Portugal inventou e depois nos emprestou o idioma adaptado da nossa maneira. A gente passou a escrever e falar de um jeito diferente deles — tão diferente que, às vezes, parecem duas línguas próprias. Brasileiros falam como brasileiros e escrevem como brasileiros, assim como os portugueses fazem o mesmo na outra ponta. Não adianta querer falar o português de lá e muito menos tentar escrever como eles. Não rola. Vai dar ruim. Daí porque temos uma sensação um tanto exótica e desencaixada ao lermos e interpretarmos textos em português europeu. Certa perplexidade com a redescoberta e retorno à origem do idioma pátrio. Ler fora do ambiente de um texto brasileiro nos atira a esse rodamoinho de estranheza linguística. A literatura portuguesa nos faz esse serviço e nos ajuda com a aclimatação ficcional.
Portugal está enraizado no Brasil desde sempre. Eles nos descobriram há cinco séculos e nos colonizaram de maneira confusa, anárquica e totalmente multicultural. O caldo que somos como povo e como nação, para o bem e para o mal, é resultado dessa miscigenação efervescente determinada não apenas pelo encontro genético improvável do luso com o índio, mas especialmente pelo tempero dado pelo implemento da política escravocrata de massa, que nos forneceu o ingrediente da etnia africana, matriz essencial de polimento e de definição de nossa estirpe fenotípica.
Tais elementos, somados ao jeito peculiar de se fazer a política e de se tocarem as engrenagens administrativas do Estado, seguiram forjando e transformando aos poucos a identidade deste povo — um fenômeno acompanhado de perto pela literatura, registro ficcional do processo de criação de uma identidade e de uma maneira de existir. A literatura portuguesa foi inaugurada por Camões e Gil Vicente, passando por tantos escritores de importância destacada na história. Esbarrou e se rendeu a Eça de Queiroz em pleno século XIX, avançando e evoluindo sempre como arte de escrita e de cultura, com nova pausa para bater continência a um sujeito poeta de nome Fernando Pessoa, que apareceu no começo do século XX, até o momento de alcançar e cruzar a caneta e as ideias com as de um homem simples, filho de agricultores e nascido 102 anos atrás no vilarejo de Azinhaga, interior de Portugal.
José de Sousa Saramago, ou apenas José Saramago, é um capítulo à parte nas letras portuguesas e também na minha relação com a literatura. Ele é, ao mesmo tempo, um encantamento e uma desconstrução. Seu estilo de pontuação, de ortografia, de criação dos parágrafos, de emprego de ritmo à narrativa, tudo é muito próprio dele e carrega sua marca registrada. Isso sem falar na maneira autêntica de estabelecer um diálogo constante entre narrador e narratário (entidade fictícia e que existe apenas textualmente, funcionando como alguém a quem o narrador se dirige de forma expressa ou tácita, para conversar sobre aspectos da trama). O narratário não é o leitor, mas um sujeito de vida dentro do papel, que está lá nas páginas, como alguém que existe para que o narrador reflita melhor e/ou desabafe — e traz um efeito bastante interessante ao texto.
Para mim, ler Saramago em português de Portugal é como ouvir a música conhecida e familiar em que demoramos a entender a letra. É uma surpresa atrás da outra. Uma revelação constante de significados e sinônimos, que nos delicia à medida em que vamos passando os olhos pelas páginas. E mais, o escritor tem a sagacidade exata para desenvolver seus enredos com sacadas fenomenais ao longo do texto. E a maneira de rabiscar as palavras tem toda uma empunhadura própria. Enfim, esse é José Saramago, prêmio Nobel de Literatura.
Se não bastassem tantas qualidades literárias, ele ainda foi um ser humano da primeira prateleira e tinha muita identificação com o Brasil e com os escritores brasileiros, que ele adorava ler. Muito além de seu legado às letras universais, José Saramago permanece eterno pelas reflexões que provocava em seu público, autêntico intelectual que era, dotado de uma percepção lúcida e aguçada sobre o ser humano, suas dores, contradições e sobre as profundas desigualdades sociais e injustiças, comprometido que estava com a humanização do mundo e com a difusão de ideias que contribuíssem para esse objetivo. Ele enxergava a alma das pessoas e assim se aproximava de seus leitores. Daí o grande legado de Saramago.
Existem porções de bons autores que escrevem uma ou duas obras excelentes na carreira e depois se diluem em sequências de romances menos inspirados. José Saramago escapa desta tendência e consegue êxito de crítica e público em vários de seus livros (pelo menos em uma dezena deles) mantendo o padrão de sofisticação literária acima do normal, elemento que traz destaque ao legado do autor. Para exemplificar, abordarei aspectos de duas dentre suas obras mais importantes, malgrado a infinitude de possibilidades e de simbolismos de seus livros.
