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O teatro, o texto literário teatral e a literatura

Inserido em 7 de novembro de 2025
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Por Felipe Cuesta

O Teatro também é literatura. Literatura dramática! Hoje vamos falar dele. Teatro a gente sabe o que é. Mesmo sem saber direito como explicar. Teatro é a vida acontecendo contada no discurso direto. No teatro, ninguém está narrando uma história pra gente. Estamos observando a história acontecendo na frente dos olhos. Acontecendo nas cenas. No papel, quem estiver lendo, ou no palco, pra quem assiste.

É comum as pessoas confundirem teatro e texto literário teatral. Se usados em sentido amplo, podem até ser a mesma coisa. Por exemplo, posso falar do teatro de Shakespeare, me referindo na verdade ao texto literário teatral do grande dramaturgo britânico. Posso ler Hamlet, Otelo, Romeu e Julieta, o Mercador de Veneza ou o Rei Lear, sem nunca ter assistido a uma encenação do texto/peça.

O contrário nao é possivel, (sim você pode até ver a peça sem ter lido o texto) porém me refiro à impossibilidade de exibição do espetáculo sem o escrito, já que a montagem e a encenação teatral pressupõem a existência de um texto literário criado anteriormente, sob o gênero dramático, que concebeu a estrutura e a forma de se contar uma determinada história, separando-a entre cenas e atos.

Assim, em pressuposto específico, texto literário teatral e teatro são estruturas distintas, conquanto complementares. Não devemos confundir aquele, de estilo escrito, com a performance teatral, uma alternativa cênica ao texto, onde as palavras ganham vida e luz através da interpretação e encenação dos atores, da direção artística e dos outros elementos que compõem uma produção como cenários, iluminação, música e figurinos.

Pela performance teatral, os artistas cênicos transformam o texto em experiências emocionantes e memoráveis para o público. O teatro encenado cria um ambiente imersivo para a experiência da plateia. No Brasil, parece haver pouco hábito de leitura de textos dramatúrgicos. Embora tenhamos grandes autores desse gênero. Aliás, tenho pra mim que se os dois gigantes Nelson Rodrigues e Ariano Suassuna tivessem criado suas obras em um idioma menos desconhecido do mundo, seriam autores universais. Deveríamos incrementar e estimular esse hábito com o público leitor, pois além de ricos e de enorme conteúdo simbólico, são textos geralmente de leitura mais simples do que os romances (estes com estrutura mais complexa) e que podem servir como treino e desenvolvimento para experiências mais densas e para desenvolvimento de características importantes da personalidade.

O texto teatral é estruturado de maneira diferente. A literatura conta sempre histórias. Qualquer que seja sua forma. Mesmo o teatro faz isso. Porém, quando se lê um romance, ou um conto, viajamos pelo mundo criado e apresentado pelo autor através de alguém que está apresentando a trama. Pela descrição desse ser abstrato e invisível, imaginamos os ambientes, as paisagens, os jeitos dos personagens e outros aspectos.

O Romance costuma vir alicerçado na presença de um narrador, que faz a mediação do texto entre o escritor e o leitor. Essa ponte pode ter vários estilos e ser construída em primeira pessoa, em segunda ou terceira pessoa, além de existirem narradores oniscientes, oniscientes intrusos (que não apenas sabem de tudo mas que dão palpites) ou narradores que descrevem a trama, mas não conhecem todas as sub camadas e bastidores da história. O formato vai depender do romancista, da maneira como ele vai estruturar e elaborar a ideia do texto.

O texto dramático não precisa destas descrições de apoio, nem da mediação de um narrador, pois mostra diretamente as histórias. Quando se lê ou se assiste a uma peça, não é preciso recorrer à nenhuma estruturação de auxilio narrativo. A coisa já está se dando a nossos olhos, através de falas diretas entre os protagonistas. Está entregue. As personagens e os cenários estão diante da plateia e do público. Ou do leitor, tudo através dos diálogos entre os personagens. Pode haver estranhamento no leitor num primeiro momento a inexistência de narrador, mas rapidamemte no avançar da leitura o texto vai se tornando familiar e fluido.

Esse artigo não quer esmiuçar detalhes do teatro como arte cênica, mas apenas do texto teatral e sua inserção dentro do ambiente da literatura. Os gêneros literários são de três tipos: narrativo/épico, lírico e dramático. O texto teatral é o dramático por excelência. E as duas grandes subdivisões dos textos dramáticos são as tragédias e as comédias.

