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Felipe Cuesta: ‘O Retrato de Dorian Gray’ e a revisita ao mito de Fausto

Inserido em 10 de julho de 2026
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“A beleza não fora senão uma máscara e a juventude uma zombaria. Teria sido melhor para ele que cada pecado tivesse acarretado a respectiva pena, correta, rápida, concomitante”, escreveu Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray”. Até onde cada um de nós iria para obter um benefício extremo e quase inatingível aos mortais, em troca da vida ou do que resta dela, inclusive no aspecto espiritual? Pois bem — o Pacto de Fausto pode te ajudar com a resposta, mas cuidado: as consequências são irreversíveis.

A Barganha Faustiana é um pacto em que uma pessoa troca algo de extrema importância moral ou espiritual, como valores pessoais ou a própria alma, por algum benefício material ou mundano, como sabedoria, poder, riqueza, beleza ou juventude eterna. Nem sempre a pessoa que celebra o acordo está medindo a consequência exata, funciona mais como um “cuidado com o que você deseja, que você pode acabar conseguindo”.

O termo é referência à lenda de Fausto, personagem do folclore alemão (primeiramente materializado na literatura alemã na peça Fausto, de Johann Wolfgang Goethe) que concorda em submeter sua alma a um espírito maligno chamado Mefisto, que é uma representação de Satanás. O motivo da troca é desfrutar de conhecimento inatingível e poderes mágicos ou de outro benefício supervalorizado, que lhe conceda acesso aos prazeres possíveis de serem desfrutados na Terra, tudo isso em troca da alma. O pacto será sempre estabelecido com algum poder maligno ou imoral, nem sempre o próprio diabo diretamente, em histórias caracterizadas pelo desfecho trágico de quem se submeteu ao pacto.

O Retrato de Dorian Gray se vale dessa premissa como parte importante do enredo. Publicado em 1891, é um anúncio do século XX e da modernidade, pelo qual Oscar Wilde pagou um preço caro, além de sofrer censura, pois viu sua obra-prima usada como “prova” contra si no processo de “flagrante indecência” que o levou à prisão. Indecência por insinuar afetividade com outros homens.

Quando foi publicado em sua versão final, “O Retrato de Dorian Gray” foi recebido com escândalo, e provocou intenso debate sobre o papel da arte em relação à moralidade. Anos mais tarde, o livro foi usado contra o próprio autor em processos judiciais, como evidência de que ele possuía “uma certa tendência” — no caso, à homossexualidade —, motivo pelo qual acabou condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor. Mais de cem anos depois, porém, o único romance de Oscar Wilde continua sendo lido e debatido no mundo inteiro, e por questões que vão além do moralismo do fim do período vitoriano inglês, definido por um dos personagens do livro como “a terra natal da hipocrisia”.

O Retrato de Dorian Gray narra a história de um jovem incrivelmente belo chamado Dorian Gray, que se torna objeto de uma pintura feita por Basil Hallward. Influenciado pelo hedonista Lord Henry Wotton, Dorian deseja que a pintura envelheça em seu lugar para que ele possa manter sua juventude e beleza indefinidamente. Milagrosamente, o desejo é realizado. À medida que Dorian mergulha em uma vida de excessos e imoralidade, o retrato começa a refletir os sinais de sua decadência física e moral, enquanto permanece jovem e intocado.

Ao longo da história, Dorian se torna cada vez mais obcecado com beleza e juventude, cometendo atos cada vez mais vis e cruéis. O retrato, escondido em um quarto trancado, transforma-se em um horrível reflexo da alma corrompida. A trama aprofunda-se na exploração dos temas de estética, moralidade e das consequências de viver uma vida dedicada ao prazer sem considerar o impacto moral disso. Eventualmente, a pressão de sua consciência e o horror do que se tornou o levam ao desespero. Em um momento de loucura, Dorian tenta destruir o retrato, mas acaba não conseguindo seu intento, encaminhando o desfecho que serve como uma poderosa lição sobre os perigos da vaidade e da vida sem restrições morais.

Seu tema central é um personagem que leva uma vida dupla, mantendo aparência de virtude enquanto se entrega ao hedonismo irrefreado, com forte influência e apelo byroniano. A trama se vale de traços que notabilizaram a melhor literatura da época, como a presença de elementos fantásticos e de grandes reflexões filosóficas, além do senso de humor sagaz e do sarcasmo implacável característicos de Wilde. O autor tem uma escrita simples e direta, e a história é muito bem contada. Sua prosa é marcada por características como o esteticismo, o hedonismo, o sarcasmo, a ironia e o cinismo.

O esteticismo, movimento artístico a que pertenceu Oscar Wilde, defendia a beleza como principal objetivo estético da literatura. Essa concepção de arte buscava criar uma realidade ideal e prazerosa. Dessa forma, o hedonismo está presente em suas obras, que também trazem reflexões em torno da fugacidade da vida e da beleza.

O autor, ao expor questões sociais e morais da época, recorreu à ironia e ao paradoxo. O individualismo é valorizado em detrimento do que é coletivo. Por isso, seus textos tratam de questões existenciais, como a culpa, mas também falam de corrupção, sacrifícios, luxúria, violência, e mostram uma sociedade decadente, ainda presa ao esnobismo de classe.

Para facilitar a compreensão do que foi dito acima, trazemos algumas frases que resumem o pensamento do escritor: “Um artista é um criador de belas coisas”, “Revelar a Arte ocultando o artista é o fim da Arte”, “Crítico é aquele que pode traduzir de outra forma ou com processos novos a impressão deixada pelas belas coisas”, “Aqueles que encontram intenções feias nas belas coisas são corrompidos sem sedução. E isso é um crime”, “Os que acham belas intenções nas belas coisas são cultivados. Esses têm esperança”, “Para os eleitos é que as belas coisas significam simplesmente a Beleza”, “Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito. Eis tudo”, “A vida moral do homem forma uma parte do assunto do Artista, mas a moralidade da Arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito”, “O Artista vê e pode exprimir tudo. Para o Artista, pensamento e linguagem são instrumentos de uma arte”, “É o espectador, e não a vida, que a Arte realmente reflete”, “Podemos perdoar a um homem ter feito uma coisa útil, enquanto ele não a admira. A única desculpa por ter feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente”.

“O Retrato de Dorian Gray” tornou-se um clássico da literatura mundial pelo refinamento da escrita e pela universalidade do tema. Deixa importantes lições como legado, tais como a de que beleza sem caráter não leva a lugar algum, a de que tudo tem o seu devido tempo para existir, a de que todo cuidado é pouco com as aparências, além da certeza de que a perfeição não existe, de que todos nós temos um lado bom e um lado ruim, e de que não é bom projetar nossas ideias em outras pessoas nem admirar a arte apenas pela arte em si, desvinculada de sentido, sem contar que devemos buscar sempre a nossa harmonia dentro de nós mesmos.

Com uma destreza de estilo ímpar, Wilde cria frases lapidares com um humor ácido e um olhar astuto, criticando ferrenhamente a hipocrisia de uma sociedade que passava por transformações muito rápidas. Um livro que pode e deve integrar seu portfólio de clássicos.

Boas Leituras!