Por Felipe Cuesta
Hoje vou falar de um livro que diz muito para mim. O texto ficou um pouco mais extenso do que de costume. Peço escusas.
Não é fácil explicar a razão de uma obra se transformar no livro da vida de alguém. Nem fazer as pessoas entenderem a beleza e a importância de uma publicação que, por mais que seja lida e relida, nunca esgota suas possibilidades de interpretação. Na escolha literária de hoje, um escrito que permanece em transformação constante, permeado de sentidos infinitos, que se renovam a cada releitura e a cada ponto de vista de um novo leitor. Não é por motivo outro que Rosa desenhou, logo após a última frase, o número oito deitado, símbolo do infinito.
As pessoas têm medo de “Grande Sertão: Veredas”. Eis uma verdade que precisa ser dita. Quem não tem, já teve. E quem nunca teve, mentiu. Os leitores se afastam do livro, protelando por anos na busca da ocasião ideal de desfrutarem da leitura, pela fama de romance hermético e inatingível. Até que um dia, por razão qualquer, mergulham de cabeça nas páginas. Resultado: vão ficar assustados e confusos. Grande parcela vai abandonar a leitura e reforçar o “mito”. Não dá pra ser diferente. O antídoto é ler o romance com ajuda de textos, áudios e vídeos de suporte. “Grande Sertão” não é obra corriqueira de entretenimento para relaxar, se meter de peito aberto e desprevenido. Outros livros cumprem essa função. Mas a boa notícia é que com certas chaves interpretativas, a travessia tende a ser bem mais amena e proveitosa. Abrindo as portas para a transformação.
Já peço desculpas para a legião de super-heróis da literatura nacional. Machado de Assis, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, Manoel de Barros, Euclides da Cunha, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector e outros grandes escritores não citados. Mas ninguém na história da literatura brasileira fez algo do tamanho de “Grande Sertão:Veredas”. Portanto, Guimarães Rosa se veste de Zeus, no Olimpo dos ficcionistas brasileiros. E ponto final.
João Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo (MG), viveu e publicou seus trabalhos ao longo do século XX, ficando conhecido por renovar o regionalismo e a linguagem de forma bastante inédita e original. O autor foi um espelho que refletiu a realidade brasileira como poucos, em suas complexidades e contradições. E, ao revelar o sertão como paradigma do interior do país, revelou parte essencial da riqueza cultural brasileira, tornando-a acessível ao grande público. Mas a obra de Rosa foi mais além. Intimamente ligada ao sertão de Minas Gerais, transcendeu o contexto meramente local para tratar de questões filosóficas e existenciais universais comuns à humanidade. Rosa era diplomata, médico e conhecedor de uma dezena de idiomas, e decodificou a oralidade sertaneja para o papel, capturando a essência do modo de falar jagunço.
Jagunço é o personagem clássico do sertão, homem da “mão pra boca”, aquele sujeito pobre nascido de poucas posses e esperanças, que come sem o uso de talheres e que vive longe dos centros urbanos maiores, nas terras mais esquecidas a Deus dará, onde as leis não pegam, a não ser pela força do costume de quem delas se servem. Nada lhes resta então, como forma de sustento, a não ser se juntarem em bandos para defenderem, armados, os interesses dos grandes donos das terras, verdadeiros detentores do poder, onde a lei escapa da mão dos homens e se reencontra no metal frio da bala.
“Grande Sertão: Veredas” vai te desafiar nas entrelinhas (enquanto o pano de fundo da guerra dos jagunços vai acontecendo como alegoria principal no cenário) a se deparar com tudo o que importa, Deus, Diabo, amor, amizade, desejo, medo, coragem, esperança, queda, lealdade, traição, beleza, feiura, sentido da vida, pacto fáustico, ganhos, perdas, morte, vida, tragédia e ressurreição.
Para chegar nesse estágio de compreensão, ele sugeria que se lesse o livro em voz alta e detestava leitores apressados. Ele queria os tais leitores “bois” e não os leitores “cavalos”. Pois é preciso se deparar com o estranhamento do texto, parar e elaborar alternativas para seguir adiante. Por isso a metáfora do boi, um ser vivo capaz de mastigar e ruminar com calma o capim dos parágrafos. Não dá para passar galopando pelo texto sem perder o que ele traz de essencial.