A primeira é a maravilhosa “Intermitências da Morte”. Aqui, Saramago está sendo mais Saramago do que nunca. Uma das leituras modernas favoritas. Clássico mundial instantâneo. O autor português, com uma escrita castiça e lírica, brinca com as palavras de modo magistral, atributo próprio dos grandes gênios, e nos coloca fora da zona de conforto desde a largada, embasbacados e perplexos, refletindo sobre questões inerentes ao contexto sugerido, hilárias ou dramáticas, como se fossem óbvias e estivessem sempre estado ao nosso alcance, apesar de nunca termos nos dado conta disso. Suas premissas são propositalmente absurdas e instigantes — e encaradas com toda a naturalidade.
A morte, cansada de ser tratada como vilã, personificada como grande protagonista do romance, resolve entrar em greve e deixar de matar por prazo indeterminado, na estrita esfera territorial de um país inominado, provavelmente Portugal. A partir daí, surgem problemas das mais variadas ordens e o escritor, com sua maestria de prosador fora da curva, se incumbe do exame das consequências do caos, articulando angústias e ironias próprias da hipótese sugerida, causando angústia, deleite e entretenimento no leitor.
E o que no início provoca um júbilo patriótico, logo se revela um grave inconveniente, capaz de colocar em risco a estabilidade do país. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder desencarnar. Os trabalhadores e empresários do ramo funerário se acham afastados de sua matéria-prima, assim como hospitais e asilos se deparam com a superlotação crônica, que não para de aumentar e causar inconveniência. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, ou como se dirigir à nação, enquanto o cardeal se desespera porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há fé e sem fé não há igreja”. Fica escancarada a conveniência de um retorno ligeiro ao estado natural de mortalidade.
Mas é da segunda parte em diante que o livro levanta voo e ganha os céus do Olimpo literário, quando testemunhamos a dificuldade da morte, apesar de ter restabelecido a normalidade das coisas, em cumprir o destino de um violoncelista pacato que, teimoso, entre uma suíte de Bach e sonatas de Chopin e Beethoven, insiste em se desviar do encontro com o fim. O cerco da protagonista a esse fugidio personagem vai se fechando na mesma medida em que vai sendo dado a ela, a morte, um aspecto cada vez mais humano, culminando no desfecho surpreendente e poético escolhido.
O outro livro é talvez a obra magna do autor. Publicado em 1995, “Ensaio sobre a cegueira” é uma viagem às trevas da humanidade. De repente, uma pessoa fica cega ao volante de um automóvel, e a condição extraordinária vai em efeito dominó se transformando em epidemia generalizada. Ninguém entende o motivo, nem estima a duração da crise.
Neste clássico moderno da literatura em língua portuguesa, o leitor é tragado para um cenário devastador, e uma “treva branca” passa a assolar a sociedade, espalhando-se incontrolavelmente. Toda a população deixa de enxergar, exceto por uma mulher, que se faz de cega para acompanhar o marido na quarentena compulsória a que todos foram submetidos. Presos à nova realidade, os cegos se descobrem reduzidos à essência humana e enfrentarão uma espécie de retorno ao estado de natureza e de barbárie inimagináveis.
O autor usa uma descrição visceral de alguns elementos dessa nova realidade. Ao serem entulhados na quarentena improvisada, os cegos passam por momentos horríveis e enfrentam condições deploráveis. Há descrições escatológicas dos excrementos, da falta de higiene, do mau cheiro, além de cenas pesadas de estupro, agressão e assassinato. Estamos diante de um contexto apocalíptico.
“Ensaio sobre a cegueira” é arrebatador. Uma bem bolada distopia sobre a brutalidade e a vulnerabilidade dos tempos modernos. E o autor vai criando uma situação de suspensão da normalidade das coisas que lentamente sufoca e tira o leitor da zona de conforto, pela degradação paulatina do cenário em doses próximas ao absurdo. Como mestre contador de histórias, Saramago leva o leitor para onde quer, mantendo acesa sua curiosidade e interesse pela trama.
Já nos aproximando do fim, uma derradeira curiosidade sobre o enredo. Uma escolha muito feliz de Saramago a de não dar nome aos personagens, denominando-os com base em suas características, como “a rapariga de óculos”, “o médico”, “a mulher do médico”, “o primeiro cego” etc. É uma opção interessante, que transforma o sofrimento em algo mais genérico e impessoal, afetando a todos por inteiro e por igual, inclusive os leitores. Então, quem é “a mulher do médico”? Quem é “o primeiro cego” além de ter sido a primeira pessoa de que se tem registro a ser afligida pela cegueira? Não se sabe a identidade de ninguém e a angústia da leitura vai aumentando a cada página.
Pois bem. O único Prêmio Nobel de Literatura em Língua Portuguesa não se cansa de nos surpreender. Invista em você. Leia Saramago!

As intermitências da morte. Companhia das Letras. 2020. 208 páginas. Preço de Capa: R$ 79,90.

Ensaio sobre a cegueira. Companhia das Letras. 2020. 312 páginas. Preço de Capa: R$ 89,90.
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.