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Graciliano Ramos: o mestre modernista das letras alagoanas e seu “Vidas Secas”

Inserido em 22 de agosto de 2025
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Pensa num filme que mostra a aridez e a desolação do sertão nordestino. Aquela paisagem brilhante de ar rarefeito e horizonte vaporoso da Caatinga, abaixo de um sol escaldante que preenche a extensão de um céu sem nuvens e quase nenhuma sombra disponibilizada pelas copas mirradas de árvores retorcidas. Imagens apocalípticas de um solo com feridas estreitas, de tom terracota, repleto de desníveis, poeira e fissuras, características da estrutura geográfica e geológica da seca. Folhas estalando e crepitando ao serem pisadas pelos andarilhos atrevidos que ainda resistem à fome e à prostração anêmica da desnutrição aguda. Um ambiente em que a sede e a fraqueza são tão bem descritas quanto sentidas. Essas são as cenas que eclodem na mente ao lermos os livros de Graciliano Ramos, dono de uma prosa limpa e cinematográfica, dada a facilidade de devanear e elaborar suas imagens rabiscadas no papel. 

O Alagoano Graciliano foi um dos maiores nomes da segunda geração do modernismo brasileiro. Seus livros trazem críticas sociais ferozes sobre a pobreza, a exploração do homem sertanejo e a seca nordestina. Retratam o panorama histórico brasileiro-nordestino do século XX. Com uma linguagem que se ombreia à oralidade, à objetividade e a economia no uso de adjetivos, oferece uma escrita pautada pela rispidez e pela negatividade. Afinal ele está ali para retratar a desesperança daquele povo, do qual quase tudo foi negado ou retirado, um povo judiado pela seca, pela fome e pela carência, que mantém a esperança como forma de tentar driblar a morte e o destino. 

Um texto de contraste inovador e que promove uma ruptura com a exuberância da linguagem que caracterizou a literatura brasileira dos românticos do século XIX. A obra de Graciliano revela um Brasil em crise, um país de contrastes, em que os mais pobres e os miseráveis são suas principais vítimas. Trata-se de uma obra ficcional bem sucinta. Escreveu quatro romances (“Caetés”, “São Bernardo”, “Angústia” e “Vidas Secas”), dizendo o que tinha para dizer sobre seus temas chave. Depois, deixou o gênero de lado e foi fazer autobiografia (gênero consagrado em “Memórias do Cárcere”). O cara não queria saber de ser redundante nem de encher linguiça ou chover no molhado em sua obra. Como escritor, só dizia o essencial. Se não fosse um tema relevante, preferia o silêncio, quase uma obsessão. Ao rever seus escritos, sempre cortava, reduzia, eliminava adjetivos, parágrafos e queria ser o mais enxuto possivel, fascinado pelo nada, fazendo com que sua obra dialogue com a do mexicano Juan Rulfo, igualmente obcecado pelas mesmas premissas. Pela temática, o livro se sobrepõe também à obra de Rachel de Queiroz e de José Lins do Rego.

Segundo Antonio Candido, em um de seus ensaios do livro “Ficção e Confissão”, “Graciliano seria capaz de eliminar páginas inteiras, eliminar os seus romances, eliminar o próprio mundo. Entre o nada primordial anterior ao texto e o risco de acabar em nada devido à diluição da insatisfação posterior com o resultado, equilibra-se sua obra essencial, uma das poucas em nossa literatura que parece melhor com a passagem do tempo, porque mais válida à medida que a lemos de novo. Ele (Graciliano) é o grande clássico da nossa narrativa contemporânea”.

Graciliano é único, e trouxe a pauta do homem nordestino do sertão para a janela do meio literário brasileiro. Escritor de múliplos predicados e talentos, munido das melhores capacidades narrativas e modernas técnicas de escrita criativa, Graciliano consegue ser moderno, sem ser ultramodernista e, inspirado no estilo de Joyce, Woolf e Kafka, usa muito bem os discursos da introspecção e do fluxo de consciência, sem cair no formalismo hermético.

Graciliano é brasileiro, sem ser regionalista. Trata o homem do Nordeste com respeito, não como figura pitoresca e excêntrica como faziam seus antecessores. O nordestino é, então, um sujeito capaz de sonhar, de amar, de sofrer, enfim, de ser protagonista de sua própria história. Nisso se distancia de Rachel de Queiroz, de José Lins do Rego e de outros escritores regionais. O que faz de Graciliano um gênio são dois aspectos fundamentais: sua técnica narrativa impecável, afiada como navalha, e a sua capacidade inesgotável de adentrar, sem anestésicos, na profundidade da alma humana (a nordestina, a brasileira e a universal). 

Segundo o sociólogo francês Roger Bastide, “Graciliano Ramos conseguiu criar um mundo bem dele, o que o torna um dos maiores romancistas atuais da língua portuguesa e que, para se exprimir, soube encontrar uma linguagem densa, direta e sem floreios, sugestiva, colada ao pensamento e sempre admirável. Sem tecido adiposo ou molho pardo, sem azeite de dendê nem leite de coco, sem pimenta da costa, como os escritores da cana-de-açúcar, mas com farinha de mandioca, macaxeira, carne seca ao sol, que conserva o gosto da terra queimada”.

“Vidas Secas” foi o derradeiro romance ficcional do autor. Quando publicado, ninguém imaginou que seria o último, tamanho o prestígio que gozava em seu meio. Graciliano não precisou de mais nenhuma obra de ficção para consagrar seu legado literário. Mesmo que tivesse feito, teria sido impossível superar o sucesso de seu mais famoso livro. “Vidas Secas” é o mais singular dos quatro romances do Graciliano. O que tem uma estrutura menos tradicional. Traz uma  experiência diferente. É o único escrito em terceira pessoa e desprovido de uma organização do todo ao redor de um protagonista chave. Ele fez isso com o João Valério, de “Caetés”, com Paulo Honório, de “São Bernardo”,  e com Luís da Silva, em “Angústia”.

