Por Felipe Cuesta
Virgínia Woolf já defendia, lá na virada do século retrasado, que “o verdadeiro lugar da mulher na sociedade era exatamente onde ela quisesse estar”. A reflexão parece óbvia dita hoje, mas não era nada banal na transição do século XIX para o XX, em plena Inglaterra machista e vitoriana. Que bom que as mulheres estão tomando conta da cena literária contemporânea mundo afora, aos poucos dividindo espaço com os homens, que sempre tiveram lugar privilegiado e desigual no cânone, ocupando a maioria das listas das casas de publicação.
Historicamente, público e crítica vêm sendo reativos aos textos femininos, o que levou muitas mulheres talentosas a usarem pseudônimos masculinos para se sobressaírem. Jane Austen foi um dos exemplos mais remotos. Esperava-se que mulheres falassem de temas domésticos, sentimentos amorosos e que transparecessem delicadeza na escrita. Eram textos que precisavam ser diferentes dos produzidos pelos homens — estes, sim, com autoridade e conhecimento para abordarem temáticas relevantes e universais.
A escrita feminina era considerada de qualidade inferior, sedimentando aos poucos um cânone literário composto quase unanimemente por figuras do sexo masculino. Em boa hora, a tendência vem mudando. Escritoras talentosas despontam e ocupam espaço nas prateleiras das livrarias. Seus textos trazem obras com temáticas mais sensíveis e emocionalmente instigantes, oferecendo perspectivas sociais e recortes de experiências de vida anteriormente ignoradas pelo formato tradicional das publicações, promovendo maior representatividade cultural e humana.
Parece haver um momento especial em curso na literatura brasileira. Nunca antes tivemos uma bibliodiversidade como a que temos hoje, com representantes de origens e realidades diferentes escrevendo e, principalmente, publicando no país. Não é errado afirmar que o sucesso de um escritor depende de vários fatores, muitos deles fugindo ao seu próprio controle, inclusive a sorte, o timing e o contexto.
Num país como o Brasil, onde arte é sinônimo de vacância ou atividade paralela, ainda mais. Essas quatro moças contaram com muita capacidade técnica e também com os mistérios do destino. Estão por aí já há algum tempo escrevendo livros de ficção com talento redobrado, em um ambiente editorial cada vez mais sofisticado, de crescente produção, visibilidade e prestígio.
Escolhi falar um pouco delas, sem estabelecer qualquer hierarquia entre si ou com outras escritoras não citadas que também gosto muito. Pois, como na vida estamos sempre fazendo escolhas, Andrea, Aline, Eliana e Giovana me chamam a atenção por alguma sequência de produções literárias consistentes, textos originais — alguns com formatos inovadores — e enredos bem acabados, que exploram o universo feminino, as desventuras, angústias, desigualdades sociais e reflexões psicológicas e metafísicas dos seres humanos em geral.
A primeira delas é a paulista Aline Bei. Uma escritora multitalentosa que aborda temas recorrentes e profundos em seus romances, centrando-se nas experiências femininas, nas relações familiares conflituosas, na ausência, no luto e nos traumas que moldam a vida e a personalidade de seus personagens. Uma jovem autora de muita criatividade e com um perfil literário bem fora da caixa, uma autêntica escultora das palavras.

Sua escrita poética e sensível importa e cativa não apenas pelo conteúdo dos textos, mas também pela forma como ela apresenta a diagramação das páginas. É como se desenhasse ou pintasse nas folhas as frases e os parágrafos que, além de terem um sentido profundo e complexo por si sós, também se revestem de um viés estético essencial, que marca o estilo de Aline e o coração do leitor — um dos pontos-chave que causam enorme apelo literário no público.
Apesar de sempre ter sido uma grande leitora e de buscar contornos líricos para cada um de seus pensamentos, Aline Bei afirma que a escrita floresceu como uma forma de ocupar o vazio deixado pelo teatro. Seus textos são construídos a partir de uma série de belos e pequenos pensamentos poéticos, poderosos aforismos que se transformam em frases e parágrafos curtos de efeito hecatômbico. Assim, ela vai criando e moldando as histórias, costurando as frases e tecendo um tricô escrito nas páginas, desenhando literalmente o texto, repleto de belos significados e camadas.
Ao explicar seu processo criativo, Aline afirma que “a criação de personagens talvez seja o meu grande acontecimento de texto. Eu entro no trabalho por eles, o que tem muito a ver com o fato de eu ter sido atriz, porque o teatro é esse lugar em que o ator defende o ponto de vista de um personagem com paixão, seja protagonista ou figurante”. E prossegue: “Sinto uma mudança grande de um livro para o outro, porque a escrita é muito porosa. A escrita tem uma efemeridade, tem seus jogos de improviso e de acaso, que não se repetem. E cada vez que a gente escreve um livro, está sendo transformada pela própria feitura do trabalho.”
Não consigo escolher qual dos três romances da jovem autora me encantou mais. Recomendo todos: “O Peso do Pássaro Morto”, “Pequena Coreografia do Adeus” e “Uma Delicada Coleção de Ausências”.
A paulista Andrea del Fuego foi a que primeiro surgiu dentre as faladas no ensaio. Uma escritora que afirma ter mais interesse no bom uso da linguagem do que na própria história e que define o ato de escrever como um vício, uma busca constante por concentração e por aquele raro estado de imersão total. Um ofício de vida, que acaba sendo muito viciante — um processo sem fim, uma espécie de concentração alcançada a muito custo, na busca de um texto de qualidade.

