A procuradora de Justiça Patrícia Carvão escreve quinzenalmente na newsletter. O tema de sua coluna são os filmes e séries a que ela assiste nos cinemas e nas plataformas de streaming.
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Dramas jurídicos
Os dramas jurídicos, ou “filmes de tribunal”, costumam fazer sucesso entre os espectadores, talvez porque falem sobre o melhor e o pior da natureza humana. Na coluna desta semana falo sobre alguns filmes dentro desse gênero.

“O Caso Richard Jewell” é dirigido por Clint Eastwood. Richard Jewell trabalhava como segurança nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e durante um show no Centennial Poark descobre e avisa às autoridades que uma bomba foi deixada no local. O caso sofre, porém, uma reviravolta súbita, e Richard, antes um herói nacional, vira suspeito em potencial do atentado, graças a uma atitude passada um tanto quanto truculenta e atrapalhada em um campus universitário.
A vaidade de uma jornalista leva a investigação, conduzida de forma sigilosa pelo FBI, para a imprensa, transformando a vida de Richard e sua mãe num inferno. A atuação do advogado de Richard, Watson Bryant (Sam Rockwell) é um ponto de destaque no filme. Richard Jewell (Paul Water Hauser) é um personagem muito interessante, que oscila entre a infantilidade (em uma certa dose até de oligofrenia) e a ingenuidade, o que nos leva a tentar decifrar quem ele é de fato. Disponível na Apple TV, Google Play, YouTube e Max.

“O Preço da Verdade” nos traz a história do advogado Robert Bilott (Mark Ruffalo), que por longo tempo atuava como advogado de defesa de empresas de produtos químicos, até o momento em que é procurado pelo fazendeiro Willbur Tennant. O fazendeiro acreditava que a sua propriedade e seus animais haviam sido contaminados por alguma substância química. A narrativa mostra como a questão trazida inicialmente por Tennant passou a ter relevância na carreira e na própria vida pessoal de Robert. Sensibilizado ao descobrir que a Du Pont, gigante química do mercado americano, não se preocupava com a saúde de seus consumidores da mesma forma que se preocupava com os lucros. Robert teve acesso a informações que o fazem refletir inclusive sobre a sua própria atuação como advogado. O filme mostra a dificuldade em se litigar com uma empresa que detém poder econômico, não só por conta do alto custo financeiro mas também pela dificuldade em se encontrar peritos confiáveis que pudessem elaborar laudos técnicos imparciais para a causa.

Um filme pode divertir e ao mesmo tempo chamar nossa atenção para muitas questões. “Sob Custódia”, com a atriz Viola Davis, é um desses exemplos em que ficção e realidade se assemelham e fazem refletir. O enredo traz a história de Sara, que se vê repentinamente privada da guarda de seus dois filhos sob a acusação de que eles estariam sofrendo maus-tratos.
A partir daí a vida de Sara é investigada e analisada de todas as formas, a fim de que a Justiça possa de fato concluir ser ela capaz de criar seus filhos. Seu comportamento de desespero perante o Juízo, ao se ver privada da companhia dos filhos, é sistematicamente interpretado como sinal de desequilíbrio emocional, comprometendo a figura de mãe ideal buscada pelo sistema. O caso é analisado por uma Juíza, interpretada por Viola Davis, que tem uma vida no melhor estilo “American way of life”, até o momento em que se vê envolvida em conflitos familiares como os que costumava julgar. Então a juíza dá lugar a um ser humano com fragilidades que é capaz de ter acessos de raiva semelhantes aos de Sara. Disponível na Claro TV, Apple TV e Google Play.
“Luta por Justiça”. Bryan Stevenson é um jovem advogado negro que atua no caso People x McMilliam. Walter McMilliam é condenado à morte, mas jura inocência. O filme mostra a luta de Bryan por Justiça. As falhas do sistema de colheita de prova são evidenciadas, e fica para quem assiste a tensão permanente em saber como será o final da história.
Há falas de Bryan muito bonitas e cada um que o assista será tocado de forma diferente por cada palavra. Transcrevo aqui uma parte de seu discurso muito impactante: “Saí da Faculdade de Direito com muitas ideias sobre como mudar o mundo. Mas o Sr. McMilliam me fez ver que não podemos mudar o mundo só com ideias na cabeça. Precisamos de determinação. Esse homem me ensinou a não perder a esperança porque agora sei que a desesperança é inimiga da Justiça. A esperança nos permite prosseguir mesmo quando as autoridades distorcem a verdade. Ela nos permite ficar de pé quando nos mandam sentar. E falar quando nos mandam calar”. Disponível em em Now.

“O Veredicto”, dirigido por Sidney Lumet (“Doze Homens e Uma Sentença”) traz Paul Newman no papel de um advogado decadente, que se comove perante um caso de erro médico. Disponível no NetMovies.

“Olhos que Condenam” é uma minissérie da Netflix sobre a história real de cinco rapazes acusados e presos injustamente por um crime brutal de estupro no Central Park, em Nova York. A arbitrariedade da confissão obtida pela polícia, a fragilidade das provas que serviram de fundamento para a condenação dos rapazes, a vaidade daqueles investidos pelo Estado da função acusatória e judiciária, foram os elementos que construíram uma história de dor, injustiça e muito sofrimento, com reflexos não só na vida daqueles que foram privados de sua liberdade, mas também de suas famílias. Ao longo da minissérie é possível observar as falhas do sistema penal, o preconceito com negros e latinos, o tratamento, muitas vezes desumano, recebido dentro dos presídios, e a dificuldade da reinserção social daqueles que foram presos, o que leva muitos à reincidência. Seria possível falar em reparação de erro judiciário em um caso desses?
Há muitos e muitos títulos ainda dentro desse gênero, mas eu não poderia terminar hoje sem falar de alguns clássicos.

“Anatomia de um Crime”, de Otto Preminger, com James Stewart. Um tenente mata um homem, após ouvir o relato da esposa de que teria sido estuprada por ele. Cabe ao ex-promotor Paul Biegler (Stewart) tentar convencer os jurados da dinâmica dos atos, derrubando os argumentos da acusação. Disponível no NetMovies, Amazon e Apple TV+.
“Testemunha de Acusação”, de Billy Wilder. Inspirado em uma obra de Agatha Christie, com Marlene Dietrich e Charles Laughton. Uma senhora rica é morta, e Leonard Vole é acusado de ter praticado o crime, já que fora beneficiado por ela em testamento. A mulher de Vole, Christine, tem papel decisivo no julgamento, que segue cheio de reviravoltas. Disponível no NetMovies, Amazon e Apple TV+.
Até a próxima coluna!
