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Milan Kundera e sua insustentável leveza do ser

Inserido em 25 de julho de 2025
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Engraçado quando pegamos um livro para ler, talvez num momento que não seja o mais adequado para o texto. E então acabamos não curtindo a leitura. Ela fica truncada, estranha, algo não flui. Nessas situações, é inútil insistir. Tem que deixar de lado um tempo. Mas como isso aconteceu no caso da obra em questão? Afinal, o livro é indicado por muita gente que entende de literatura. Quase unanimidade. Se não bastasse isso, quem “frequenta” os círculos literários, conhece a presença marcante de Milan Kundera nas prateleiras (físicas e virtuais). Já eram muitos títulos dele disponíveis, mas a intuição de leitor principiante falhou feio. E eu rejeitava as obras dele. Eu enxergava Kundera como um mero escritor de best sellers que as pessoas compram, leem e esquecem. Isso já faz tempo. Talvez por isso, demorei a encarar. E quando encarei, detestei. Na verdade, não estava pronto.

Pois é. Aconteceu. Todos temos momentos em que estamos mais ou menos suscetíveis e receptivos a este ou aquele estilo de leitura. Faz parte. Mas a historinha não acaba aqui. Anos depois, voltei a lembrar do livro por acaso lendo uma breve resenha e resolvi tentar de novo. Qual a surpresa dessa vez? Adorei. Descobri um novo romance, ótimo e numa experiência de leitura agradável e positiva. O livro mudou? Eu mudei? Ou deu match no momento certo em que eu estava preparado para a leitura?

Todos os motivos juntos. Fato que Kundera é um escritor de mão repleta. O tcheco nacionalizado Francês, Milan Kundera, faleceu recentemente (julho de 2023) e deixou um legado literário à disposição do público.

Kundera tem um estilo de erudição e sagacidade na escrita que conflui para uma lucidez irônica e zombeteira. Ponto pra ele. E como explicar essa influência de ironia e espiritualidade na sua prosa? Talvez porque o idioma tcheco tenha sido um idioma utilizado em ambientes menos formais do que o alemão, por um povo menos sisudo que não se levava tão a sério, podendo brincar de si mesmo e de seus infortúnios. Talvez porque o país fica no meio do caminho, bem no centro do velho continente e que, assim como a Polônia, costuma ser invadido quando estouram grandes guerras entre as grandes nações e impérios. Se é assim, a brincadeira, a ironia e o humor acabam virando armas dos desarmados e menos poderosos e estes se tornam ainda mais libertários e cortantes, atuando para revelar farsas e desmoralizar invasores também por intermédio da zombaria de seus textos.

Dono de textos sarcásticos que retratavam a condição humana, Kundera vivia na França desde que emigrou da antiga Tchecoslováquia em meados da década de setenta. Era grato à França pela cidadania e pelo acolhimento, jamais demonstrando interesse de estreitar seus antigos laços com sua pátria, magoado pela forma como foi obrigado a se desconectar de sua cidade e de suas origens. O autor publicou vários livros excelentes na carreira, mas ficou marcado pela sua obra mais importante, objeto de análise na sequência.

Para um melhor entendimento da dinâmica de vida de Milan Kundera e do enredo da obra escolhida, abro um parêntese para contextualizar o momento histórico que o país (então chamado Tchecoslováquia) enfrentava. Com o fim da segunda guerra mundial, e com a divisão do mundo em dois blocos principais liderados por Estados Unidos e União Soviética, os tchecos ficaram incorporados ao eixo comunista. Em 1968, mais de vinte anos após o começo da guerra fria, os tchecos, fartos da rigidez política, econômica e cultural decorrente do socialismo, desejavam mudanças estruturais de aspecto mais liberal, rejeitando a censura à imprensa e ao pensamento livre, a existência de um único partido e especialmente as ordens muito rígidas advindas de Moscou.