“Os Malaquias” é uma de suas obras-chave, vencedora do Prêmio José Saramago e com características marcantes de realismo mágico brasileiro. Após perderem os pais por um raio que cai na casa da família, os irmãos Nico, Júlia e Antônio veem-se diante de nova realidade. O mais velho, ainda criança, passa a trabalhar na fazenda de um poderoso da região; a menina, por sua beleza, é adotada e levada para outra cidade; o caçula — um garoto que não cresce — é acolhido pelas freiras do orfanato.
A escassez de água, de amor e de unidade que acompanha a família desde o raio que a originou torna-se abundância à medida que as páginas do livro revelam novas e extraordinárias personagens: freiras francesas, traficantes de bebês, espíritos ancestrais e pessoas que desaparecem no vapor de um bule a ferver, entremeadas por um vale mágico, palco do improvável reencontro dos filhos.
Não tem como deixar de falar ainda de “A Pediatra”, seu romance mais enxuto, divertido, genial e subversivo, no qual somos apresentados à protagonista — uma médica politicamente incorreta, desprovida de instinto maternal e de qualquer afeição especial por crianças, além de pouca paciência para lidar com os pais de primeira viagem e suas angústias banais. Em paralelo, ela mantém uma relação amorosa com um homem casado, pai de uma criança que acabará tendo papel decisivo no desfecho da trama.
A literatura praticada pela curitibana Giovana Madalosso é marcada por um estilo contemporâneo, direto e envolvente, que elege temas de amplitude social e individual, com uma perspectiva frequentemente feminista, irônica e sarcástica. Seus textos são acessíveis e escancaram uma prosa direta, objetiva e fluida, marcada ainda pelo bom humor, sem prejuízo da qualidade literária significativa.

Ao tratar de assuntos que frequentam o imaginário coletivo, Giovana se sobressai, como no caso de “Suite Tóquio”, em que discute o rapto de uma criança pela babá e as consequências para a mãe, que divide seu tempo entre a filha, um casamento fracassado e a carreira profissional. Giovana traz para a pauta os desafios da maternidade, a ascensão profissional da mulher, a exploração da sexualidade feminina, as dificuldades do casamento, a desigualdade social e o elitismo da classe média brasileira.
As cenas de Giovana Madalosso parecem decorrentes de minuciosa e intuitiva observação do entorno e do cotidiano. Ela nos conta a vida normal de uma pessoa qualquer a partir de temas e características dos protagonistas previamente determinados. Com isso, humaniza seu texto e traz o leitor para perto, como cúmplice de suas histórias. Além de Suite Tóquio, a escritora tem um livro de contos, “Teta Racional”, seu primeiro trabalho, e dois outros romances que seguem a mesma linha e estilo: os ótimos “Tudo Pode Ser Roubado” e “Batida Só”, seu lançamento mais recente.
A última escritora hoje trazida é a carioca Eliana Alves Cruz, que desponta como grande revelação da literatura afro-brasileira contemporânea. Vencedora do Jabuti de 2022, na categoria Contos, é autora também de quatro romances, dentre os quais os consagrados “Água de Barrela” e “O Crime do Cais do Valongo”. Segundo a própria escritora, o que a move na direção da literatura “é a vontade gigante de descoberta cada vez mais profunda de quem sou e onde estou. Uma vontade de descobrir e contar boas e desconhecidas histórias e uma ilusão de conseguir subverter o tempo”.

Seu trabalho literário aborda temas sociais, frutos de elaborada pesquisa histórica, notadamente diante da pauta racial e do resgate da identidade negra silenciada, utilizando a ancestralidade e a resistência como elementos centrais. Sua prosa é caracterizada pela ironia, pela insurgência poética e pela densidade dos personagens, criando uma forte conexão entre o Brasil do passado e o contemporâneo.
Mas Eliana não se contenta em ficar aprisionada no clichê racial e vai além, abrindo espaço para tratar do amor em suas variadas formas, sempre com uma abordagem precisa e poética. Ler Eliana Alves Cruz é perceber alguém empenhada em nos mostrar a esperança de que o afeto e a generosidade sejam as maiores forças a impulsionar grandes transformações na sociedade e no mundo ao redor. Ela lançou seu novo romance este ano, que trata dos percalços e preconceitos enfrentados por uma família negra que tenta ascender socialmente. Chama-se “Meridiana”.
Boas leituras!