Notícia

Felipe Cuesta: ‘O Som e a Fúria’, de William Faulkner: uma obra de escrita difícil e prosa rebuscada

Inserido em 11 de setembro de 2026
Compartilhamento

Nem tudo que vem dos EUA são bombas, porta-aviões, hambúrgueres, iPhones, beisebol ou milkshakes. Os caras têm vanguarda nas artes e no cinema e, claro, uma literatura protagonista. Mark Twain, Walt Whitman, F. Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, James Baldwin, John Steinbeck, Cormac McCarthy, Philip Roth, Paul Auster, Henry Miller, Ralph Waldo Emerson, Ernest Hemingway, Herman Melville, Edgar Allan Poe, Toni Morrison, Alice Walker, JD Salinger, Emily Dickinson, Flannery O’Connor, Don Delillo, HP Lovecraft… são muitos os nomes cativos no panteão dos escritores da América e do mundo. Mas o autor de hoje é William Faulkner, o prosador estadunidense canônico da contemporaneidade.

Ninguém da geração de Faulkner ou das seguintes alcançou tamanha potência e originalidade demoníaca. Com prosa febril e idiossincrática, Faulkner é o homem dos romances ambientados em Yoknapatawpha, seu lugar preferido no mundo inteiro, um condado fictício nos confins do Mississippi sulista, e que nasceu de família tradicional e sofreu as consequências sociais e econômicas, trinta anos depois do fim da Guerra de Secessão.

Segundo o discurso na cerimônia de premiação do Nobel de Literatura de 1949, proferido por Gustaf Hellström, membro da academia sueca: “Como um psicólogo investigativo, ele é o mestre inigualável entre todos os romancistas britânicos e americanos vivos. Nenhum de seus colegas possui seus fantásticos poderes imaginativos e sua capacidade de criar personagens. Suas figuras subumanas e sobre-humanas, trágicas ou cômicas de forma macabra, emergem de sua mente com uma realidade que poucas pessoas existentes podem nos dar. Além disso, Faulkner é o grande experimentalista entre os romancistas do século XX. Dificilmente dois de seus romances são semelhantes. O mesmo desejo de experimentar é mostrado em seu domínio, inigualável da riqueza da língua inglesa, uma riqueza derivada de seus diferentes elementos linguísticos e das mudanças periódicas no estilo”.

O romancista que entrelaçou o tempo à sintaxe da memória não fez nenhum estudo de história, filosofia ou psicologia. Mas dedicou-se a uma leitura intensa e compulsiva dos clássicos, e de três romancistas que haviam gestado o mundo ficcional moderno: Balzac, Dickens e Conrad. No mosaico de sua formação, ainda uma familiaridade com o Velho Testamento bíblico, fruto da educação religiosa, o teatro de Shakespeare, “Moby Dick” de Melville e James Joyce. Faulkner se armou com todas essas referências e ficou pronto o caldo de suas letras efervescentes.

Quanto ao conteúdo, o sul fraturado dos Estados Unidos injusto e cruel acaba sendo seu grande personagem. Com frases longas e recheadas de comentários irônicos, elas sublinham a visão do narrador sobre o tipo de sociologia que rege o comportamento da sociedade americana da época e a psicológico fragmentada dos personagens, um painel da decadência sulista, dilacerada pelo preconceito racial e pela falência das grandes famílias aristocráticas.

São agricultores, cidadãos urbanos, brancos pobres, miseráveis, índios e negros, marca de um estilo decisivo para o desenvolvimento da literatura moderna. Faulkner experimentou formatos de narradores e desenvolveu a estratégia de escrever sobre os devaneios interiores dos personagens, num estilo de fluxo de consciência.

Faulkner faz apostas literárias ousadas e acerta em cheio na originalidade do texto. Faulkner não vai te conduzir por mares calmos. Ele vai te desafiar aos extremos. Vai socar a cara do leitor e fazê-lo se sentir incapaz, perplexo e desmiolado. Tem gente que curte o desafio e outros detestam. Ele oferece um mosaico de vozes bagunçadas em um ambiente sem história detalhada. As revelações dos personagens e do narrador são pequenas peças, em fluxo de consciência, infames e informes, de um grande quebra-cabeça.

