Lançamento recente do Globoplay, “Emergência 53” acompanha médicos, enfermeiros e motoristas de ambulâncias que, diariamente, atendem as mais diversas situações emergenciais. O aspecto mais bacana da série é seu recorte. Diferente de tantas produções ambientadas no meio médico, ela escolhe mostrar que as pessoas responsáveis pelo socorro também carregam suas próprias dores, conflitos internos, afetos e fragilidades.
Um dos protagonistas é um médico competente, mas rude nas relações pessoais e marcado por atitudes impulsivas. Aos poucos, a narrativa introduz o fato de que ele convive com o transtorno bipolar, sem reduzir inteiramente o personagem ao diagnóstico. A questão da saúde mental passa, assim, a integrar uma história que já fala, de diferentes maneiras, sobre limites, vulnerabilidade e cuidado — inclusive sobre a dificuldade de quem cuida dos outros em reconhecer quando também precisa ser cuidado.
São várias histórias paralelas, que se cruzam e se conectam sem que a série perca o ritmo. Há conflitos profissionais, familiares e afetivos, e justamente essa dimensão humana é o que sustenta o interesse para além das ocorrências atendidas pelas equipes. Gostei bastante das atuações e achei a narrativa bem costurada. Os personagens têm contradições suficientes para despertar curiosidade sobre os caminhos que cada um seguirá.
Os cinco primeiros episódios foram disponibilizados na semana passada e, nesta quinta-feira (27), chegaram os cinco restantes, completando os dez capítulos da série. No fim, “Emergência 53” fala não apenas sobre salvar vidas, mas também sobre as vidas daqueles que trabalham com esse propósito. E talvez esteja aí o seu maior acerto. Vale assistir!
Também falo na coluna sobre o filme espanhol “Feras no Limite”, baseado em uma história real. Durante boa parte da narrativa me peguei pensando sobre uma questão que parece se conectar com a prática dos esportes radicais: o que significa, afinal, a sensação de liberdade que esse tipo de prática desperta em seus praticantes?

O filme acompanha amigos que praticam wingsuit, modalidade em que o atleta utiliza uma roupa especial, com superfícies semelhantes a asas, e se lança de grandes altitudes, planando em alta velocidade antes de finalmente abrir o paraquedas. Para mim, seria uma experiência aterrorizante. Talvez tenha sido justamente essa distância entre aquilo que eu sentia diante das imagens e o que movia aqueles personagens o aspecto mais atraente do filme, em minha visão. Aquilo que, para alguns de nós, representa medo, perigo e ameaça à própria existência é, para outros, justamente o que os faz sentir intensamente vivos — e livres.
Surge então uma contradição difícil de ignorar: temos um instinto básico de sobrevivência, de preservação do corpo e da própria vida. O que leva alguém, conscientemente, a desafiar esse instinto e a buscar saltos cada vez mais difíceis e perigosos? Em que momento a sensação de prazer ou liberdade se torna suficientemente poderosa para se sobrepor ao medo da morte?
Talvez exista, para essas pessoas, uma ideia de liberdade que não esteja propriamente em viver sem limites, mas em escolher os próprios limites — e até onde estão dispostas a desafiá-los. Para quem observa de fora, pode parecer uma exposição incompreensível ao risco. Para quem está ali, talvez seja exatamente o contrário: uma maneira radical de experimentar a própria existência. Foi esse paradoxo que permaneceu comigo: até que ponto preservar a vida e sentir-se plenamente vivo e livre são necessariamente a mesma coisa?
Como é baseado em acontecimentos reais, “Feras no Limite” ganha ainda outra dimensão. Para quem gosta de filmes de aventura e esportes extremos, certamente é uma boa indicação. Para mim, porém, o mais interessante foi perceber que, por trás dos saltos e da adrenalina, havia uma pergunta muito mais inquietante sobre liberdade, risco e as diferentes maneiras que encontramos de nos sentirmos vivos.
Bom final de semana!