A estrutura narrativa de “Vidas Secas” não gira em torno de Fabiano, potencial protagonista. Ao contrário, é uma obra desmontável, pois Graciliano Ramos escreveu os capítulos como se fossem contos que, ao se agruparem, ganham a estrutura conjunta do romance, ou seja, a trama traz o agrupamento de histórias que funcionaria também de maneira eficiente, se elas fossem publicadas separadamente, em episódios justapostos e desprovidos de um elemento de ligação essencial. 

São episódios independentes, com o último capítulo tocando o primeiro em um encontro de fim com começo, formando um anel de ferro, um círculo de fogo, um labirinto sem saída e que se fecha na vida esmagada da família dos retirantes. E a forma encontrada para nos contar a história faz, como poucos, com que tenhamos a sensação de estarmos ali na pele dos personagens, protagonizando aquele sofrimento, num efeito bastante atraente à leitura. 

“Vidas Secas” é o drama contundente de uma família miserável e retirante que se desloca sem rumo pelo sertão árido e excruciante do Brasil, em busca apenas de tentar sobreviver, obrigada a se deslocar de quando em quando para áreas menos castigadas pelo flagelo da seca e da fome, alternando entre esperança e desesperança. 

“Vidas secas” é o calor e a queimadura do sol na pele. É a sede e a mucosa dos lábios rachando enquanto a garganta arranha e a boca agoniza. É a poeira terracota que se levanta com o pisar das solas das sandálias gastas e que gruda como látex escuro na pele queimada do homem sertanejo. É a injustiça da miséria e da fome, da desigualdade do poder econômico e das forças do Estado. “Vidas Secas” é o sertão brasileiro. Quente, seco, desalentado e muito pobre. 

Na planície avermelhada desse sertão, uma família de retirantes atravessa a seca em busca de vida nova. Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia caminham dias inteiros, debaixo de um sol inclemente, à procura de água, comida, dignidade e pouso. Fabiano é um pai rude e de poucas palavras e sentimentos, que passa a vida consertando cercas e domando animais, seus ofícios de sobrevivência. 

Sinhá Vitória é a mãe dona de casa que cuida dos filhos, faz contas com sementes e sonha com uma cama confortável de couro igual a do seu Tomás da Boladeira. O menino mais novo admira o pai e às vezes tenta ser como ele, e o mais velho admira a cachorra, que muitas vezes age como gente, diferentemente de seu próprio pai, que age como bicho. Baleia, a famosa cadela, é uma personagem emblemática, em muitos momentos até protagonista, pois Graciliano lhe confere características psicológicas e afetivas por vezes mais humanas do que as dos outros personagens. 

Baleia é mesmo uma personagem tocante e curiosa. Sua presença no romance tem um valor simbólico e de refinamento. Sua fama transcendeu as páginas do livro, como ícone da cultura pop. Coisas de Brasil. Baleia é a cadela da família pobre de retirantes que, no meio de personagens animalizados ou zoomorfizados pela brutalidade da vida de sofrimento e de privações, acaba por quase trocar de papéis com seus donos e sofrer o processo inverso, uma via poderosa de humanização (ou antropomorfização).

Baleia, assim, se desbestializa e assume um comportamento quase humano em muitas passagens, sobretudo no seu momento derradeiro, um trecho belíssimo, conquanto bastante triste. Graciliano, na figura de Baleia, nos dá uma lição de pureza, de inocência e de honestidade. Por intermédio de uma simples cachorra, tocou no insondável mistério da alma humana, no que somos pelo potencial de nossos sonhos. Sim, Baleia nos leva aos extremos da emoção, Baleia, que à beira da morte, doente e desenganada, ainda sonhava com preás saborosos. 

De resto, a maneira como todos veem o mundo e tentam compreendê-lo, mesmo  sem recursos para tal, é o que os torna extremamente reais. É interessante ver como os capítulos contam as perspectivas de cada um dos membros da família e a forma como estão inseridos na sociedade, sofrendo todas as negações e animalizações possíveis, influenciados pelos fenômenos naturais e agudos do sertão brasileiro. 

Marco da segunda fase do modernismo, “Vidas secas” é o registro da identidade de um povo e um clássico incontornável da literatura brasileira, da  comiseração pelos que estão nos estratos sociais e culturais menos favorecidos, evidenciando, entretanto, a condição humana intangível presente mesmo no mais embrutecido dos indivíduos. Graciliano descobriu essa riqueza escondida no homem rude e desolado, dando voz aos que não sabem analisar e entender os próprios sentimentos, como Dostoiévski havia feito sessenta anos antes.

“Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinhá Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava.”

A aridez do cenário, a prosa do escritor — econômica em adjetivos e abundante em frases diretas de um discurso desolado em períodos curtos e incisivos —  faz de “Vidas Secas” um livro referência para os brasileiros, que ajudou na descoberta de uma parte importante do país até então desconhecida dos grandes centros. 

“Vidas Secas”, portanto, não é um mero romance regionalista, romance proletário ou romance nordestino. Como em nenhum outro romance até então, “Vidas Secas” se tornou ficção universal e atingiu um apuro político e estético que o posiciona confortavelmente no pódio das obras-primas da literatura brasileira do século XX.

Se você é um cidadão brasileiro, precisa colocar o livro no seu currículo de leitor. Urgente. Ou recolocar, se já o leu no passado. De um modo ou de outro, mãos à obra. O livro, apesar de seus efeitos permanentes, é bem curto e de leitura rápida.