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Patricia Carvão indica filmes para altas reflexões no fim de semana

Inserido em 15 de agosto de 2025
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Na coluna desta sexta-feira, falo sobre três ótimos filmes, com destaque para um cuja narrativa provoca uma reflexão sobre a importância de saber se comunicar de maneira adequada — algo fundamental para a vida em sociedade. Parece simples, não é?

Na verdade, o ato de se comunicar traduz algo muito mais complexo porque, para que ele se complete, é fundamental percorrer um longo caminho entre a emissão da mensagem e sua recepção pelo outro. Ocorre, porém, que entre o ato de pensar, traduzir o pensamento em uma fala, emitir a mensagem, e aguardar a recepção da mensagem, a escuta pelo outro e a interpretação daquela fala emitida, muitos mal-entendidos podem acontecer. Muitos aspectos têm influência nesse processo, do tom de voz à linguagem corporal.

O filme “Sementes Podres”, que pode ser encontrado no catálogo da Netflix, conta a história de Wael, que tinha tudo para dar errado na vida. Apesar do prognóstico, ele conseguiu fazer do limão uma limonada. Acostumado a praticar pequenos delitos, sempre na companhia de Monique (interpretada por Catherine Deneuve), Wael aceita uma proposta de Victor, antigo conhecido de Monique, para se redimir. Ele deve trabalhar durante um período no centro beneficente dirigido do rapaz, que presta assistência a jovens com dificuldades escolares, tanto de comportamento quanto de aprendizagem. 

Wael começa, então, a interagir com os jovens, demasiado arredios e pouco cooperativos, passando a ensinar-lhes lições de vida adquiridas ao longo de sua própria conturbada história, fomentando neles algumas reflexões durante o processo disciplinar/punitivo em curso. Dentre as várias lições e experiências de vida compartilhadas por Wael, ele ressalta o papel da comunicação. Para dar sentido à sua fala, ele leva o grupo para uma aula prática, ao ar livre, com o objetivo de demonstrar que a comunicação é algo essencial, que pode ser trabalhada e aperfeiçoada a fim de evitar conflitos e abrir portas ao invés de fechá-las. Algo que nem sempre se aprende na escola, mas ainda assim tão importante!

O filme tem um astral positivo, com uma mensagem cheia de esperança, mostrando que todos temos algo de bom para dividir com os outros, ainda que tenhamos seguido por caminhos e atalhos diferentes.

Outro filme que recomendo é “Um Homem de Sorte“, uma produção dinamarquesa um tanto longa, mas daquelas que nem sentimos o tempo passar. Muito bom! 

Peter Andreas Sidenius é um jovem filho de uma família religiosa que decide mudar-se da cidade onde vive, no interior da Dinamarca, para Copenhague, a fim de frequentar a faculdade de engenharia e desenvolver um interessante projeto de captação de energia que pretende impulsionar com seus estudos.

Peter é obstinado, e tudo na sua vida gira em torno dessa questão. Ele procura as pessoas certas, que a seu ver poderiam custear e dar vida ao seu projeto, e passa a frequentar a alta sociedade unicamente com este fim. 

Ao mesmo tempo que tudo parece caminhar bem, o desenrolar da história mostra que Peter possui uma personalidade complexa, talvez até mesmo adoecida: tem péssimo relacionamento com seus familiares, que ainda residem no interior do país, e é incapaz de perdoar seu pai pela rígida educação religiosa imposta a ele. Alimenta mágoas profundas e tem imensa dificuldade de refletir sobre sua maneira de ser ou estar no mundo.

O protagonista é atormentado por seus próprios pensamentos, que se embaralham em sua mente, e muitas vezes o impedem de realizar seu sonho. Parece ser incapaz de amar e de ser grato, mas ao mesmo tempo sofre pelo fato de ser assim. O filme acompanha sua vida por muitos anos, e mostra como é difícil ser quem se é, e como muitas vezes nosso pior inimigo somos nós mesmos. Está disponível na Netflix!

Encerro a coluna com “Aqui”, disponível no Prime. Em um trecho do poema “Tenho Tanto Sentimento”, Fernando Pessoa nos fala sobre a vida dividida, que acontece entre a vida vivida e a pensada, entre a vida verdadeira e a errada. A vida acontece sem qualquer controle ou filtro, muitas vezes se distanciando sobre o que idealizamos e/ou desejamos para nossas próprias histórias. Às vezes também nos damos conta de que recebemos mais do que supostamente mereceríamos, o que varia de acordo com sua perspectiva.

A vida é algo que não se explica, que não se compreende muito bem, e que muitas vezes não faz o menor sentido. Como em um quebra-cabeça, as peças — os acontecimentos — às vezes se encaixam, outras não. Tudo simplesmente acontece, de mãos dadas com o acaso. Ter um olhar sobre o todo, sobre início, meio e fim de nossas próprias narrativas é algo que não nos é oferecido. Somos todos personagens de uma história que está acontecendo, cujo fim não conhecemos. Olhar a vida pelo lado de fora só pode ocorrer quando nos propomos a ler um livro até a última página, ou quando nos tornamos espectadores de um filme, como acontece em “Aqui”.

A narrativa elege como ponto de partida o espaço físico de uma casa, e é em torno desse local que acontecem as histórias das pessoas que habitaram esse espaço: desde um casal pertencente aos povos originários do país, até famílias americanas tradicionais, já viveram ali. A narrativa não é linear — ora avança, ora retrocede, ora mostra uma família do passado, ora do futuro. O foco principal é a história de Richard e Margaret, interpretados por Tom Hanks e Robin Wright, respectivamente.

Achei o filme muito bom, ainda que angustiante. Assistir à juventude e ao envelhecimento de Richard e Margaret, observar seus sonhos e o “produto final” de suas histórias é impactante. Não há como não nos conectarmos com os personagens, ora olhando para nossa própria história, ora projetando o que ainda buscamos construir — o que buscamos fazer enquanto estamos por aqui.

Lembro de ter me sentido assim quando assisti ao filme “Boyhood – Da Infância à Juventude”, de 2014, cuja narrativa percorre a vida de Mason durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua trajetória conforme vai amadurecendo.

“Aqui” fala da passagem do tempo. Fala do que é a vida, das nossas escolhas e também do que o acaso escolhe por nós. 

Bom final de semana!