Notícia

Sobre Carolina e Rachel: duas brasileiras de talento, de vanguarda e de coragem

Inserido em 9 de outubro de 2026
Compartilhamento

Na coluna de hoje, vou falar de duas mulheres brasileiras e escritoras para quem eu tiraria o chapéu, se eu usasse um. Diferentes na origem, mas semelhantes no talento e no pioneirismo, cada qual em seu front de batalha.

A primeira é Carolina Maria de Jesus, que nasceu em Minas Gerais e mudou-se para São Paulo ainda jovem, onde trabalhou como empregada doméstica e catadora de papel para se sustentar e sustentar seus três filhos, que criava sozinha.

Carolina frequentou a escola até o segundo ano do Ensino Fundamental, onde aprendeu a escrever e a ler de modo básico. Vinda de família humilde e sem letramento, não dispunha de livros em casa que pudessem ajudar no desenvolvimento da vocação.

Carolina catava papel para sobreviver e exercia a atividade secreta e solitária nas horas vagas, uma atividade que transbordava de dentro de si e enchia seu coração de esperança: ela escrevia seus diários sobre o seu árduo dia a dia na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo.

“… Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?”

“Um operário perguntou-me: – É verdade que você come o que encontra no lixo? – O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada. Temos que imitar os animais.”

A fome, a extrema pobreza e o preconceito racial tentaram tirar de Carolina Maria de Jesus a oportunidade de registrar sua voz. No entanto, o talento e a persistência da escritora afro-brasileira, nascida em zona rural e crescida em uma favela paulista, viram sua máxima expressão nas folhas sujas de cadernos que ela encontrava durante a rotina como catadora.

Nessas folhas encardidas e amassadas, com uma caligrafia e uma ortografia forjadas na luta da dura existência, mostrou ao mundo a realidade em nome da sobrevivência, em meio a condições degradantes de miséria e vulnerabilidade. Quando uma pessoa nessa situação consegue escrever um livro, o mundo deve parar para ler o que ela tem a dizer.

“(…) eles respondiam-me: – É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco é só dar um movimento na cabeça, ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existem reencarnações, eu quero voltar sempre preta.”

Foi exatamente isso que chamou a atenção do jornalista Audálio Dantas, que foi por acaso à favela do Canindé para fazer uma matéria para um jornal e conheceu a catadora Carolina, ao saber de seus relatos escritos. O jornalista queria contar sobre a favela e, quando teve acesso aos papéis dos diários de Carolina, percebeu que, na verdade, tinha achado algo mais significativo e poderoso.

Encantado com a capacidade de expressão da notável mulher, resolveu ajudá-la a publicar seu primeiro e mais famoso livro, «Quarto de Despejo», que fez sucesso instantâneo e transformou Carolina em uma celebridade do dia para a noite.

«Quarto de Despejo» retrata a rotina através dos tais diários, um dia a dia de luta pela sobrevivência em meio a condições de desproteção e pobreza. O “despejo” do título não é à toa, pois é o lugar para onde eram enviados os moradores de rua que a sociedade pretendia invisíveis. Eram despejados nesses locais. Dentro do “quartinho de despejo”, colocamos tudo aquilo que não presta mais ao uso e que um dia vai para o lixo. Como alegoria à própria forma de vida a que estão sujeitos Carolina e todos à sua volta, deixados à margem da sociedade, num quarto de despejo chamado “favela”.

Seus textos foram publicados respeitando fielmente a linguagem da escritora, que contraria a melhor gramática, com erros de grafia e acentuação das palavras, tudo definido com o objetivo de traduzir com realismo a forma de Carolina enxergar e expressar seu ponto de vista sobre o mundo.

Quarto de Despejo é leitura obrigatória e necessária para entendermos o Brasil do passado e do presente, sendo impossível deixar de perceber o toque poético que a autora coloca em suas descrições, atrelado à verdade derramada sobre a política de exclusão dos pobres.