A estrutura do texto dramatúrgico divide-se em Atos e Cenas. Os conjuntos de cenas formam os atos. Os Atos se constituem de uma série de cenas interligadas por uma determinada subdivisão temática. As cenas se dividem conforme as alterações no número de personagens em ação: quando entra ou sai do palco um ator, por exemplo, ou quando há uma virada na trama ou uma mudança abruta de um enfoque. O cerne ou a medula de uma peça e de suas cenas, são os diálogos entre os personagens, os elementos que conferem o dinamismo essencial ao texto. A linguagem teatral, muitas vezes poética e metafórica, estimula a imaginação e a interpretação, permitindo que cada leitor crie sua própria visão da obra. Em outras palavras, cada leitor fará a encenação mental de sua peça.

Os textos teatrais abordam temas universais e questões filosóficas e metafísicas que ressoam além do tempo e do espaço. Temas como amor, poder, traição, redenção, sentido da vida, existência de Deus, justiça e liberdade são explorados de maneiras diversas, desafiando o leitor a pensar sobre questões fundamentais da experiência humana. E isso será percebido pelo leitor sem o auxílio do narrador, através de características técnicas diferentes de captura da atenção estabelecidas pelo escritor.

Muitas obras teatrais se tornaram clássicos e parte do cânone da literatura mundial. Autores como William Shakespeare, Molière, Sófocles, Ésquilo, Eurípides Anton Tchekhov, Tennessee Williams, Bertold Brecht, Henrik Ibsen, Arthur Miller, Samuel Beckett, Luigi Pirandello, Ariano Suassuna e Nelson Rodrigues, por exemplo, deixam um legado duradouro e universal no ambiente literário enquanto escritores dramaturgos, influenciando gerações de leitores, de escritores e de plateias.

Para encerrar, sem nenhuma pretensão de esgotar listas, vou elencar alguns textos literários de teatro que eu gosto muito e recomendo pra todo mundo.

1- Édipo Rei, de Sófocles. (E para quem quiser ir além, a trilogia tebana do mesmo autor) Esse é meio óbvio e super cohhecido. Mas é excelente desde a antiguidade. Todo mundo sabe o enredo dessa tragédia. Insultado por um homem embriagado que o chamou de filho adotivo, Édipo, herdeiro do trono de Corinto, se dirige a Delfos em busca de respostas sobre sua origem. Ao consultar o oráculo de Apolo, Édipo não tem uma resposta para sua pergunta. Mas o Deus lhe faz uma revelação: um dia ele mataria o pai e se casaria com a própria mãe, tendo com ela filhos.

2- Otelo, de Shakespeare. A maior de todas as suas tragédias. Em Veneza, Otelo, um general mouro a serviço do Estado, conquista Desdêmona, uma jovem, filha de um nobre local. Após enfrentar a ira do pai e defender-se com sucesso contra a acusação de tê-la “enfeitiçado”, ele parte a Chipre em companhia da esposa para combater o inimigo turco-otomano. Lá, seu alferes, o manipulador Iago, consegue paulatinamente instigar na mente do mouro a suspeita de que Desdêmona o traiu. Otelo é a tragédia em que Shakespeare estudou os mecanismos da imaginação, da paixão e do ciúme.

3- Macbeth, de Shakespeare. Macbeth é um general do exército escocês muito apreciado pelo seu monarca, o rei Duncan, por sua lealdade e seus préstimos guerreiros. Um dia, ele e Banquo, outro general, são abordados por três bruxas, que fazem as seguintes revelações: Macbeth será rei, Banquo é menos importante, mas mais poderoso que Macbeth, e os filhos de Banquo serão reis. Macbeth não compreende as confusas palavras das aparições, mas elas calam fundo dentro de si. Ele relata o estranho encontro para a mulher, Lady Macbeth, uma das mais perfeitas vilãs da literatura, que, ambiciosa, exerce seu poder sobre o marido, levando-o a cometer o gesto fatal de traição ao rei que desencadeará a tragédia dos dois e uma reviravolta na corte.

4- O Mercador de Veneza, de Shakespeare. Aqui, tem lugar uma de suas maiores comedias. Considerada uma das maiores obras do bardo, “O mercador de Veneza” narra uma história de amor, ganância e vingança. Bassânio pede um empréstimo a seu amigo Antônio, mercador da cidade de Veneza, a fim de ir a Belmonte e cortejar a bela Pórcia, herdeira de grande fortuna. Antônio, sem possuir tal soma, pede ao judeu Shylock, seu eterno rival, que ceda o empréstimo e oferece como garantia uma libra de sua própria carne. O desfecho é inesperado.

