Por Felipe Cuesta
Pedro Páramo é uma lenda da ficção mexicana e latino-americana. Pedro Páramo é universal. Pedro Páramo é o livro da vida de muitos. Pedro Páramo exige do leitor mais do que a maioria pode dar. Pedro Páramo só começa a fazer sentido na primeira releitura. Pedro Páramo é quase como plantar tâmaras. Pedro Páramo é desafio. Pedro Páramo é recompensa. Pedro Páramo é um diálogo vivo com os mortos. Pedro Páramo é silêncio. Pedro Páramo é mal-assombrado. Pedro Páramo é ausência desolada. Pedro Páramo é genial e genioso. Pedro Páramo é o avô do realismo mágico. Pedro Páramo podia ser o agreste brasileiro. Pedro Páramo é desconforto e perplexidade. Pedro Páramo é alegoria. Pedro Páramo é a própria literatura. O leitor que lute.
De enredo conciso e preciso, o único romance de Juan Rulfo parte da promessa feita por Juan Preciado à mãe moribunda. O rapaz precisa sair em busca do pai, Pedro Páramo, um lendário assassino. O livro nasce desse momento e tem começo eletrizante com a descrição primorosa da aproximação e chegada de Preciado ao vilarejo.: “Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo.” Essa frase abre o livro. A partir daí que a coisa segue.
Na saga, ele encontrará impressionantes personagens repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável de seu pai, o caudilho daquelas cercanias. Pedro Páramo foi senhor de terras e de gentes, mandava matar, mandava prender, mandava chover, confrontava o poder, corrompia o padre, manipulava a todos, tomava as mulheres à força e fazia filhos nelas, reconhecendo alguns e abandonando outros. Combateu os revolucionários e depois se aliou a eles quando percebeu que o poder mudaria de mãos e dali extrairia algum benefício. Pedro Páramo é puro suco de América Latina.

Na estrutura de Pedro Páramo, não há linha temporal exata, tampouco um narrador fixo. É um vai e vem contínuo. Juan Rulfo nos leva a mergulhar num emaranhado de lembranças e de sensações capazes de nos desorientar por completo se não estivermos atentos aos cortes abruptos, às mudanças de vozes e aos desdobramentos narrativos. Rulfo dissolve o leitor no turbilhão dos sentimentos de todo um povoado, em torno desse grande homem que é Pedro Páramo, o capo dei capi de Comala e dos arredores. O escritor ressuscita os mortos e descreve um cenário de assombros, povoado por vultos e seres fantasmas que sempre emergem e desaparecem em sombras. O romance é uma alegoria do México ferido, sangrando em agonia e que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca, que poderia muito bem ser o sertão brasileiro, onde apenas os mortos sobreviveram para narrar os horrores de sua história e de sua política.
Abre-se aqui um parêntese para lembrar a forma dos mexicanos enxergarem a morte. Eles, como parte de uma cultura de muitas ressignificações, celebram o « Día de los Muertos » com uma gigantesca manifestação popular e festiva. Algo sem precedentes nem paralelo mundo afora. Os mortos, como parte do imaginário coletivo, servem para expor indagações sobre o como se vive: falar sobre a morte é falar sobre a vida. Daí também advém o perfil estiloso e artístico das conhecidas caveiras mexicanas, como marcas de celebração da vida, com uso de cores e decorações vibrantes, alegorias que se tornaram parte essencial da cultura mexicana e são um lembrete de que a vida e a morte estão interligadas. Por isso mesmo, no contexto do livro, a morte assombra muito menos por si mesma do que pelas histórias tristes contadas por seus enviados sobre suas vidas miseráveis.
O calor insuportável também é um personagem chave na trama. “Já sentirá mais forte quando cheguemos a Comala. Aquilo está sobre as brasas da terra, exatamente na boca do Inferno.” A alusão ao inferno não é gratuita. As vozes que interagem com Juan Preciado não são vozes comuns. Todos os personagens, como dito, são almas mortas que vagam pelo povoado por não terem conseguido a absolvição de seus pecados antes do fim. Ninguém está vivo ali. Comala é um purgatório e nem todos os seus habitantes têm consciência disso. Tem gente que conversa com Preciado sem saber que morreu e pragueja a Deus pelos infortúnios do destino.

