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Felipe Cuesta — Injustiça, sofrimento, vingança e redenção em ‘O Conde de Monte Cristo’

Inserido em 12 de junho de 2026
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“Amados, nunca procurem vingar‑se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor.” – Romanos 12:19. Se a vingança é um prato que se come frio, a literatura nos mostra que ela pode ir além: às vezes, é servida congelada, tamanho o tempo dedicado a seu preparo e execução. Embora essa reação pressuponha ação injusta anterior, fato é que a vingança é “justiça selvagem”. Ilegal, olho por olho, dente por dente, embora o talião já tenha sido lei escrita em algumas sociedades. Mas a literatura compactua com o ato de castigar alguém em retaliação por sofrimento ou lesão causada a outrem, com objetivo deliberado de impor sofrimento ao ofensor pelo mal causado, ou garantir que o algoz não volte a repetir o feito? Ou estão mais corretos os ditames bíblicos?

Se por um lado é verdade que em meio a tanta injustiça, a vontade é mesmo a de se vingar de alguém que nos fez mal, mais vale, porém, entregar o agressor nas mãos das autoridades competentes e nas mãos de Deus, verdadeiros detentores do atributo da vingança e da retribuição. As escrituras nos garantem que, no devido tempo, “os pés deles escorregarão, o dia da sua desgraça chegará e o seu destino se apressa sobre eles, pois o Senhor é justo em seu julgamento e a impunidade deles não passará em vão, o Senhor a tudo observa e anota aqueles que praticam o mal contra seu povo, o povo que chama pelo Seu nome.”

A fé, a tal que move as montanhas, bastaria para dar conta da paz aos injustiçados. Certo? Depende. Se fosse assim, os conflitos e as imperfeições deixariam de fazer morada na mente humana. Na pauleira da vida real, a banda toca diferente. No livro “O Conde de Monte Cristo”, Alexandre Dumas passou mais de mil páginas nos mostrando isso e trabalhando ideias claras sobre o ideal de retribuição direta pelo ofendido de um mal por ele sofrido.

Embora tenha, ao final, se rendido aos ensinamentos da providência, na medida em que, de tanto seu protagonista sofrer e se corroer com o fel cultivado na nascente da injustiça, acabou se dando conta da necessidade do perdão e da redenção como únicos instrumentos capazes de encerrar as contendas morais e espirituais em definitivo. Mas sob qualquer análise, ao decidir se vingar, um homem se coloca em pé de igualdade com seu inimigo, enquanto, ao ignorá-lo, ele se torna superior.

E, quando se planeja a vingança, há uma demanda de tempo, pois envolve o ato de elaborar a retribuição, de pensar como o ofensor pode ser atingido mais dolorosamente do que atingiu. Assim, o vingador também é muito cruel e valora a vulnerabilidade do outro e sua aptidão ao sofrimento. Afere-se, nesta hipótese, igualmente a vontade de se fazer o mal, mesmo que em retribuição a um mal sofrido antes. Moralmente, assim, a vingança pode ser objetada.

Alexandre Dumas foi dotado de profusão literária frenética e escreveu muitas obras reverenciadas pelo público. Além do livro que será resenhado neste artigo, não podemos esquecer da mítica obra “Os Três Mosqueteiros”. Ele era neto de uma escrava haitiana e filho de Thomas-Alexandre Davy de la Pailleterie, mais conhecido como General Dumas, grande figura militar de sua época e primeira pessoa negra a tornar-se general no exército francês.

Seu trabalho como escritor lhe rendeu muito dinheiro, e ele foi dos principais autores do romantismo na França, porém Dumas vivia endividado por seus altos gastos com mulheres e por seu estilo de vida extravagante. Ele escrevia tanto que foi acusado de ser co-autor de suas obras, pois delegaria grande parte da escrita a terceiros. As acusações nunca foram comprovadas e a discussão se tornou desimportante, dando-se no somar das décadas, o justo crédito póstumo ao grande escritor por suas obras universais.

