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‘Dom Quixote’: o primeiro romance da Literatura Universal

Inserido em 5 de setembro de 2025
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Por Felipe Cuesta

“Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha”. Esse é o título completo da obra do espanhol Miguel de Cervantes. Livro delicioso. De fazer rir e chorar. “Dom Quixote” é “apenas” a maior narrativa ficcional de todos os tempos, a mais famosa e mais lida desde sempre. Inspirador, marco zero do gênero romance moderno, publicado com duzentos anos de antecedência ao surgimento sistemático de romances escritos e publicados. Engraçada e esperançosa, conquanto melancólica, a obra de Cervantes, o “manco de lepanto”, jamais perdeu sua incrível força. “Dom Quixote” e “O Pequeno Príncipe” só não foram mais lidos e vendidos que a Bíblia Sagrada.

— “Quem lê muito e viaja muito, muito vê e muito sabe.”

O escritor espanhol, assim como Shakespeare, Milton e Dante, é um escritor sem rival na história literária. No panteão dos “hors-concours”. Não sou eu que estou trazendo esse ranking, embora concorde. Quem afirma isso é o crítico literário norte-americano Harold Bloom, um dos maiores do gênero, em seu livro no qual seleciona os escritores tão fortes quanto seus personagens e histórias, criaturas que ainda nos fazem viver sob seus impactos. “Dotados de poderes extraordinários”, chamá-los de gênios é “fazer justiça”, e Cervantes seria categoricamente o mais importante dentre os maiores na história literária “universal”.

— “Cada um é filho das suas obras.”

As narrativas e venturas de Dom Quixote surpreendem em natureza e humor por seu viés atual e familiar. Essa é a magia que transcende gerações e séculos de admiradores desde quase a Idade Média. Miguel de Cervantes, aos modos de um jornalista, zomba do estereótipo tão popular de homem valente e moral, através de uma narrativa que sobrepõe o delírio narcisista de seu herói com a visão debochada de quem o assiste.

— “Quando o coração transborda, a língua fala.”

“Dom Quixote” é um livro eterno. Obrigatório para todos que gostam de ler. Um anti-herói ingênuo que sai pela Espanha medieval acompanhado por um fiel escudeiro. Dom Quixote de la Mancha é um fidalgo louco que acredita estar vivendo em um romance de cavalaria, portanto, seu dever como cavaleiro é proteger as donzelas, os fracos e os oprimidos. Dessa premissa, providenciando cavalo e armadura, o protagonista resolve peregrinar e lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária.

— “Natural condição de mulheres: desdenhar a quem lhes quer, e amar a quem as aborrece.”

“Dom Quixote” é um livro que todo mundo conhece, mesmo sem ter lido. Ao longo da vida, já ouvimos falar muito no personagem, que reverbera há séculos no caldo da cultura popular de massa, conhecido em livros, peças, filmes, telas de pintura, obras de arte em geral e tantos outros meios de exposição. Mas por que “Dom Quixote” é tão famoso e icônico? Por ser universal. A obra, como já dito acima, é tida como o primeiro romance moderno e seus personagens já são parte irrepartível do imaginário da cultura pop. Pois todos já ouviram falar de Dom Quixote, montado em seu cavalo Rocinante e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, a metade racional da trama. 

— “A valentia que se não baseia na prudência chama-se temeridade, e as façanhas do temerário mais se atribuem à boa fortuna que ao seu ânimo.”

Dom Quixote é um dos homens mais idealistas da história literária. Um senhorzinho apaixonado e corajoso. Ele sonha com um mundo da maneira como gostaria que fosse. E seu projeto e propósito existencial é “mudar o mundo” de fato, e não apenas idealizar a mudança. Dom Quixote crê fielmente em seus devaneios (aqui, ponto essencial) e com tanto de ingenuidade, entusiasmo, honorabilidade e determinação, se torna muito verossímil e, por isso, acaba encantando e arrebatando o coração dos leitores. Esta é a grande magia da obra.

— “À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo”

Quantos de nós já não sonhamos em entrar nos nossos livros favoritos? Como não viver tal devaneio? Pois é o que Dom Quixote faz: o cara arregaça as mangas, coloca uma armadura, monta em um cavalo, convence Sancho Pança a acompanhá-lo e sai em busca de aventuras. E os leitores passam a se sentir Dom Quixote, se transportando para as páginas e para as histórias contadas.

— “O medo é que faz que não vejas, nem ouças, porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são!”

A ação gira ao redor das incursões do herói entre Catalunha, Mancha e Aragão, terras que lhe permitem viver o delírio de “aventuras fantásticas”, contrastadas pelo olhar realista do companheiro Sancho, seu alter-ego, que serve como contraponto ao modo fantasioso do “cavaleiro” observar o mundo. O conhecido episódio dos moinhos de vento, bem no começo da narrativa, é um dos melhores exemplos. Dom Quixote, ao longo do livro, projeta o enfrentamento de feiticeiros inimigos, quando, na verdade, a queima de seus livros foi uma tentativa da sobrinha em curá-lo de seus devaneios excêntricos. Em outra passagem, escolhe o exército mais fraco para lutar a seu lado, na verdade dois pastores de ovelhas cruzando o caminho por acaso. Quando encontra dois sacerdotes levando a imagem de uma santa, resolve atacá-los, ao pretexto de se tratar de dois feiticeiros sequestrando uma princesa. Dom Quixote pode ser a criança que existe em cada um de nós. Nosso jeito ingênuo de agir, como se não houvesse nada a perder no mundo.

