Esse autor de hoje é um dos caras menos reconhecidos e mais subvalorizados no panteão dos grandes escritores do mundo de todos os tempos. O sujeito era bom demais com a caneta, enorme. Popstar no tempo em que viveu exercendo seu ofício, numa época em que não havia essa dimensão de supercelebridades.
É um dos escritores de que eu mais gosto. Por isso, temos que lembrar dele com carinho, falar dele e aplaudir de pé o seu legado literário. O mestre das boas histórias e dos personagens irresistíveis. Se ele vivesse no Brasil da década de setenta ou na de oitenta, tiraria fácil o emprego de Gilberto Braga, Manoel Carlos, Silvio de Abreu, Benedito Ruy Barbosa, Aguinaldo Silva e outros titãs da teledramaturgia brasileira.
Mas ele era inglês e teve uma vida difícil, marcada pela infância pobre e sofrida, vítima de injustiças sociais e reviravoltas amargas do destino, tudo isso mais de um século e meio antes do apogeu das telenovelas.
Sua vida e produção literária aconteceram na era vitoriana na Inglaterra, uma época em que os britânicos eram os grandes imperialistas do planeta e vistos como sociedade modelo nos paradigmas de riqueza, educação, moral e bons costumes. Época de apogeu externo do Reino e do protagonismo expansionista pós-Revolução Industrial.
Uma sociedade das máquinas, dos inventores do chá das cinco, da famosa polícia modelo de investigação criminal, reis da fleuma e do humor sem graça, tudo ambientado em um clima frio e úmido, num fog incessante de dias mais nublados do que ensolarados.
E, apesar da imagem e pompa inglesa, Charles Dickens deu enfoque distinto e trouxe novos elementos ao conhecimento do grande público. Deu voz aos despossuídos, aos apagados sociais e aos explorados, conseguindo mostrar o lado podre e miserável das entranhas de um país que, internamente, visto mais de perto, sofria com a desigualdade e a injustiça social, onde a riqueza era concentrada de maneira injusta nas mãos de meia dúzia de poderosos e distribuída de forma insuficiente, em prejuízo da maioria dos súditos da Rainha, que passavam fome e enfrentavam condições precárias de saúde e higiene.
Sua obra foi popular e atraiu leitores de todos os níveis sociais. Tendo começado como jornalista e publicado romances no estilo de folhetim, Dickens contribuiu decisivamente para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa e, entre os seus maiores clássicos, estão David Copperfield, Grandes Esperanças, Um Conto de Duas Cidades, Tempos Difíceis e Oliver Twist.
Ele sabia contar uma história como poucos e era conhecido por sua habilidade em criar personagens vibrantes e inolvidáveis, em meio a narrativas envolventes que estabeleceram um padrão de qualidade irreformável para a arte da narrativa ficcional e influenciaram muitos escritores, como Orwell, Tolstói e Virgínia Woolf.
Desde sua morte, em 1870, só fazem aumentar o culto e o prestígio de sua personalidade e sua legião de fãs e seguidores. Abordando temas como trabalho infantil, baixas condições de higiene nas cidades, insegurança, intriga, desarmonia e conflitos de classe, Charles Dickens agrada a todos os públicos e gostos.
Sua escrita é simples e acessível, com poucos rebuscamentos, frases fluidas e coerentes, descrições detalhadas, diálogos dinâmicos e tramas emocionalmente complexas e de qualidade literária. Dickens é clássico. Seus livros são obras-primas deixadas à disposição das novas gerações. Dickens trabalha bem o humor em seus textos e transmite com sutileza e brilhantismo seus temas universais.
Qual seria um livro para exemplificar seu legado? Segundo o próprio autor, talvez aquele que tenha a maior carga de inspiração autobiográfica, sem perder, entretanto, a liberdade ficcional e criativa. “David Copperfield” é daqueles livros que marcam a vida de quem gosta de ler. Uma história de infinitas oportunidades, experiências, dores, misérias, traições, paixões, reviravoltas, redenção, amor, perdão e conquistas, tudo permeado por conflitos muito profundos e bem elaborados no vasto âmago interior dos personagens.
David Copperfield é um romance de formação, termo famoso criado na Alemanha. “Bildungsroman”, que designa o tipo de romance em que é exposto, de forma pormenorizada, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.
Um livro de leitura fácil, personagens do imaginário popular e uma história inesquecível. A inteligência e a sensibilidade do autor são percebidas em cada linha, e as lições de vida acompanham o leitor por muito tempo depois do fim da leitura.
David Copperfield traz a chamada jornada do herói do protagonista, órfão de pai desde o nascimento, e entregue a uma infância de infortúnios sob a batuta de um padrasto algoz e tirano. Um sujeito mau na essência, que seduz sua mãe viúva para se apossar de sua vida e patrimônio. Para sua sorte, ele tem uma tia leoa que vai ajudar em seu processo de crescimento e salvação, encaminhando dias menos tristes à medida que o personagem vai avançando na vida adulta.