Vamos aprofundar o estudo do seu romance principal e sobre esse tema instigante, sustentado em quatro pilares maiores: injustiça, sofrimento, vingança e redenção. Disso trata “O Conde de Monte Cristo”. Inicialmente publicada como folhetim entre os anos de 1844 e 1846 na França, a história fez um enorme sucesso e depois foi publicada em formato de livro. Segundo os seus relatos, o gatilho para o romance partiu dos arquivos da polícia, com a história de um homem que foi indevidamente preso depois de uma traição por parte dos seus companheiros de trabalho e que paga pelas ambições de seus traidores, respondendo por um crime que não cometeu.

Os temas tratados, como num bom clássico, continuam atuais e dialogam com todos nós. Manipulando com maestria os cordões da trama, Dumas prende o leitor numa teia de peripécias de tirar o fôlego, traições, denúncias anônimas, tesouros fabulosos, envenenamentos, vinganças e apresenta uma galeria de personagens que retrata o espectro social de um mundo em transformação. Um livro maravilhoso, imperdível, que também prestigia seu contexto histórico e cuida de fatos políticos importantes como o episódio do governo dos Cem Dias, quando Edmond é encarcerado. O período é conhecido pelo retorno de Napoleão I ao poder, após a sua fuga do exílio na ilha de Elba, eventos que ocorrem no mesmo momento do Congresso de Viena e da imagética Batalha de Waterloo.

O Conde de Monte Cristo é um dos pilares da literatura clássica francesa. Em 1815, o jovem Edmond Dantès, após voltar de uma viagem a bordo do navio Pharaon, tinha um futuro promissor pela frente: estava prestes a tornar-se capitão do navio e se casaria no dia seguinte com sua noiva Mercedes. Tudo teria corrido bem, não fossem quatro homens que mudariam a sua vida para sempre, por inveja, orgulho e omissão egoísta. Os personagens vilões Danglars, Fernand e Caderousse armaram para Dantès e ele foi preso acusado de bonapartismo. Uma acusação Kafkiana. Villefort, o Procurador do Rei, condenou-o, mesmo sabendo da sua inocência, tudo para livrar a pele de seu próprio pai, enviando-o para o Castelo de If, onde Edmond permaneceu por longos 14 anos, só não sucumbindo ao desespero dando fim à própria vida graças à intervenção do abade Faria, um outro prisioneiro da masmorra com quem cultivou uma amizade fraternal que lhe deu suporte para aguentar o sofrimento até o momento de engendrar sua fuga espetacular.

Dantès encontra no cárcere um aliado inesperado, o Abade Faria, um antigo prisioneiro considerado louco das ideias pelos carcereiros, por ficar insistindo na tese da existência de um tesouro escondido em uma ilha (a ilha de Monte Cristo) e que ele teria as coordenadas para encontrar o local exato e compartilharia a fortuna com quem o ajudasse a escapar. O abade passa a ter Dantes como um filho e antes de morrer, ensina as diretrizes exatas e o protagonista foge de modo espetacular e vai buscar na ilha o tesouro (Fuga em que Dantes troca de lugar com o amigo e se faz passar por morto, sendo atirado ao mar dentro de um caixão, conseguindo se livrar já submerso nas águas do Mediterrâneo).

A prisão é um elemento fundamental na trama, um personagem autônomo, pois é onde Edmond Dantès passa boa parte de sua vida. Seu cárcere é a infame prisão de Château d’If, numa ilha próxima a Marselha, sul da França. A prisão é um lugar sombrio e desolado, onde prisioneiros são tratados com crueldade e submetidos a condições desumanas e degradantes. Durante seu tempo na prisão, Edmond é mantido em confinamento solitário, sem contato humano e sem receber notícias do mundo exterior. Ele sofre com a solidão e a falta de perspectivas.

O local é um artifício narrativo para mostrar a transformação do personagem e para denunciar as injustiças do sistema judicial da época. E esse panorama nefasto altera mesmo a personalidade de Edmond Dantès e abre os flancos para a gravidade de seu sentimento posterior de vingança.

