Nesta semana, minha principal indicação é “As Amigas do Clube”, uma série holandesa da Netflix, com apenas sete episódios. Embora sua atmosfera remeta às produções nórdicas de suspense, a história se passa em Bergen, nos Países Baixos, e é baseada no romance “The Dinner Club”, da escritora Saskia Noort, nascida na cidade.
A série pode agradar especialmente aqueles que apreciam enredos de mistério e suspense que mantêm, até o final, a dúvida sobre quem teria sido responsável por determinada morte. É justamente essa a estrutura que sustenta boa parte da narrativa: após Evert morrer em um incêndio em sua casa, praticamente todos ao seu redor parecem ter algum motivo para desejar sua morte. Aos poucos, vamos percebendo que não se trata apenas de descobrir quem poderia tê-lo matado, mas de constatar que quase todos, de alguma forma, teriam algo a esconder.
A série parte de um grupo de amigos que, à primeira vista, parece levar uma vida quase idílica. São casais bem-sucedidos, com casas bonitas, onde jantares sofisticados são servidos. Reina uma convivência aparentemente marcada pela amizade e pela cumplicidade. Entretanto, conforme a narrativa avança e vamos conhecendo melhor cada núcleo familiar, essa imagem começa a se desfazer. Casamentos, amizades e relações familiares revelam-se bastante diferentes daquilo que aparentavam ser.
A série explora justamente a distância que pode existir entre essa imagem socialmente apresentada e aquilo que acontece quando as portas das casas se fecham. Aliás, considero que é justamente nesse aspecto que está o maior interesse da série. Mais do que a investigação propriamente dita, “As Amigas do Clube” fala sobre aparências, hipocrisia, pertencimento e sobre os valores que efetivamente sustentam aquele grupo. Por trás da felicidade exibida existem frustrações, traições, ressentimentos, solidão, interesses e segredos. Nesse sentido, o suspense funciona também como uma forma de entrar na intimidade dos personagens.
Por isso, embora “As Amigas do Clube” se apresente inicialmente como um suspense sobre a pergunta “quem matou Evert?”, considero que a questão de fundo seja outra: “quanto realmente conhecemos as pessoas que acreditamos conhecer?”
É quando a série desloca o olhar do crime para as relações humanas, para as aparências e para os segredos que sustentam determinados vínculos.
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“Dois de Nós” é uma peça de teatro que está em cartaz no Teatro AXIA Casa Grande, no Rio de Janeiro, reunindo Antonio Fagundes, Christiane Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra Martins. Gostei da peça, sobretudo pela maneira como ela utiliza o encontro entre passado e presente para falar sobre a passagem do tempo dentro de uma relação amorosa.
Antonio Fagundes e Christiane Torloni representam um casal que, no presente, atravessa uma crise, enquanto Thiago Fragoso e Alexandra Martins dão vida a esse mesmo casal em outro momento de sua história. A partir desse jogo temporal, acompanhamos o início da relação, a paixão, a chegada dos filhos e, progressivamente, as frustrações, as mágoas, as ausências e as incompletudes que foram se acumulando ao longo dos anos.
É interessante perceber como aquilo que se apresenta como uma crise no presente não nasceu naquele momento. Ao olhar para o passado, descobrimos que muitas das questões que agora parecem insuportáveis já estavam ali, de alguma maneira, desde muito antes. O tempo não apenas transforma as pessoas: ele também parece ampliar determinadas fissuras e modificar a forma como cada um percebe aquilo que viveu.
Mas há uma questão proposta pela peça que me parece instigante: será que gostaríamos de conhecer antecipadamente o nosso futuro?
O ser humano parece ter uma curiosidade quase permanente em relação ao que virá. Queremos saber o que nos espera, como estaremos daqui a alguns anos, se nossos projetos darão certo e se as pessoas que amamos continuarão ao nosso lado. Mas será que a vida seria suportável se, no início de uma história de amor, pudéssemos conhecer também todas as dores, perdas, frustrações e decepções que aquela relação atravessaria?
Talvez parte da possibilidade de viver esteja justamente em não saber.
Nesse diálogo entre passado e presente, “Dois de Nós” propõe uma reflexão sobre o amor e sua transformação ao longo do tempo. O casal jovem acredita na intensidade daquele sentimento e parece imaginar que ele permanecerá sempre da mesma maneira. Há desejo, paixão e uma sexualidade mais presente.
Os anos passam e tudo isso vai adquirindo outras formas. E talvez aí esteja, para mim, as perguntas mais importantes deixadas pelo espetáculo: o que é o amor depois que o tempo passa? O sentimento que une aquele casal no presente ainda é amor? É o mesmo amor da juventude, apenas transformado? Ou aquilo que um dia foi amor converteu-se em companheirismo, memória, hábito, ressentimento, dependência, cuidado — ou em uma mistura difícil de nomear de todas essas coisas?
A peça não precisa responder a essas perguntas. Seu mérito está justamente em entregá-las ao espectador.
Porque talvez não exista um único amor que atravessa intacto uma vida inteira. Talvez existam diferentes maneiras de amar dentro de uma mesma história, correspondentes às diferentes pessoas que nós mesmos vamos nos tornando ao longo do tempo.
Nesse sentido, “Dois de Nós” fala de um casal, mas também da condição humana: das expectativas que construímos quando somos jovens, daquilo que efetivamente conseguimos viver e da necessidade de, em algum momento, confrontar a distância entre essas duas coisas.
As interpretações são excelentes. Antonio Fagundes e Christiane Torloni demonstram a enorme experiência que carregam, enquanto Thiago Fragoso e Alexandra Martins sustentam com muita qualidade o contraponto geracional proposto pelo texto. O encontro dos quatro atores funciona justamente porque passado e presente deixam de parecer apenas tempos diferentes e passam a funcionar como espelhos uns dos outros.
Saí da peça menos interessada em descobrir se aquele casal ainda se amava, mas com uma pergunta talvez mais difícil de responder: quanto de um amor precisa permanecer igual para que possamos continuar chamando-o de amor? Talvez essa seja uma das questões mais bonitas de “Dois de Nós”: não perguntar simplesmente se o amor acaba, mas o que acontece com ele enquanto nós envelhecemos e nos transformamos.
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Essas são as minhas indicações. Para o fim de semana, deixo ainda uma sugestão que ainda não assisti, mas pretendo conferir: “Habeas Corpus”, que estreou nesta semana na Netflix. A série traz Marjorie Estiano no papel de uma professora de Direito que se envolve com um caso complexo, cuja história vai sendo desenvolvida ao longo de oito episódios.
Até a próxima coluna!