— “Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga ‘eu não acredito no amor’. A vida sempre nos surpreende.”

Para viver as aventuras na plenitude, o corajoso homem precisará desconsiderar os tantos que escarnecem da sua ideologia, e que acabam fazendo prevalecer seu pragmatismo sobre as ilusões românticas do protagonista. Apesar de ser uma obra realista, “Dom Quixote” flerta com a fantasia. Contudo, ao voltar de sua complexa aventura, desiludido, consegue se dar conta de que não apenas ele não é herói, como na verdade, a vida carece de heróis. 

— “Só quem faz mais que outrem é que é mais que outrem.”

Nesse sentido, a parte triste do encaminhamento do desfecho. E da perda das ilusões do protagonista quando o velho homem encontra fim às suas quimeras. Após um amigo de infância fingir ser um cavaleiro e desafiá-lo para um duelo, com a condição de que, se Dom Quixote perder, deve abandonar a cavalaria, ele acaba perdendo e depois forçado por sua sobrinha e um padre a reconhecer que tudo não passava de um delírio. Dom Quixote então perde suas forças, saindo do estado de transe ideológico, e agora deve pedir perdão por suas loucuras, mesmo ainda convicto de se tratarem de realidade. 

Nas sábias palavras de Milan Kundera, em um ensaio sobre o livro, “os heróis da epopeia vencem ou, se são vencidos, conservam a grandeza até o último suspiro. Dom Quixote é vencido. E sem nenhuma grandeza, pois imediatamente tudo fica claro: a vida humana como tal é uma derrota. A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota que chamamos de vida é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance.”

A personalidade de Dom Quixote é uma das coisas mais legais do livro. A forma como ele vê gigantes em moinhos de vento e todo o tipo de coisa maluca, ao mesmo tempo que nunca perde sua bondade, é encantadora. Seu coração é do tamanho do mundo que ele pretende salvar. Sancho também não fica atrás, tentando mostrar ao seu companheiro a real forma das coisas e fracassando. Afinal, como diria Dom Quixote, ele não entende nada de aventuras.

Um romance de leitura leve e deleitosa. Ideal também para quem curte estudar literatura e escrita criativa de narração, um prato cheio, que apresenta um cardápio diversificado de recursos narrativos inéditos na época e é ainda referência nos tempos atuais.

O bacana de ler Dom Quixote é a surpresa causada no leitor. O efeito é sentido por quase todos. Pois a maioria pega o livro achando que vai ser uma leitura difícil e datada, marcada pela expressividade vetusta de uma época passada, quando sequer se pensava em escrever romances como gênero. Ou então tem gente que acha que vai encontrar um livro por demais infantil e bobo, incapaz de capturar sua atenção de leitor adulto. E, de uma maneira ou de outra, não é nada disso que acontece na experiência, muito menos o que se encontra no decorrer das páginas. A saga do anti-herói de Cervantes nos emociona, nos faz rir e nos apresenta reflexões atuais e poderosas sobre o alcance de nossas próprias falhas e humanidade, nos fazendo dialogar de perto com nossas vulnerabilidades e neuroses. 

— “Eu sempre ouvi dizer: quem canta seus males espanta”.

Influenciador de Goya, Picasso, Charles Dickens e Daniel Defoe, dentre tantos outros artistas, o romance flerta com o humor burlesco e com ramificações do grotesco, com um cavaleiro de trajes medievais a parodiar a figura exaltada no período da idade média. Anacrônico, Quixote nos arrebata pela forma obsoleta com que leva a vida, num conflito entre a realidade e o idealismo. Ou talvez entre a realidade e a loucura. A sua existência fez surgir o adjetivo “quixotesco”, isto é, alguém com ideal nobre, sonhador, de boas intenções, mas afastado ou desligado da realidade. 

Trazendo para os dias de hoje, no Brasil, talvez fosse a imagem de um político imaginário, não envolvido com qualquer conflito partidário, ou polarização odiosa, interessado apenas em colocar as coisas para funcionarem dignamente. Algo que talvez não exista.

“Dom Quixote” influenciou todos os maiores escritores. Segundo relatos, Charles Dickens recitava longos trechos e capítulos da obra. Faulkner, um dos mestres do fluxo de consciência, lia o romance em questão uma vez ao ano. Fiódor Dostoiévski e Sigmund Freud, pai da psicanálise, foram grandes exaltadores da obra. O russo fez uma comparação com Jesus Cristo e alegou que “nada existe de mais profundo e poderoso no mundo inteiro do que essa peça de ficção”. O austríaco chegou a estudar espanhol para ler a obra no original.

Uma derradeira curiosidade. Por ser tão amado pelo público, o livro é lido anualmente, sem interrupções, durante um evento no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Tempo de duração: 48 horas de declamação em voz alta, com público cativo presente. Poxa, vendo o esforço que tanta gente faz junta, todos os anos, mais e mais pessoas, para ler e declamar esse monumento literário, não é possível que você vai deixar de finalmente encarar a leitura sozinho no conforto do seu sofá, né?

Combinado, então. Boa sorte! Pode apostar que vai dar certo!

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado à literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.