Segundo J.M. Coetzee em seu ensaio crítico sobre a obra, “Com seus arroubos de ódio e crueldade, lampejos de esperança e a constante contaminação do real pelo delírio, “O som e a fúria” é uma obra-prima incontornável, que não perde sua atualidade e segue a ecoar, como o grito de Benjy no fim do romance, “uma agonia sem olhos e sem língua; puro som”. E ainda, segundo Jean Paul Sartre, outro entusiasta do romance, “A literatura de Faulkner deixa as personagens presas ao presente e ao passado, como se o futuro não existisse. Durante toda a leitura, é como se lêssemos sempre algo que já passou, mesmo que se passe no tempo presente. Os tempos se mesclam, fundem-se e quebram-se na narrativa. E Faulkner emprega sua arte extraordinária para descrever nossa angústia [numa época de “revoluções impossíveis’] e um mundo morrendo de decrepitude”.

Os Compson, são a típica família aristocrática decadente sulista dos anos vinte, cheios de preconceito e xenofobia. Os EUA passavam por um momento de crise econômica e pobreza. Os narradores múltiplos gravitam ao redor de um eixo problemático. No centro, está a agonia (a fúria da decadência).

A narrativa está reduzida a quatro dias. Três dias seguidos de abril de 1928 e o dia 2 de junho de 1910. O livro opera uma desarticulação das tradicionais unidades de tempo e espaço. Os personagens são equilibrados sem soberania sobre o real, submetidos que estão ao turbilhão da vida. E o movimento é descendente, numa literatura de queda. Todos estão descendo: da vida à morte, da riqueza à pobreza, dos bons costumes à falta de educação, da sanidade à loucura, da ordem à desordem, do som à fúria.

Acompanhamos a história por quatro olhares distintos. O primeiro é o olhar de Benjamin, um dos filhos dos Compson, homem que “nasceu bobo”, com algum tipo de deficiência mental. Passagens sem nexo misturam o passado ao presente, e trazem as sensações de um cérebro atribulado e confuso.

A segunda voz é do melancólico Quentin, outro filho da família Compson. É o momento mais densa e complexo do texto. Quentin, enquanto jovem adulto, foi estudar em Harvard, após os pais terem vendido a propriedade para pagar seus estudos. No recorte de um dia de sua vida, somos apresentados ao fluxo de consciência: enquanto ele caminha pela cidade, lembra-se de momentos do passado e sua mente vagueia por descrições e recordações da infância e da irmã Caddie, fruto de um amor fervoroso e incestuoso. Em vários trechos, Faulkner abandona a pontuação e se serve de recursos estilísticos refinados, que exigem perseverança de quem lê.

A terceira parte é o ponto de vista de Jason, o filho mais novo que ficou para trás, morando com a mãe e os criados negros. Jason é um dos maiores vilões da literatura norte-americana. O cara chantageia a irmã e rouba o dinheiro que esta encaminha para a filha, é racista, misógino e preconceituoso, um sujeito agressivo, revoltado e que acredita ter sido injustiçado.

Por fim, a quarta parte traz o único narrador que não é personagem da história e isso tampouco o torna mais confiável. Alguém que enxerga a situação afastada e a visão fecha em Dilsey, a criada negra que acompanhou o declínio da família, matriarca de fato e quem sempre trabalhou no lar tomado pelas tragédias. É como uma visita ao backstage dos Compsons: Dilsey e a família de criados mantêm tudo a funcionar no que resta da antiga casa.

Todos os narradores são egoístas, ambíguos e contraditórios por centrarem a narrativa em si e por mostrarem uma voz fragmentária, incongruente e inconclusiva. O leitor que lute!

Paro por aqui. O resto fica a cargo de cada um. Encerro com um trecho do discurso de aceitação de Faulkner ao Prêmio Nobel: “Eu acredito que o homem não irá apenas perdurar: ele irá prevalecer. Ele é imortal, não porque ele sozinho entre as criaturas tem uma voz inesgotável, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifício e resistência.”

Boas Leituras!