Por Felipe Cuesta
Pensa num sujeito que, de tão inventivo, bola um enredo sobre um homem comum e pacato que um dia, do nada, acorda transformado num inseto pegajoso. Em outro de seus livros ele retrata a angústia infinita de um cara preso, processado, julgado e condenado sem nunca conseguir descobrir o que possa ter feito. E por ai vai. Franz Kafka fez isso e muito mais. Por tantos feitos literários notáveis, ele é considerado um dos gênios das letras mundiais do século XX. Hoje vamos falar dele. Ano passado, fez cem anos de sua morte. Ele escreveu livros que repercutem há anos no imaginário de centenas de milhares de leitores. “A Metamorfose” e “O Processo” são os dois mais conhecidos.
A partir de suas ideias e teses, surgiu o adjetivo “Kafkiano”, algo absurdo, surreal. Bizarro. E por um triz, a obra dele quase não se tornou conhecida. Diz a lenda que, em seu testamento, Kafka decretou a destruição e deu instruções precisas para queima de todos os seus manuscritos. Apesar da disposição de última vontade, Max Brod, um cara que era seu amigo e provável testamenteiro (e depois se transformou em um de seus biógrafos) desobedeceu a ordem e revelou ao mundo a literatura do amigo. Traição ou motivo de força maior? Os dois. Fato é que sem Max Brod, não haveria Franz Kafka. Kafka dialoga conosco, então, a contragosto de Kafka. Brod estabeleceu o paradoxo.
Ele deve a fama ao seu talento literário único e à traição ultrajante, desprezada sua disposição de última vontade. Franz Kafka foi um dos maiores escritores alemães da história, mas isso se deve mais ao idioma alemão, no qual ele se expressava como ninguém do que a sentimentos de pátria e pertencimento. Sua nacionalidade não era alemã, ele era austro-húngaro, nascido em 3 de julho de 1883 em Praga, onde passou a maior parte de sua vida, que durou apenas 40 anos, até 3 de junho de 1924, quando morreu vitima de tuberculose.
A doença era incurável na época. Ele veio de uma família judia bem estruturada e pertencia aos sete por cento dos residentes de Praga que falavam alemão na época em que a República Tcheca era parte do Império Austro-Húngaro. Praga era seu lar, mas, como tantas outras coisas, esse não era um sentimento claro para Kafka: “Praga não nos deixa ir (…) Esta pequena mãe tem garras”. Ele escreveu sobre seu idioma: “O alemão é minha língua materna, mas o tcheco está no meu coração”.
As obras dele são secretas, misteriosas, sinistras e de pesadelo. Muito permanece vago, pouco tangível e nada explicado. Um local ou tempo específico nunca é fornecido. No entanto, sua forma de entregar o texto é oposta. Concisa, precisa e direta, ele trata como poucos os temas universais como identidade, angústia existencial, o absurdo da vida e a burocracia. As primeiras frases de suas obras mais importantes são sempre marcantes e estão entre as mais famosas da história literária.
Os mundos de Kafka são tão especiais, enigmáticos e absurdos, que foi inventado um adjetivo para descrever esse estado de coisas: “kafkiano”. Suas obras já foram interpretadas centenas, milhares de vezes e, ainda assim, desafiam um veredito uniforme e conclusivo. Quase toda frase de Kafka precisa ser interpretada. Ele mesmo muitas vezes não conseguia explicar o que estava escrevendo.
Aliás, a dúvida o acompanhou durante toda a vida. Ele destruiu o amor e desmanchou com sua namorada mais importante, se afastou de todos os seus relacionamentos pessoais de amizade e quase queimou todo seu trabalho. Por mais que estivesse convencido de ser um bom escritor, tinha receios, paranóias e estava em constante desacordo com o conteúdo e o rumo de seus escritos. Em 1917, foi diagnosticado com tuberculose, vindo a óbito em junho de 1924. Anteriormente, havia instruído seu melhor amigo Max Brod à destruição póstuma de suas obras. Brod desconsiderou os últimos desejos de seu melhor amigo e publicou Kafka para o mundo. Ainda bem.