A segunda personalidade de hoje é Rachel de Queiroz. Outro nome de peso das letras brasileiras que merece destaque. Cearense e nordestina, foi quem abriu picadas na mata para todas as mulheres dentro do cerrado da literatura. Um fenômeno. Para ela também tiraria o tal chapéu que não tenho. A única mulher a integrar o movimento modernista brasileiro, além de ter sido uma das primeiras cronistas do país. Escritora de destaque na ficção social e nordestina, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977, e também a primeira que recebeu o Prêmio Camões.

Junto com José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego, formou a tropa de choque do romance e das letras sertanejas. Única representante do sexo feminino do quinteto, intrusa entre os homens de ferro.

Com apenas vinte anos, despontou escrevendo uma novela que se tornou sua obra mais conhecida, «O Quinze», uma alusão à seca de 1915, que narra a luta do povo nordestino contra a urucubaca e a miséria. A seca de 1915 foi uma tragédia nacional, uma das piores do Nordeste do Brasil em uma centena de anos. E influenciou o livro, recebido com entusiasmo no meio literário.

Causou sensação pelo drama que descreve a luta entre o homem e o seu habitat, no decorrer do trágico destino do homem do sertão durante a grande seca de 1915. O texto de Rachel tinha maturidade para uma mulher tão jovem, demonstrando preocupação com questões sociais e habilidade na análise psicológica de seus sofridos personagens, além de muito colaborar para o desenvolvimento do romance regionalista.

A sociedade brasileira machista e patriarcal chegou a duvidar que Rachel pudesse ter escrito o livro, tamanha a repercussão positiva do conteúdo. O próprio Graciliano Ramos, mestre dos mestres e autor dos romances mais consagrados da literatura nacional, como Vidas Secas, São Bernardo e Angústia, chegou a duvidar da autoria divulgada: «O quinze caiu de repente ali por meados de trinta e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que realmente causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: Não há ninguém com este nome. É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado.»

O Quinze é uma obra bem simples, mas muito bem planejada e executada, com prosa ágil e emocionante. Rachel se destaca no desenvolvimento da oralidade dos personagens. Sua narração é singela, sem discrepâncias da fala comum e sem os cacoetes e sotaques regionalistas, apesar de bem adaptada às necessidades de expressão e de verossimilhança dos personagens e do entorno ficcional.

A trama se mostra em dois planos narrativos: o primeiro foca no vaqueiro Chico Bento e sua família, um retirante que quer escapar marchando a pé e que nutre a ilusão de chegar ao Amazonas. O outro plano foca na relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora na capital, que lê romances franceses e romances políticos, o que causa perplexidade em sua avó, pessoa apegada às velhas tradições.

Num cenário de clima inclemente, cercados por miséria e desgosto, igualando a condição de homem à condição de bicho, sobreviver até quando Deus resolver enviar as gotas redentoras de chuva é um ato de coragem e de sorte.

«E nem chove, hein, Mãe Nácia? Já chegou o fim do mês. Nem por você fazer tanta novena…» «Tenho fé em São José que ainda chove! Tem-se visto o inverno começar até em abril». (…) «Novamente a cavalo no pedrês, Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra de caatinga morta. Os cascos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho. Lagartixas davam carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas no chão, que estalavam como papel queimado.»

Rachel constrói essa escrita de desolação, e o leitor visualiza e escuta a cena tão bem descrita.

A descrição minuciosa e fotográfica de Rachel causa inquietação e espasmos de angústia no leitor, que sente o sol queimando sua pele, o vento quente soprando brisa de fogo e colando poeira terracota na carne. Chega a ter sede, com a boca seca e os lábios rachando, com moleza no corpo, por ler as falas dos personagens, podendo até avistar suas expressões angustiadas, de olhos apertados pela cegueira da luz, do céu brilhante e incandescente, com mãos sobre a testa tentando fazer sombra no rosto desfigurado de quentura. Só muito talento nas mãos para ser capaz de oferecer tantas sensações de desconforto e realismo a quem se depara com o texto. «O Quinze» é um grande clássico da literatura do Brasil.