituou de trabalhar o pensamento. E tudo que deixa de ser hábito se perde.
A rede social entrega de mão beijada. Que maravilha! Negativo! O excesso de informação disponível não consegue ser absorvido por ninguém. Não há mais como se obter profundidade nas informações. Não há mais tempo. Então, pensar para quê? É preciso resistir. Para sobreviver. Ler é pensar. Pensar é existir para poder desacelerar num mundo que premia a pressa. Que não aceita a perda de tempo criativa. Um mundo que exige likes, validações estúpidas que respondam ao exibicionismo virtual de vidas vazias. Afinal, não importa ser feliz. Importa parecer feliz e bem sucedido. Tanto quanto basta.
Quem não pensa, não consegue parar para ler, e quem não lê, destreina o raciocínio e a capacidade de refletir. Pior. Atrofiado de ideias e de vocabulário, tampouco consegue escrever, pois não tem nada a dizer. Mas por que gastar tempo e quebrar a cabeça para esculpir e elaborar um texto, se é possível chamar a IA para fazer isso? A distração virou o novo analfabetismo. A sociedade não se importa mais com a ignorância. O Chat GPT banaliza e padroniza os argumentos. E a maioria nem se dá conta, afinal, não sabem como era antes. O vocabulário encurta a olho nu e as pessoas trocam mensagens cifradas, abreviando a língua culta, perdendo até mesmo o dom da conversa. Jovens reunidos muitas vezes conversam entre si através das telas dos smartphones. Exagero. Olhem os adolescentes ao redor. A perspectiva é grave. Não se sabe mais dialogar com profundidade. Não se tem mais conteúdo cognitivo de destaque. Ficou tudo supérfluo. Cultura não engaja mais as pessoas e muito menos o algoritmo. Se alguém precisar de um “shot” de erudição, busca e encontra no Google. É automático.
Pois não é nem que as pessoas não saibam mais ler, o problema é anterior, elas não conseguem mais se concentrar. O cérebro treinado pelo scroll perdeu a paciência e a capacidade de sustentar sem sofrimento o percurso visual de um mísero parágrafo. “Que saco esse textão. Aí, ele vai mandar textão”. Não consegue. Está atrofiado e padece com a abstinência desesperada em busca de um novo estímulo. A mente dispersa pelo digital está viciada, adita na multiplicação de conteúdos desimportantes e fugazes, na mesma proporção que tende a levar embora quase três mil anos de conhecimentos acumulados pelas civilizações anteriores.
Por isso a leitura não é passatempo. Não é recreação. Hoje é uma guerra. É treino de presença. Ginástica mental. Do mesmo modo que dormir, se alimentar bem e fazer exercício físico. Tomar suplementos vitamínicos. Cada página exige foco, silêncio e disciplina. Não há mais tempo nem disponibilidade para isso. Ler é o antídoto que reconecta o cérebro à lógica do contínuo, e não do fragmento.
É o oposto da lógica do feed, que a gente fica rolando como zumbi o dia todo, deixando escapar a vida pelas mãos no desespero pela dopamina instantânea. O feed da rede social, paradoxalmente, entrega e ensina o que o digital esqueceu: a capacidade de permanecer. De estar conectado no momento presente. Da atenção plena. A leitura, assim, é tratamento e chance de cura. Ela aprofunda o que o algoritmo achata.
A luta é desigual. Os livros são muito menos atraentes que as cores e a luminosidade das telas. Mas é preciso resistir, perseverar. Treinar e incentivar as novas gerações. Um resgate de densidade às mentes diluídas pelo aleatório da barra de rolagem, que não deixa a pessoa pensar por conta própria, mas através dos trending topics.
Em tempos de opinião terceirizada, ler é reconstruir o pensamento autônomo. É ter a capacidade de formar uma opinião própria, independente. A mente não colapsa de uma hora para outra. Ela vai se fragmentando aos poucos. Isso faz perceber como já faz tempo que se está perdendo tempo. Um vídeo curto aqui, uma notificação ali, uma dancinha banal ali, até que a concentração desapareceu e a dor física (dói mesmo) berra diante da necessidade bestial de seguir olhando para a tela. Cocaína? Crack? Não! Só digital mesmo.
Os livros não são lentos. O mundo é que ficou rápido demais. E as pessoas ficaram com flacidez mental. Entre o excesso de estímulos e a ausência de sentido, a leitura é o refúgio onde o pensamento ainda respira. Cada página é um intervalo de lucidez entre o leitor e o caos. Uma chance de reconexão com a essência interior. Quem lê, lembra. Quem só consome, esquece.
O cérebro exige esforço e suor para transformar informação em conhecimento. O conteúdo rápido é digestível demais para se memorizar e se transformar em cognição. Ler é dar peso às ideias e profundidade à consciência. Ler recupera a atenção e a atenção é o ativo mais escasso da era digital. Quem lê, domina a mente. Quem não lê, é dominado por ela.
Ler é o último espaço de liberdade. Num mundo em que todos querem distrair, concentrar-se virou uma forma de revolução. A leitura não nos desconecta da realidade — ela nos protege dela.