Por Felipe Cuesta
Hoje não falarei de romances. Não sei se o leitor curte poesia. Talvez ainda não seja sua praia. A maioria das pessoas demora mesmo a incorporá-la ao seu repertório de leitura. Alguns passam a vida toda sem experimentar. Eu também demorei. Mas é preciso ler e conhecer o trabalho da autora polonesa Wislawa Szymborska, uma poeta fora da curva e de escrita arrebatadora. Apesar de seu nome difícil, suas palavras são simples, profundas e generosas. Aquecem o espírito e fazem sentido em qualquer circunstância. Sua poesia, de grande sofisticação, beleza intelectual e densidade filosófica, fica ainda melhor por ser vazada em uma linguagem clara, quase como prosa, e sem hermetismo, atraindo tanto leitores iniciados, como poetas e críticos literários, quanto o leitor comum.
Grandiosa, Wislawa Szymborska traz poemas que parecem pequenas crônicas e agradam até o leitor ressabiado, que acredita não curtir esse ramo mais lírico da escrita. A mulher era superdotada de atributos e predicados com a caneta. Já não está mais entre nós. Uma pena! Mas deixou um pequeno tesouro a ser descoberto e explorado, pois escreve poesia como se estivesse conversando com a gente em sua sala de visitas. Só lendo para entender. É um deleite explorar os seus textos.
Conheça a autora

Wislawa Szymborska nasceu em 1923 e morava em Cracóvia desde os 8 anos, a cidade mais elegante e bonita da Polônia. O fato de ter permanecido a vida inteira no mesmo lugar diz muito sobre si, conhecida por sua reserva e extrema timidez. Contudo, embora os fatos de sua vida tenham permanecido privados, quase secretos, seus poemas viajaram pelo mundo. Não são tantos: sua obra inteira consiste em cerca de 250 poemas, cuja função, como declarou a poeta no discurso do Nobel em Oslo, é perguntar, buscar o sentido das coisas. Quando lhe perguntavam por que teria publicado tão pouco, respondia que a lata de lixo é o melhor amigo do poeta. Sabia que o poema só germinaria se respeitado seu tempo de latência e que o “poema escrito na primavera não necessariamente resiste à prova do outono”.
Assim, Szymborska evidenciou, com seus escritos, que muito da qualidade literária e da grandeza se revela naquilo que um autor se recusa a escrever. Levou uma vida singela, sem grandes atropelos, e sempre foi discreta. Não gostava de dar entrevistas nem de aparecer na mídia. A premiação do Nobel colocou-a sob os refletores, transformando-a em uma celebridade da noite para o dia e, durante um bom tempo, tirou-lhe a tranquilidade para escrever — tanto que seus amigos se referiam ao prêmio como “a tragédia do Nobel”.
Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista, que o considerou obscuro demais para as massas. Talvez Szymborska tenha levado a sério a advertência da censura, pois a obra que viria a consagrá-la é de uma desafetação exemplar, despreocupada com rimas e com uma dicção coloquial, despojada de retórica e de efeitos poéticos. São poemas claros como água pura.
Mas também é possível espantar-se com a água — e assim é Wislawa Szymborska: ela se surpreende e nos surpreende, seja com as miudezas da vida, seja com os horrores da História. É uma poesia do assombro perplexo. O que caracteriza sua expressão criativa é a reiterada negação de formalismos e afetações, muitas vezes fazendo uso de graça e ironia, tirando o peso das coisas, mesmo daquelas que já são pesadas demais. Wislawa nos ensina a pensar sobre a existência, a morte, as guerras, os horrores, a história, a política — tudo de maneira descomplicada. Escreve sobre o amor e o tempo, nossa relação com os animais e a natureza, sobre arte, teatro, poesia, a alegria da escrita, epifanias do dia a dia. Encontros, desencontros, memórias, sonhos. Ou seja, sobre nossos eternos temas, tratados com honestidade, coerência e desvelo. Quando a lemos, experimentamos um arrebatamento tranquilo.