O realismo mágico latino não teria existido sem este livro. De sua fonte beberam o colombiano Gabriel García Márquez, o peruano Mario Vargas Llosa, o argentino Jorge Luis Borges e a chilena Isabel Allende, dentre outros. Realismo fantástico ou mágico, para quem não sabe, é inserir na narrativa elementos estranhos ou sobrenaturais, sem que essas situações causem estranheza nos personagens, funcionando como algo natural e corriqueiro. Tipo botar um idoso alado e enfraquecido voando num quintal com gente simples sentada tirando prosa. Navegar um navio fantasma que flutua na memória de um homem. Dois irmãos que caminham sobre cascatas de luz dentro de casa. Uma mulher que atravessa o deserto engatinhando em busca do túmulo do filho. Ou uma anciã que sonha com a própria morte e recebe a visita de um “vendedor de enterros”.
E por que tantos escritores mundo afora, como Susan Sontag e Günter Grass, pagam tributo a Rulfo? Acima de todas as outras coisas, pelo dom da concisão na escrita aliada à notável qualidade de seu texto. Todo escritor no fundo quer ser conciso. E concisão não precisa ser uma obra com poucas páginas. É possível fazer um romance de mil páginas, como Charles Dickens e Victor Hugo fizeram com David Copperfield e Os Miseráveis, e ainda assim ser econômico e direto nas palavras. Mas Rulfo conseguiu reunir os dois atributos. Além da precisão de sentido, entregou um texto curto. Cortando parágrafos inúteis, escolhendo palavras exatas e lapidando frases que descrevem a paisagem geográfica e a fauna humana local. Escrever é isso. É esculpir a narrativa. É trabalho árduo. É suar sangue e lágrimas para tentar aprontar um texto. É entregar ao leitor apenas a seiva escassa de um emaranhado de ideias iniciais raiadas na desordem de uma mente criativa.

Aqui o leitor precisa se envolver e fazer sua parte. Claro que é ótimo receber uma narrativa de mão beijada que conte uma história linear e acabada, com começo, meio e fim. Tipo a saga napolitana de Elena Ferrante. A boa literatura também pode ser assim. Não há mal nisso. Mas é gostoso também quando somos desafiados pelas narrativas. Por isso, tudo a favor das obras que convidem os leitores a juntar as pontas e preencher lacunas para criar suas próprias percepções individuais em suas inerentes leituras. Com Pedro Páramo, Juan Rulfo faz do leitor seu coautor. Seu cúmplice. Isso será apreciado tanto mais quanto o receptor do texto estiver aberto a garimpar as múltiplas camadas e se esforçar na descoberta do subtexto e na integração de sentidos e ideias deixadas em aberto pelo escritor.
Por fim, o mito de Pedro Páramo também foi alimentado pelo silêncio e pelo desaparecimento literário de seu autor. Juan Rulfo foi premiado e reconhecido por sua obra prima já em 1955. E, apesar dos apelos, passou seus últimos 30 anos de vida sem publicar mais nada. Com isso, frustrou a expectativa de muitos e valorizou ainda mais a sua obra prima fundamental. Pois um bom escritor também pode ser aquele que não publica. Que mantém a integridade de não lançar qualquer coisa. Rulfo brincava que deixou de publicar devido à morte de seu tio Celerino. Era ele quem lhe contava as boas histórias mentirosas e lhe oferecia as ideias mirabolantes de enredos. Rulfo publicou silêncio. E manteve o mito. Pedro Páramo e seu criador nos ensinam que literatura não é sobre quantidade. É muito antes sobre qualidade.
Leia Pedro Páramo. Ele é quase desconhecido no Brasil. Ele representa o projeto de uma vida inteira de um indivíduo que dedicou sua existência na busca pelo resultado perfeito, encapsulado em pouco mais de uma centena de páginas. Pedro Páramo também te ensinará que, quase sempre, a segunda leitura de um livro adorado — e esse hábito pode ser incorporado para as grandes leituras que marcam nossas vidas — pode ajudar a sedimentar as marcas e memórias do texto no inconsciente de lembranças de cada um de nós.
No último dia 6 de novembro, foi lançado o filme de Pedro Páramo na plataforma Netflix, versão 2024. Vejam o filme! Leiam o livro!

Pedro Páramo. José Olympio. 7ª edição. 2020. 176 páginas. Preço de Capa: R$ 59,90.
Boas jornadas!
O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.