Assim, em janeiro de 1968, os dirigentes locais resolvem promulgar uma série de medidas normativas de afrouxamento liberal e de maior tolerância com um estilo de gestão menos intervencionista. Esse período, que durou apenas oito meses, foi denominado como Primavera de Praga, uma época em que o povo gozou de maior liberdade de autonomia em sua manifestações. A União Soviética desaprovou a iniciativa e invadiu o país em agosto do mesmo ano para restabelecer a hierarquia e a obediência junto ao comando central do bloco. Milan Kundera, ombreado a alguns outros intelectuais do país, foi um dos principais ativistas do movimento reformista e pagou caro pela ousadia. Em 1979 foi expulso do partido e ainda tentou liderar sem êxito um movimento de resistência, mas acabou se exilando em definitivo na França, após perder a sua cidadania original.

“A insustentável leveza do ser” está ambientado exatamente nesse período conturbado da história do país. Um tipo de livro difícil de ser definido, que desafia o leitor. O título já é muito bom e atrai a leitura. Título inventivo, inteligente e bem escolhido, daqueles que vão gerar reflexão sobre a escolha e fazer o livro vender muito e ser um sucesso editorial mundo afora. Porque todos nós acreditamos que, se a leveza, de um modo geral, (seja como estado de espírito ou como estilo de vida) é algo positivo e desejado, como entender seu viés de peso e de insustentabilidade sugerido pelo escritor? Enfim. A insustentável leveza do ser é um livro que se debruça sobre a temática fundamental dos relacionamentos humanos, explorados a partir da persepectiva de pouquíssimos personagens.

É uma obra multifacetada, um mosaico de diversos gêneros e alternativas. Assim, ele consegue ao mesmo tempo ser filosófico, histórico, inteligentemente sarcástico e bastante erótico em certas passagens. O autor faz da história, talvez sem intenção, um tratado sobre a vida em suas diversas facetas, tanto leves quanto pesadas. Essa ideia dual permeia a trama em suas sete partes e dá sustentação ao romance: com a premissa de Nietzsche acerca do “Mito do Eterno Retorno”, isto é, um conceito que o filósofo resgatou do Oriente, apontando para a hipótese de que o tempo e o universo são infinitos e os eventos que ocorrem são finitos, logo, estes se repetem de forma igual toda vez que acontecem, por toda a eternidade.

A partir dessa ideia, Kundera desenvolve a relação entre os conceitos de “leveza” e “peso”. Para a filósofia grega, o peso possui uma qualidade negativa, ao passo em que a leveza, positiva. Mas Nietzsche contraria esta ideia, dizendo que, apesar de o peso assumir uma faceta negativa, é ele que confere significado à nossa vida, marcando-a com um fardo existencialista, daí a “insustentável leveza”. Milan Kundera utiliza esses pontos conceituais duais como forma de metáfora para nos apresentar a sua narrativa; o peso e a leveza são personagens invisíveis, que precisam estar bem incorporados na ideia da narrativa, para auxiliar na análise e na melhor compreensão de cada um dos personagens centrais. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza assume um viés extremamente fugaz, se revelando em seguida um peso insustentável para quem o experimenta. Sim, o texto se alimenta deste paradoxo indeclinável.

É com grande naturalidade que Kundera vai nos conduzindo pelas cenas e galerias da vida dessas pessoas, através de fragmentos ora leves ora pesados e adicionando a acidez e a ironia de algum comentário pessoal do narrador. Os temas tratados são variados, desde conceitos complexos como o amor, a compaixão, o peso e a leveza, o existencialismo, as escolhas que fazemos, a passagem do tempo, a possibilidade de mudança e a angústia de sermos totalmente livres para escolhermos o que quisermos, mas de também somente vivermos uma única vez, o que não seria o suficiente para testar caminhos diferentes, obrigando-nos a arcar com o fardo pesado da consequência definitiva de nossas escolhas.

Assim, neste que é dos romances mais importantes do século XX, ficção e filosofia se entrelaçam por meio da história de quatro adultos capazes de quase tudo para vivenciar o erotismo que desejam para si. Como limite, encontram um tempo histórico politicamente opressivo e o caráter enigmático da existência humana. Infidelidade, amor, compaixão, eterno retorno, acaso e arbítrio são alguns dos grandes temas que o escritor articula num romance de ideias e paixões, em que o leitor percorre suas reflexões temáticas de braços dados com cada um dos personagens – Tereza, Tomas, Sabina e Franz – e acompanha suas histórias de vida com a profundidade de um estudo. O resultado é uma obra original, um clássico da literatura. Uma escrita muito gostosa e profunda, malgrado um pouco complexa.