Segundo Virgínia Woolf, “quando lemos Dickens, reformulamos nossa geografia psicológica; esquecemos que algum dia já sentimos os prazeres da solidão ou observamos com assombro as intricadas emoções de nossos amigos, ou nos deslumbramos com as belezas da natureza. O que nos lembramos é do ardor, da excitação, do humor, da estranheza do caráter das pessoas; do cheiro, do sabor, da fuligem de Londres; das incríveis coincidências que conectam as vidas mais remotas; da cidade, dos tribunais, do nariz deste homem, do coxear daquele; de alguma cena debaixo de um arco ou numa avenida; e, acima de tudo, de alguma figura gigante e marcante, tão plena, tão repleta de vida que não existe isolada ou solitária, mas parece precisar de uma multidão de outras para se concretizar, para tornar existentes as partes seccionadas que a completam, de forma que, aonde quer que vá, ela é o centro do bom humor, da alegria, do preparo do ponche; (…). Sutileza e complexidade, está tudo lá se soubermos onde procurar, se superarmos a surpresa de encontrá-las nos lugares errados. Como criador de personagens, sua peculiaridade é que ele cria onde quer que pouse os olhos — tem o poder extremo da visualização. Suas pessoas ficam marcadas em nossos olhos antes que as ouçamos falar, pelo que ele as vê fazendo, e parece que é a visão que põe seu pensamento em ação. Ele viu que Uriah Heep ‘respirou na narina do cavalo e imediatamente a cobriu com a mão’; viu David Copperfield olhando no espelho para ver o quanto seus olhos estavam vermelhos quando a mãe morreu; em um segundo, ele via estranhezas e falhas, gestos e incidentes, cicatrizes, sobrancelhas, tudo o que existe na sala. É quase demais o que seu olhar capta, e isso lhe dá uma desenvoltura e uma dureza que anulam o sentimentalismo e o fazem parecer uma concessão ao público, um véu posto sobre o olhar penetrante que, por si só, penetraria até os ossos. Com tamanha força nas mãos, Dickens fez seus livros se inflamarem, não apertando a trama ou afiando a fala, mas atirando mais um punhado de gente ao fogo.”
Nos primeiros capítulos, Dickens investiga a infância. A constante postura inocente diante dos fatos cotidianos e a devoção a figuras femininas, como sua mãe Clara, a governanta Peggotty e a tia-avó Betsy Trotwood, a heroína e salvadora do protagonista, marcam a fase inicial do narrador. Ritos de passagem e viradas característicos da literatura dickensiana aparecem nessa fase, porém sem causar cansaço na leitura. A infância do protagonista será marcada por muito sofrimento e injustiças.
O livro foi publicado primeiro no formato de folhetim, ou seja, os capítulos iam sendo revelados aos poucos, de modo episódico e intervalado, servindo para aumentar a expectativa do público leitor com o desenvolvimento da trama. Publicados em jornais e revistas semanais, os capítulos produziam um efeito evidente. Os leitores aguardavam com expectativa as novas publicações, e elas se tornavam parte de suas vidas. Eles discutiam nos intervalos do trabalho e no ambiente familiar, liam em público os capítulos mais antigos para manter a história atualizada, palpitavam sobre o que estaria por vir e esperavam aflitos pela sequência da exposição dos dramas dos personagens.
Assim, em vez de lerem um romance de uma só vez, cada um a seu tempo, o público se envolvia em conjunto com a história enquanto esperava a próxima edição. Uma época sem televisão, em que escritores eram magos do entretenimento, sem sofrer a concorrência desleal do audiovisual, e o livro era uma das principais fontes de entretenimento coletivo.
David Copperfield é um personagem que pertence à massa de subjugados e desfavorecidos que a literatura do século XIX, pela primeira vez, presenteou com o protagonismo. Parte fundamental da tradição do grande romance realista, o livro oferece um retrato acurado de seu tempo e um contundente relato sobre a vocação literária.
Apresentando com humor, ternura e sensibilidade o arco de personagens inesquecíveis da história da literatura, como o próprio David, Clara e Betsy Pegotty, Uriah Heep e Wilkins Micawber, dentre outros, Dickens se inspirou em sua própria experiência de criança para descrever a desumanidade do trabalho infantil, da pobreza e das injustiças. Seus personagens, pessoas de bem, sofrem a punição nas mãos de forças maiores do que eles mesmos. Mas, depois do sofrimento, a trama encaminha um final redondo, coerente, redentor e verossímil, que satisfaz o leitor que acompanhou a trama, sem deixar pontas soltas nem a sensação de que algo teria ficado incompleto.
Como observa Sandra Guardini Vasconcelos, Charles Dickens, apesar de ter sido contemporâneo de Karl Marx e Engels e de retratar a pobreza e as classes sociais mais baixas como poucos, sempre rejeitou a revolução das massas. Ao contrário, ele temia a revolução da “plebe” e se declarava “um reformador de corpo e alma”. Dickens não pinta um quadro moral em preto e branco, mas mostra que a riqueza e a classe social são indicadores ambíguos e não totalmente confiáveis sobre o caráter e a moralidade. Dickens nos convida a julgar seus personagens com base em suas ações e qualidades individuais, e não pelo jeito como o mundo cruel os trata.
Livro que figura em todas as listas dos maiores de todos os tempos, junto com outros dois dele, Grandes Esperanças e Oliver Twist. É uma obra de fôlego e, nos parâmetros atuais, muito extensa para rotinas agitadas e mais atraídas pela sedução do formato audiovisual ou pela luminosidade das telas de smartphones ou tablets. Vivemos a cultura imediatista, de resultados rápidos e constantes na medição da utilidade temporal de se dedicar a qualquer atividade, numa equação de custo x benefício. Essa tendência supervaloriza a quantidade em detrimento da qualidade. Mas o livro proposto vai provocar e nos obrigar a romper com o padrão acelerado e pragmático do cotidiano.
Só vai rolar o livro para quem puder ler sem pressa, com prazer, e para quem quer entrar no mundo desse autor e se introduzir no mundo dos folhetins da literatura vitoriana, um mundo de prosa detalhada que parece alguém te contando uma história que te cativa e te faz querer saber o que vai acontecer em seguida. Se você ainda dispuser de tempo em sua rotina para uma “perda de tempo” como essa, vai ser recompensado.