Nos últimos anos, a popularização dos ativos digitais trouxe consigo uma onda de inovações financeiras, mas também abriu portas para esquemas fraudulentos devastadores. Sob a promessa irreal de lucros garantidos e retornos estratosféricos, milhares de pessoas têm perdido suas economias de uma vida inteira em golpes envolvendo criptomoedas. A partir de agora, vamos, em linhas gerais, tentar explicar a mecânica do golpe e como evitar as armadilhas. Fique atento.
A magnitude dessas fraudes levou autoridades mundiais a agir. Nos Estados Unidos, o Federal Bureau of Investigation (FBI) iniciou a Operação Level Up, uma iniciativa proativa focada em identificar e notificar precocemente vítimas de fraudes de investimento em criptomoedas. Segundo os dados da operação, essa modalidade criminosa, frequentemente chamada na mídia de “pig butchering” (abate de porcos, em tradução livre), baseia-se fortemente na manipulação psicológica e, claro, sempre no órgão mais sensível do corpo humano: o bolso.
Os golpistas iniciam contato online na maioria dos casos por mensagens não solicitadas via SMS ou mesmo pelo aplicativo do WhatsApp. Ainda, pelos aplicativos de relacionamento e redes sociais. Os golpistas constroem uma relação de amizade e confiança com a vítima, criam falsas redes sociais com cases de sucesso e grandes lucros. Lentamente, introduzem a ideia de investir em uma plataforma de criptomoedas “extremamente lucrativa”. A plataforma, no entanto, é falsa e manipulada para exibir lucros fictícios, encorajando a vítima a depositar somas cada vez maiores. O golpe se concretiza quando a vítima tenta sacar os fundos: a plataforma exige o pagamento de taxas e impostos exorbitantes e, no fim, o saque nunca é permitido.
O Brasil também se tornou um terreno fértil para esses golpes. Aproveitando-se da falta de educação financeira de muitos e do desejo por mobilidade social rápida, criminosos orquestram esquemas bilionários que atingem desde cidadãos comuns até celebridades.
Em julho deste ano, em Sergipe, a Polícia Federal passou a investigar uma plataforma chamada RBH Infinity que vitimou pelo menos 160 investidores no município de Simão Dias, daquele estado. O esquema funcionava à base de indicações, atraindo clientes com a promessa de lucros altíssimos após a conversão de depósitos em ativos digitais. As vítimas investiram valores que variavam de 10 mil a 500 mil reais, totalizando um prejuízo estimado que ultrapassa os R$ 2,5 milhões. O golpe foi desmascarado quando os saques foram travados. Para liberar o dinheiro, a empresa exigiu um depósito adicional de 25% do total dos ativos, uma tática idêntica à alertada pelo FBI. (Fonte: Portal G1).
Já no Paraná, sob a promessa de rendimentos na casa dos 30% ao mês, a Polícia Federal desarticulou o esquema de um casal que obteve cerca de R$ 50 milhões após enganar mais de 400 vítimas. Guilherme Rodovanski Melchior e Eduarda Medeiros prometiam lucros irreais, além de “assegurar a devolução de todo o valor investido”, uma garantia impossível no volátil mercado de criptoativos. A investigação revelou indícios de pirâmide financeira e lavagem de dinheiro, com o casal ostentando carros de luxo e viagens internacionais nas redes sociais. (Fonte: Portal G1).
Um dos maiores escândalos nacionais envolveu Francisley Valdevino da Silva, apelidado de “Sheik do Bitcoin”. Por meio de sua empresa Forcount e do conglomerado Interag, ele arquitetou um esquema que prometia rendimentos fixos de até 13,5% ao mês em um suposto serviço de locação de criptomoedas. O golpe ruiu em 2022 e fez cerca de 15 mil vítimas no Brasil, movimentando R$ 4 bilhões. Entre os lesados estão o ex-jogador de futebol Jucilei, que perdeu R$ 45 milhões, e a modelo Sasha Meneghel. O caso envolveu até investigações do Departamento de Segurança Interna dos EUA. (Fonte: Estadão).
Enfim, há muitos casos, uns mais famosos e mais volumosos, outros menores, que sequer chegam ao conhecimento das autoridades. Para não cair nesse golpe é importante ficar alerta aos sinais e recomendações do FBI e especialistas:
● Promessas de altos lucros em curtos períodos de tempo, com risco “zero” ou retornos garantidos;
● Contatos iniciais não solicitados por redes sociais, SMS ou apps de mensagens;
● Insistência para mover a comunicação para aplicativos criptografados (como Telegram ou WhatsApp);
● Exigência de pagamento de taxas adicionais (como impostos) para conseguir sacar o próprio dinheiro investido.
O fascínio pela ascensão rápida das criptomoedas serve de isca perfeita para predadores financeiros. A sofisticação tecnológica das plataformas fraudulentas esconde esquemas de pirâmide tão antigos quanto a própria economia. A proteção mais eficaz continua sendo a educação: não existem investimentos de altíssimo rendimento sem altíssimo risco. Quando uma oferta soa boa demais para ser verdade, ela quase sempre não é verdade.
Fontes e Referências
● FBI (Federal Bureau of Investigation). Operation Level Up: The FBI’s proactive approach to identify and notify victims of cryptocurrency investment fraud.
● Portal G1. Golpe de criptomoedas é denunciado em Sergipe; PF apura. (09/07/2026).
● Portal G1. Golpe com criptomoedas no Paraná: casal prometeu lucros irreais a mais de 400 vítimas e obteve R$ 50 milhões, diz PF. (30/07/2025).
● Jornal Estadão. Jucilei, ex-Corinthians e São Paulo, investe em criptomoedas e leva golpe de R$ 45 milhões. (16/09/2024).
Pós-escrito
A primeira operação fraudulenta documentada com a mecânica similar a de uma pirâmide financeira foi orquestrada pela atriz e banqueira alemã Adele Spitzeder, na Baviera, entre 1869 e 1872. Ela oferecia altos retornos sobre investimentos, utilizando o dinheiro dos investidores novos para pagar os antigos. Foi considerada a mulher mais rica da Baviera, seu banco fraudou os clientes em mais de 400 milhões de euros (em valores atuais), provocando uma onda de suicídios. O termo moderno foi batizado com o nome do italiano Charles Ponzi devido aos seus crimes em 1920, mas esse modelo de fraude já era aplicado muito antes dele.
A ganância do homem talvez seja mais antiga do que o próprio homem.
Allan Julianelli é gerente de TI da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e policial civil do Estado do Rio de Janeiro desde 2002. Contato: allan.julianelli@amperj.org