O leitor encontra Tomas, pela primeira vez, em seu apartamento, em Praga, em pé de frente para uma janela, com os olhos fixos na parede do prédio defronte, no momento em que ele se depara com uma decisão difícil em sua vida: deve ou não convidar a mulher que conheceu há três semanas para que se instale em sua casa? Deve manter sua vida de leves encontros sexuais ou assumir um compromisso? A sua vida até então tem sido uma sequência de decisões tomadas de forma muito leve, já fora marido e pai no passado, mas mudar não foi um problema. Além disso, ele é um cirurgião bem sucedido e respeitado que consegue se envolver com qualquer mulher por quem se interesse. Vínculos mais profundo são vistos por ele como evitáveis. É nesse momento que o dilema entre o peso e a leveza se apresentam para ele, e a dúvida se instaura pois, como diz Kundera, “quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira”.

A mulher em questão é Tereza, uma jovem que trabalha como garçonete em uma cidade do interior da Boêmia. Tereza deseja muito escapar da sua vida medíocre nesse lugar e acredita que uma das maneiras seja através dos livros. Essa convicção a faz se aproximar de Tomas quando ela o atende no bar onde trabalha, percebendo que ele é a única pessoa do lugar a portar um livro. Tereza, ao contrário de Tomas, procura algo ao qual se comprometer, como se o peso pudesse dar um sentido único a sua vida, pois ela tem a habilidade e o fardo de se doar inteiramente a um projeto, mas nem sempre a si mesma.

A partir desse encontro, desenrola-se a trama que ocupa a maior parte do livro, o relacionamento entre Tomas e Tereza, e, posteriormente, com o cachorro Karênin, um curioso animal por eles adotado.

Como cenário e pano de fundo ao romance, embarcamos em uma viagem pelo tempo com Kundera, que nos mostra a Primavera de Praga, em 1968, às mudanças fugazes experimentadas por um povo farto da cortina de ferro e os eventos políticos subsequentes. A Tchecoslováquia era liderada por um presidente que se aliou aos intelectuais em prol de uma maior democratização e soberania do país. Como reação a esse movimento, forças militares da URSS invadiram o país, depuseram Dubcek e restabeleceram a diretriz do Partido Comunista da Tchecoslováquia.

O outro eixo narrativo de opostos entre peso e leveza é o dos personagens Sabina e Franz. Ela é uma artista que abomina a presença do comunismo em seu país, emigrando para a Suíça na época da invasão russa. Lá ela conhece Franz, um professor universitário, cuja vida hermética protegida e frustrada, o faz em paradoxo absoluto, idealizar uma vida sob o signo de algo tão forte e magnetizador como o regime comunista. Sabina era uma das amantes fixas de Tomas, e, assim como este, não parece se adaptar a ideia de qualquer tipo de comprometimento. Franz, pelo contrário, se sente preso em um relacionamento infeliz, por medo e insegurança.

São quatro personagens extremamente marcantes que materializam a qualidade que mais chama à atenção em “A Insustentável Leveza do Ser”, ou seja, a verossimilhança dos discursos narrativos. Kundera conseguiu criar personagens extremamente reais e passíveis de falhas, e, justamente por isso, tão próximos do leitor e inesquecíveis ao público. Kundera nos traz ainda uma reflexão sobre a ideia da vertigem. “A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos, aterrorizados” Através desta passagem, entendemos que nossos desejos e medos mais íntimos estão eternamente entrelaçados, assim como o peso e a leveza, ambos insustentáveis quando sozinhos.

Ao falar sobre seu livro mais festejado e célebre, Kundera afirmou que “a vida humana acontece só uma vez, e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só poderemos decidir sem ter uma segunda chance. Geralmente, não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta chance para que possamos comparar decisões diferentes.”.

Sábias palavras, pois na vida, ao contrário do teatro, não temos a alternativa de um ensaio prévio que nos permita identificar e corrigir os erros cometidos.