O seu livro mais famoso e universal é “A Metamorfose”. Literatura do absurdo como crítica social. A condição humana, para Kafka, está muito além da tragédia ou da depressão. Ela é absurda, pois ele
acreditava que a raça humana era produto de um dos “dias ruins de Deus”. Não há significado algum que dê sentido às nossas vidas. Essa falta de sentido alegada pelo autor, paradoxalmente, nos permite tirar da leitura qualquer outro significado que caiba em nossa própria interpretação.
Assim, há muitos críticos que enxergam a transformação do protagonista Gregor Samsa em um inseto, como uma alegoria do antissemitismo, uma lúgubre previsão do extermínio criminoso de uma suposta raça de vermes. Outros defendem ser a obra um prenúncio do colapso do império Áustro-Hungaro, já que o livro foi publicado em 1915, três anos antes do fim da primeira guerra mundial.
Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que detesta seu trabalho e seu chefe. Uma dívida da família o obriga a manter o seu oficio para sustentar pai, mãe e irmã. Um belo dia, Gregor acorda atrasado para pegar o trem e se vê transformado em um inseto gigante.
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”
A sua primeira preocupação é estar atrasado para o trabalho e não conseguir sair da cama devido a sua nova forma de barata. A luta para levantar é angustiante e pegajosa e se torna ainda pior quando o gerente da firma vai até a sua casa devido ao atraso. Sem conseguir se comunicar com o protagonista, a família fica ainda mais aflita e chama um médico e um marceneiro para destrancar o cômodo. Gregor consegue abrir a porta e vai logo na direção do gerente, para dar uma explicação sobre o seu atraso, sem se importar com a sua bizarra aparência.
A visão assusta a todos. O chefe foge devagar, a mãe de Gregor quase desmaia. O único que toma alguma atitude é o pai que, sacudindo uma bengala, expulsa o inseto de volta para o quarto. A vida de Gregor então passa a ser confinada no cômodo sua irmã fica responsável por suas demandas.
A moral da metamorfose é ser uma história sobre a alienação e a desumanização do indivíduo em uma sociedade que valoriza mais a produtividade do que a humanidade, mais o que é prático e objetivo do que o desejado e subjetivo. A transformação de Gregor é uma metáfora para a perda de identidade e de conexão com os outros em um mundo que muitas vezes nos coloca em posições que não nos representam verdadeiramente, muitas das vezes nos sufocando e nos tornado monstros de nós mesmos. Criaturas encobertas por uma carapaça destinada unicamente ao ato de sobreviver, mesmo que isso nos faça acordar em pesadelos diários e mecânicos.
Como curiosidade atual, passado um século de sua passagem, a recente polêmica sobre as tentativas de cancelamento de Franz Kafka nas redes sociais. Tudo começou com uma postagem de uma internauta que se identifica como militante anti-pornografia e defensora do que chama supremacismo feminino, compartilhando o print de uma pesquisa do Google destacando que o escritor era viciado em conteúdos pornográficos, além de nunca ter sido casado e frequentar bordeis com alguma frequência. Ela chamou Kakfa de “viciado em pornografia” e disse esperar que “as meninas que romantizam as citações dele deem uma olhada nisso”.
Ou seja, questionamentos sobre a suposta retidão de sua vida sexual. Foi o que bastou para começarem uma campanha de linchamento moral do escritor. A mensagem logo viralizou e ultrapassou as barreiras da língua inglesa. Não tardou para que as buscas do X, antigo Twitter, se enchessem de termos em português como “Kafka cancelado” ou “Kafka e pornografia”.
Seria um enorme anacronismo falar em cancelamento de um autor que viveu nos moldes da cultura local de sua época, na Tchecoslováquia do início do século XX, onde não havia sequer uma indústria pornografica para que se abusasse dos direitos das mulheres.
Enfim, independente dessa curiosidade recente, Kafka foi um grande escritor que influenciou com sua literatura absurda, uma série de autores contemporâneos como Camus e Beckett.
Boas leituras!