5 – Tio Vânia, Anton Tchekhov. Este autor russo redefiniu os parâmetros da dramaturgia moderna, propondo uma desdramatização que leva ao enaltecimento do que é aparentemente desimportante. Segundo o modelo, o mundo interior das personagens, aquilo que subjaz, fala mais alto. Tio Vânia foi a segunda obra de Tchékhov. A trama se passa em uma propriedade rural russa, na qual a chegada de dois visitantes vindos da cidade altera o cotidiano bucólico dos moradores. O contexto geral de avanço da urbanização e do modo de produção capitalista reflete-se na desorientação das personagens em meio a um modo de vida em extinção, marcadas pela sensação de impotência, imobilidade, vazio e desencanto.

6- O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Desnecessária a apresentação da obra de João Grilo e Chicó, dois sertanejos trambiqueiros e ingênuos que desfilam seu estilo caricato e divertido em um ambiente típico do nordeste brasileiro. O auto da compadecida retrata a vida no sertão, a corrupção, a injustiça, a fé e a moralidade. Suassuna faz uma poderosa crítica social, política e religiosa dos costumes enraizados em nosso povo.

7- Esperando Godot, de Samuel Beckett. Esse texto do dramaturgo irlandês é uma tragicomédia em dois atos que segue desafiando público e crítica. Na trama, duas figuras clownescas, Vladimir e Estragon, esperam por um sujeito que talvez se chame Godot. Sua chegada, que parece iminente, é constantemente adiada a ponto ee se começar a duvidar ee de fato alguem virá. Em um cenário esquálido ― uma estrada onde se vê uma árvore e uma pedra ―, Beckett revoluciona a narrativa e o teatro do século XX com esse texto teatral.

8- Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Enquanto se recupera no hospital após ter sido atropelada, Alaíde é assombrada por lembranças de seu passado conturbado com Lúcia, a irmã de quem roubou o namorado, e pelas memórias lidas no diário de uma prostituta do começo do século XX. Articulada em três planos cênicos — o da realidade no hospital, o da alucinação com madame Clessi, a prostituta e o da memória do conflito entre as irmãs —, o texto/peça Vestido de noiva foi o primeiro grande sucesso de Nelson Rodrigues e um marco na literatura e dramaturgia brasileira.

9- Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams. O texto se passa na década de 1950 em uma fazenda, uma propriedade localizada no Delta do Mississipi. O campo de batalha acontece em um quarto onde Brick e sua esposa, Maggie, aparentemente moram. Brick e Maggie não têm filhos. Maggie acusa o irmão de Brick, Gooper, e sua cunhada de exibir os seus filhos na frente do pai de Brick, que todos chamam de o Paizão. Essa foi a forma que Gooper e sua mulher, Mae, encontraram para dizer: “Viu como nós temos filhos? Meu irmão não tem!” Tudo isso para sensibilizar o Paizão (que tem um câncer terminal) e dizer: pense nos seus netos. Uma forma de persuadir o pai a deixar a fortuna para eles. Brick foi um jogador de futebol americano, foi estrela na faculdade e admirado por todos em seu círculo social. Brick evita lidar com seus sentimentos. Tem problemas em admitir uma possível homossexualidade e no fundo tem medo de ser gay. Por isso, ele silencia. E se dedica sem nenhum entusiasmo à bebida. Bebe para se anestesiar de seu próprio desgosto. Ele alimenta um certo nojo pelas relações familiares e de certa forma consigo mesmo. Maggie é uma mulher atraente. Como ela foi criada na pobreza, está determinada que seu marido herde a fortuna do pai. Ela quer ter um filho dele. Mas Brick se recusa.

10- O Tartufo ou o Impostor, de Molière. Uma das maiores obras do grande dramaturgo francês. Tartufo ou l’imposteur é uma das peças mais famosas de Molière. Ainda hoje atual, relata a experiência trágica de um homem de bom coração que acolhe em sua casa um homem de grande aura. No entanto, este homem é um impostor, um golpista que não tem moral a não ser o utilitarismo, o que o leva a devorar completamente a vida do seu anfitrião, roubando-lhe a fortuna e a mulher. Escrita em 1669, tornou-se uma obra fundamental da literatura francesa e europeia.

11- Medeia, de Euripedes. Medeia representa a clássica tragédia grega. Medeia é esposa repudiada e estrangeira perseguida, que se rebela contra o mundo que a rodeia, rejeitando o conformismo tradicional. Tomada de fúria terrível, mata os filhos que teve com o marido, para vingar-se dele e automodificar-se. A traição comjugal serve como tema central em Medeia. Jasão se divorcia de sua esposa, a protagonista, em favor de um casamento político com Glauce, a filha do rei Creonte. Este gesto alimenta as intensas emoções e ações que se desenrolam ao longo da peça até o ápice do assassinato dos filhos pela mãe.

Boas leituras!