O escritor com a prosa mais elegante e refinada das letras russas. Que não coloca palavras fora do lugar, nem as desperdiça. Meticuloso artesão de frases bem construídas e esteticamente impecáveis, de vocábulos certeiros e eruditos em cada parágrafo e capítulo — elementos que elevam seus escritos de ficção à classificação de mais alta literatura. Um dos representantes e mestres do realismo literário russo, um estilo sóbrio de escrever que valorizava a objetividade, o factual, as situações cotidianas, a vida simples e a exposição dos fatos tais como são, sem idealizações. Suas tramas trazem afiada crítica sociopolítica e não promovem idealizações românticas, confundindo-se com a própria história da Rússia.
As guerras, as revoluções, a vida comum de pessoas do campo e das cidades, os contrastes entre os mais pobres (dentre eles, os mujiques) e a elite, a temática cristã, as ideias e filosofias, as preocupações com o povo e com questões existenciais são assuntos corriqueiros em seu país e absorvidos em sua vasta obra. A essa altura, todos já sabem que estou falando de Tolstói. Considerado, junto com Homero, Dante, Shakespeare e Goethe, membro do quinteto dos maiores escritores da tradição literária do Ocidente, Tolstói é o mais autobiográfico e o mais “moderno” dentre todos eles — o que significa dizer que sabemos muito mais sobre ele do que sobre os demais integrantes da lista.
Vida, trajetória e contradições

Liev Tolstói nasceu em 9 de setembro de 1828, em Iasnaia Poliana, uma propriedade familiar a 200 quilômetros de Moscou. Quarto de cinco filhos, perdeu os pais cedo e foi criado por parentes. Veio de uma família aristocrática que possuía terra e prestígio no Império Russo do século XIX.
Porém, a conversão religiosa, já no meio de sua trajetória, as opiniões revolucionárias e sua inclinação ao pacifismo o levaram a renegar essa existência luxuosa ao fim de sua vida, abrindo mão até dos direitos autorais de sua obra. Morreu em 1910, aos 82 anos de idade, de pneumonia. Estava em uma estação de trem, onde passou mal durante uma viagem após sair de casa às escondidas, sufocado pelos conflitos familiares e pela incompreensão em relação ao seu estilo de vida.
O artista foi um grande ídolo russo e reconhecido em vida por seu talento literário. Era uma celebridade, e cada nova história sua era festejada e lida pelo público com avidez nas revistas que as publicavam. Produziu contos, ensaios, textos críticos e romances, alcançando êxito e fama mundial com obras consagradas como A Morte de Ivan Ilitch, Guerra e Paz, Ressurreição, Khádji-Murát, A Sonata a Kreutzer e Anna Kariênina.
Críticos e romancistas contemporâneos continuam a desfrutar do legado e da arte de Tolstói. Para Virginia Woolf, ele foi “o maior de todos os romancistas”. James Joyce observou que “ele nunca é maçante, estúpido, cansativo, pedante ou teatral!”. Thomas Mann exalta a arte aparentemente inocente de Liev Tolstói: “Raramente a arte trabalhou tanto quanto a natureza […] regressar à casa da originalidade e da saúde, aquilo que em nós mesmos é saudável e original.”
Essas impressões entusiasmadas foram reverberadas também por Proust, Faulkner e Nabokov. Este último, em seu famoso livro Lições de Literatura Russa, escreveu que a razão de se ler Tolstói é porque simplesmente não se pode parar. Faz todo o sentido.
A Rússia czarista do século XIX é pano de fundo constante em seus livros. Isso poderia nos fazer pensar estarmos diante de um escritor regionalista e datado. Não! Sua escrita é mais atual do que nunca, pela universalidade dos temas escolhidos, cuja abrangência ultrapassa fronteiras. Seus livros abordam conflitos atemporais e comuns às pessoas e épocas, como as relações familiares, a vida social e a morte, assuntos potentes que facilitam o engajamento do público leitor de hoje.
O escritor nasceu em berço aristocrático (era conde) e foi se transformando ao longo da vida, por consequência de suas leituras, experiências e do contato com a religião e a filosofia. Aos poucos, converteu-se drasticamente. Assim, mesmo permanecendo cristão convicto, criticou e rompeu com os preceitos estritos da autoridade da Igreja Ortodoxa, afirmando que ela corrompera os ensinamentos de Jesus Cristo — o que o levou a ser excomungado e criticado por seu colega Fiódor Dostoiévski.
Em seus últimos anos de vida, desfez-se de sua fortuna, dedicou-se a escolas rurais e empenhou seu tempo cuidando dos mais humildes. Esse foi Liev Tolstói.
Anna Kariênina: o romance e sua força universal

A obra escolhida para falarmos um pouco mais sobre ele é Anna Kariênina, um dos pilares das chamadas obras universais. Tolstói escreveu o romance entre 1873 e 1877, em sua propriedade rural ao sul de Moscou, após vencer um período de pouca inspiração. A história começou a ser publicada na revista Russkii Viéstnik (O Mensageiro Russo), mas seu final não chegou a ser publicado no folhetim por desacordos entre Tolstói e o editor.
Anna Kariênina é uma obra monumental que trata de temas caros à humanidade: relações familiares, rivalidade, hipocrisia, inveja, fé, fidelidade, desejo carnal, paixão, amor, compromisso, o contraste entre a vida rural e urbana, a necessidade do progresso, a submissão da mulher e as desigualdades sociais.
O livro tem um dos começos mais famosos da literatura de todos os tempos: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Uma frase emblemática que já anuncia o tom da narrativa.
O enredo tem como eixo o relato de um caso de adultério: o amor clandestino vivido pela protagonista Anna Kariênina, em pleno contexto conservador da Rússia czarista, evidenciando a fragilidade da posição social da mulher na época.
No princípio, a protagonista viaja de São Petersburgo para Moscou, atendendo ao chamado de seu irmão, Stiepan “Stiva” Oblónski, que enfrenta uma crise doméstica após a descoberta de uma traição. Ao desembarcar na estação de trem, Anna conhece o conde Aleksei Vrónski, oficial da cavalaria.
É o início de uma paixão fulminante que a faz questionar a vida apática que leva ao lado do marido, Alexei Karenin. Em busca da felicidade, ela se permite viver o romance — e passa a sofrer as consequências de sua escolha, enfrentando a retaliação social e o isolamento.
Além da trama principal, o livro apresenta técnicas inovadoras para a época: subtramas paralelas, maior aprofundamento psicológico, linguagem mais direta e o uso de recursos como o monólogo interior. Tudo isso aproxima o leitor da narrativa, tornando-a mais íntima e envolvente.
As obras-primas do romance contemporâneo frequentemente dizem mais sobre a condição humana do que muitos tratados formais. Por isso, a literatura é um exercício permanente de reflexão.
A obra fez enorme sucesso, mas teve o paradoxo de causar no escritor um anticlímax literário. Talvez tenha se compadecido em excesso do destino de sua heroína. Ou talvez tenha depositado ali toda a sua energia criativa. Seja como for, Tolstói criou um painel social grandioso e dissecou, com maestria, o perfil psicológico e as angústias existenciais de uma mulher de sua época.
Um livro que ficou para a eternidade.