Patricia Carvão
O Agosto Lilás nasceu com objetivo de alertar a população sobre a importância da prevenção e do enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. A violência está presente na sociedade, moldada por costumes e estereótipos que durante longos anos colocaram (e ainda colocam) as mulheres em lugares pré-definidos, aprisionando-as. No âmbito individual, a compreensão das múltiplas formas de violência que podem ser praticadas contra uma mulher pode colaborar para perceber a relação abusiva na qual ela possa estar inserida. É relevante compreender que a violência praticada contra a mulher é uma questão que envolve não apenas elas, mas também os homens, que precisam rever práticas e condutas que atualmente não encontram mais espaço em nossa sociedade. A coluna de hoje traz filmes sobre esse tema.
A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries a que assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões para o fim de semana!
“MEU REI”
É um dos filmes mais fortes e impactantes a que já assisti, sobre como a violência contra a mulher pode passar despercebida até por ela mesma. Tony e Georgio Milevski já foram casados e hoje têm um filho. Tony demorou muito tempo para perceber as diversas violências que sofria do marido, um homem manipulador e possessivo. Tony vai precisar de algum tempo para entender a si mesma, resgatar sua auto estima e aprender a se defender de seu marido.
Disponível na Claro TV, Apple TV e Now/Net.

“O LUGAR DA ESPERANÇA”
Uma mulher vítima de violência doméstica luta sozinha para criar as duas filhas pequenas e resgatar sua dignidade. Apesar de toda a dificuldade, Sandra não abandona o sonho de construir uma casa onde possa residir com as meninas, mesmo sem ter noção de como o fazer, nem por onde começar. O roteiro é bem costurado e nos apresenta um filme sensível, apesar do tema nada original. A produção irlandesa de 2020, dirigida por Phyllida Lloyd (Mamma Mia! O Filme), é estrelada por Clare Dunne — que, além de protagonista, é co-roteirista do filme. Mesmo dentro da temática da violência contra a mulher, a narrativa fala de solidariedade, obstinação, resiliência e, acima de tudo, esperança!
Disponível no catálogo da Netflix.

“PAULINA”
O filme argentino conta a história da personagem que dá seu nome ao filme, uma jovem advogada, filha de um juiz, que decide morar em uma zona carente da Argentina, ministrando aulas sobre política e cidadania para jovens. Ainda em fase de adaptação à nova vida que buscava abraçar e tentando ultrapassar os desafios que essa nova escolha lhe trouxe, Paulina é estuprada ao regressar de uma visita feita à casa de outra professora da mesma escola. A partir deste fato, várias questões são trazidas pelo filme.
A primeira é sobre como a mulher que sofre uma violência sexual pode ser novamente vitimizada pelo próprio sistema de acolhimento, ao ser atendida por profissionais não capacitados de forma correta para a realização deste tipo de atendimento (perguntas inadequadas feitas em sede policial/judicial são exemplo típico do que não deve ser feito). O filme prossegue trazendo reflexões sobre o próprio sistema de Justiça e as formas de reparação do crime praticado. O pai de Paulina, com um olhar mais punitivo e retributivo, vai entrar em conflito com o idealismo da filha, que o questiona sobre o que seria “fazer justiça” no caso concreto, e como o próprio sistema pode trazer mais opressão e violência, além daquela já experimentada.
Um filme forte, que através de um modelo um tanto quanto questionável por quem o assiste, ante a ideologia da personagem, faz pensar sobre aspectos sociais e jurídicos relevantes.
Disponível na Prime Video e para locação na Apple TV e Google Play.

“INACREDITÁVEL”
Marie Adler, uma jovem de 18 anos, é estuprada por um desconhecido que invade sua residência. Ela procura ajuda policial, mas ao invés de receber acolhida e proteção, Marie começa a experimentar uma série de violências psicológicas que marcarão sua vida. Marie é atendida o tempo todo por policiais do sexo masculino, que a fazem repetir mais de uma vez os relatos do estupro recém-sofrido, fazendo-a reviver, a cada narrativa, a violência sofrida. Ao final, Marie acaba sendo desacreditada pela polícia e processada por falsa acusação de crime, sendo-lhe imposta inclusive, uma multa pecuniária.
Anos depois, uma outra mulher (interpretada pela atriz Danielle Macdonald, que trabalhou no filme Dumplin’) sofre um estupro com características semelhantes ao de Marie. Essa mesma vítima, ao contrário de Marie, é atendida por uma policial mais humanizada, que tenta minimizar sua dor, já aqui evidenciando a diferença que um primeiro atendimento em um crime sexual pode trazer à vítima. A série segue (são oito episódios no total) mostrando o prosseguimento das investigações e a busca pelo autor dos crimes. Ao mesmo tempo, mostra os impactos do ocorrido na vida de Marie.
Disponível no catálogo da Netflix.

“O HOMEM INVISÍVEL”
A história prendeu minha atenção. Cecília busca ajuda por conta do comportamento agressivo do parceiro. Logo após conseguir romper o relacionamento, ela recebe a notícia de que o namorado faleceu. Ocorre, porém, que Cecília ainda sente que está sendo perseguida e vigiada por ele. Como explicar?
Em um momento de tanta violência contra a mulher, com notícias cada dia mais terríveis, bem como um aumento significativo no número de feminicídios, fica o alerta: sempre a violência contra a mulher precisa ser levada a sério, por mais inverossímil que possa parecer a ameaça.
Disponível para locação na Claro Video, Google Play e Apple TV.

“CUSTÓDIA”
A primeira cena do filme mostra um casal e seus respectivos advogados, sentados em uma sala de audiência, onde a juíza do caso lê uma carta do filho do casal, de 12 anos, dizendo não querer ter contato com o pai, que afirma ser uma pessoa violenta, inclusive com a própria mãe. No processo, a mãe pede a guarda da criança e entende que o pai não tem condição de cuidar dos filhos. Quem diz a verdade? A criança estaria sendo manipulada pela mãe, ou de fato o pai tem a personalidade descrita pelo filho?
Termina a primeira cena. A juíza diz que sua decisão será proferida e que as partes saberão o resultado em breve. Mas o pai continua com o direito de visita e não lhe é negado o direito de estar com o filho menor. Entre a audiência e a decisão, contudo, a vida continua, e o menino Julien precisa estar com o pai. Um relato sobre a dura realidade enfrentada por mulheres que vivenciam a dificuldade em romper relações indesejadas e acabam envolvidas em um ciclo de violência doméstica difícil de romper. Um bom filme, tenso, dramático, e que traz a realidade sobre as questões jurídicas que chegam aos Tribunais. Difícil não se envolver com os personagens e suas angústias e receios.
Disponível para locação na Apple TV e Vivo Play.