Há, em sua obra, muito do que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Pouco importa. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos — uma defesa natural de quem viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial e sentiu a brutalidade da ocupação nazista. Segundo ela, “o pior acontece, e será esquecido”. Em 1996, a poeta ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida fora da Polônia. Foi, talvez, o único sobressalto de sua vida.
Szymborska publicou relativamente pouco, considerando que sua atividade literária se estendeu por mais de meio século. Daí por que seus poemas são tão escassos e valiosos, como pedras preciosas difíceis de encontrar. Sua inspiração para a criação poética vinha de fontes muito diferentes. É visível a fascinação da poeta pelas ciências naturais, sobretudo a biologia e a astronomia, mas também pelos acontecimentos comuns da vida cotidiana, que eram, para ela, matéria de poesia, pois sempre conseguia vislumbrar neles algo extraordinário. Os temas, muitas vezes sombrios, ganham leveza graças ao humor e à ironia — recursos que produzem um distanciamento do eu lírico e evitam que se caia no trágico ou no patético.

Escassos também são os poemas de Szymborska sobre o amor e, normalmente, vêm carregados de uma dose de ironia. Por sua visão de mundo e pela leitura de seus textos, ela se mostra mais racionalista do que romântica. Na poesia de Szymborska, ninguém morre nem enlouquece de amor. Há uma nítida preferência pelo espetáculo da vida em toda a sua complexidade, com atos cruéis, mesquinhos ou simplesmente confusos. A arte é um singelo recorte bem delineado desse imenso palco onde se representam as verdadeiras tragédias e comédias da existência humana.
Outra chave para entender a sua criação poética: ela não se interessa pelos grandes acontecimentos que ocupam o centro do palco. Escolheu narrar o pequeno, o particular, o trabalho dos bastidores, a vida miúda — não só humana, mas também de outros seres que compartilham esse grande teatro que é o planeta Terra.
Os temas são profundos e filosóficos: infinitas perguntas, com muitas respostas — ou nenhuma. A escrita era sujeita a uma autocrítica tenaz. Wislawa Szymborska sempre escreveu pouco, e toda a sua produção caberia em um grande volume, podendo ser lida em um ou dois dias, mas requer tempo para ser de fato apreciada. Digerida. Apesar de seus versos lúcidos e acessíveis, que nunca recorrem a referências esotéricas ou a passes verbais de mágica, desdobram-se quase como equações lógicas cuja argumentação pode ser acompanhada por qualquer leitor.
Mas não é uma poesia fácil. Sua arte, que é a da contenção, da economia e da reticência, pressupõe, em cada poema, uma intencionalidade meticulosamente pensada e, portanto, esculpida ao longo de uma prolongada gestação. A polonesa escreve apenas poemas necessários — e os escreve uma única vez. Vale dizer: inventa procedimentos novos para cada um deles e não os repete nem os transforma, como fazem bardos menores, em matriz xerográfica de dezenas de poemas similares. Todo o resto é descartado.
Se você confia nas minhas dicas, ou é daqueles curiosos que precisam ver (ler) para crer, dê uma espiada em algo dela. Não por ser Prêmio Nobel — isso é apenas um detalhe —, mas pelo seu talento e apreço pela palavra bem escrita, cheia de sentimento e significado. Ela está no seleto time do que há de melhor: Wislawa Szymborska. No Brasil, foram publicadas três coletâneas dela pela Companhia das Letras, com poemas traduzidos por Regina Przybycien. Para despertar sua curiosidade, deixo aqui três deles, sobre temas distintos:
1- ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns – ou seja, nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório e os próprios poetas seriam talvez uns dois em mil.
Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia –
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso como a uma tábua de salvação.
2- O TERRORISTA ELE OBSERVA
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar; alguns de sair.
O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal e a vista, bom, é como no cinema:
Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta, e aquele mais alto entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não vai se saber quando os carregarem para fora.
Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse alg e às treze e vinte menos dez segundos ele volta para buscar a droga das luvas.
São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.
3- AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.