Dantes foge e vai até a ilha prometida, onde consegue encontrar o tesouro. A partir de então, de posse da incalculável riqueza, acompanhamos a jornada de Dantès para se transformar no vingador conhecido como Conde de Monte Cristo, mediante uma sucessão épica de eventos. Ele retornará mudado à sociedade francesa, após estágios no Oriente remoto e em terras Italianas, se valendo de astúcia, conhecimentos científicos, uma miríade de disfarces e munido com uma fortuna das mais abastadas, elementos que lhe permitem financiar, moral e materialmente, seus projetos mirabolantes de reparação do mal causado a si, se servindo de uma nova identidade, determinado a punir com rigor aqueles que o prejudicaram, bem como a tentar reivindicar o amor da sua vida, a amada espanhola Mercedes.

A busca incessante por vingança extrapola o razoável e se converte em obsessão doentia que adoece e enlouquece o protagonista, evidenciando sua jornada de sombras pelos confins de uma alma humana atormentada, até o ponto em que ele se dá conta que a vingança não lhe traz a felicidade que esperava, e o faz sentir remorso para encaminhar a trilha derradeira pelo caminho da redenção e do perdão, não sem antes conseguir direcionar o destino de quase todos os seus oponentes, fazendo-os provar um pouco de seu próprio veneno.

E, frustrando um pouco as expectativas de desfecho do maior tratado de vingança já escrito, depois de testemunharmos Edmond Dantès por mais de vinte anos maquinando uma vingança estruturada nos mínimos detalhes, chega a ser desapontador para o leitor, de certo modo, perceber o arrefecimento e a retração parcial do Conde. Essa solução, literariamente, não me soou como a melhor. Parece que, a certa altura, ele se cansa de maquinar seu desiderato e perde, aos poucos, o interesse pela retribuição completa do mal, como anteriormente dimensionara. Não deixa de sobrar um gosto amargo no leitor mais maquiavélico.

Nas palavras do crítico Antonio Candido, “não deixa de ser meio decepcionante essa recuperação da normalidade ética, após um esforço tão grande de exceção. Tudo vai voltar aos eixos, e o burguês pode dar sossegado este livro aos filhos… o seu fim, sem apagar o movimento anterior (isto é, o direito de impor violentamente o próprio Eu, sempre que disso resultar acréscimo espiritual ou material), paga o devido tributo à mediania das virtudes civis, penhor de toda sociedade… o recuo de Monte Cristo, sendo um imperativo lógico de toda hipertrofia individualista, é também uma renúncia aos riscos do Romantismo criador. O conde se cansa, como todo obreiro; arquiva a paixão de fogo e gelo que o animou durante mais de vinte anos, entrevendo, num primeiro impulso de senilidade, o conforto nos braços dóceis da jovem Haydée. ‘Aguardar e ter esperança’, aconselha então. Mas haverá lugar para os que sobrevivem à própria missão, construtiva ou destruidora?”

Alexandre Dumas fez por merecer sua cripta cativa no Pantheon Parisiense, gozando de descanso eterno junto aos heróis imortais da pátria francesa. Ele foi um de seus maiores representantes. Dumas estava enterrado em um cemitério menor de Paris, relegado a um segundo plano de reconhecimento e importância. Apenas em 2002, o governo da França, através de iniciativas do presidente Jacques Chirac, reconheceu a injustiça histórica e encaminhou o corpo do escritor ao Pantheon.

Na ocasião, o caixão foi transladado ao seu novo destino em um cortejo fúnebre de gala, ciceroneado e escoltado por quatro homens vestidos em uniformes de época, representando os três mosqueteiros Athos, Portos e Aramis, além de Dartagnan, personagens icônicos de um de seus livros mais famosos. Em seu discurso, Chirac admitiu estar reparando um equívoco secular com Dumas, que havia sido diminuído e desmerecido no cânone da literatura nacional devido a um odioso sentimento de racismo estrutural impregnado naquela sociedade, já que, por ser mulato e descendente de negros, ele permaneceu em parte no ostracismo durante mais de um século enquanto tratavam de “embranquecer” sua memória.