Rosa valorizou o aspecto sensorial da fala. Como se capturasse a gravação da conversa entre o narrador e seu interlocutor narratário. Isso fez todo o sentido na contextualização do homem sertanejo, pois somos um povo quase analfabeto e que precisa se virar para se comunicar, mais com a palavra do que com a escrita. Daí a oralidade tão pulsante, marca da linguagem rosiana.
E, afinal, do que trata o “Grande Sertão” para ser considerado tão importante? Não é uma simples história de jagunços em guerra, vagando entre o sertão de Minas Gerais e Bahia? Qual mistério vem embutido na trama? Não, não é obra sobre um bando de milicianos do cangaço se digladiando debaixo de um sol inclemente em busca de terras e poder. Essa é a visão rasa de superfície. Esse é apenas o pretexto.
É preciso desconstruir e seguir adiante, eis que o subtexto principal tem muitas outras camadas. Rosa dizia que a trama lhe havia sido soprada nos ouvidos por dois espíritos: sentado em seu ombro direito, um espírito de luz, um anjinho. No seu ombro esquerdo, um “exuzinho”representante do diabo. Talvez essa pista do autor seja o ponto de partida da compreensão. A ambiguidade permanente no trato dos dilemas eternos e universais do homem. É romance complexo e carregado de simbolismos, metafísica e filosofia. Mais que um livro, uma travessia.
Um livro que se lê no mesmo tempo em que ele lê o leitor de volta e leva a auto reflexão permanente sobre as dúvidas, contradições e segredos fundamentais da trajetória humana. Uma história de camadas profundas. Da mais rasa já falamos acima. A tal trama primária, das guerras entre os bandos.
O leitor que insistir vai ser premiado e conduzido aos poucos, às mais escondida das camadas, que se ligam ao seu estrato metafísico, aquele além das descrições formais e que expõe dilemas existenciais e filosóficos fundamentais, como já falado, sobre o bem e o mal, sobre a existência de Deus e do Diabo, sobre o amor e o ódio, sobre o sentido da vida e da morte, sobre o espectro do sofrimento, da dor e do prazer. Daí toda a fonte de inquietação do leitor.
Devido a essas camadas mais remotas, o romance consegue se desprender do rótulo regionalista e se transformar em texto de alcance universal, se inserindo no cânone permanente dos livros para sempre. Eis que o Grande Sertão, na verdade, está mesmo é dentro da gente. Em lugar nenhum outro. Essa vastidão de desamparo e falta de sentido da existência é o próprio deserto interno do ser humano. Restam as poucas veredas, que são as amenidades eventuais com as quais o destino nos contempla, e nos alivia o sofrimento, reforçando sua natureza excepcional.
Sendo um imenso monolito com mais de 450 páginas diagramadas sem divisão de capítulos, o panorama superficial da trama, assim, vai apresentar a geografia da Caatinga e do Cerrado como cenário para a narrativa de um homem idoso e aposentado, o ex jagunço Riobaldo, protagonista, que conta sua história de vida de modo não linear, a um doutor que nunca sabemos quem é, mas que chegou da cidade de passagem e deve permanecer para escutar todo o relato.
E então o narrador vai contar ao doutor sobre a sua angústia de não compreender o sentido da existência no mundo, de não ter certeza da existência do Diabo, ou da presença reconfortante de Deus, da dúvida excruciante sobre ter mesmo feito o pacto com o cujo e do arrependimento sentido pela perda, em possivel consequência do acordo, de seu grande amor, o jagunço Diadorim, filho de Joca Ramiro, morto na batalha final de vingança do bando contra o bandoleiro traidor, Hermógenes.
E se não bastasse a morte prematura de Reinaldo (Diadorim), Riobaldo passa todo o tempo do romance, renegando e lutando contra, (ao mesmo tempo que ama e se entrega a esse amor), por acreditar que Diadorim fosse um homem, e se pune por se deparar com a imprevisibilidade e a auto restrição moral de sentir um afeto homossexual. Assim, o amor ambíguo de Riobaldo e Diadorim é tema metafísico central da obra.
Um amor que se move entre a amizade e um desejo profundo e confuso. Uma relação marcada pela dualidade e pela androginia de Reinaldo, figura que desafia convenções ao transitar entre o masculino e o feminino. A obra explora o esse amor como sentimento que se entrelaça com a violência do sertão, com o desejo e com a busca por sentido, culminando na descoberta da verdadeira identidade de Diadorim após sua morte. Riobaldo então, sofre em silêncio e abandona a vida de jagunço. Casa-se com Otacilia e herda as fazendas de seu pai, Selorico Mendes, a quem antes julgava ser seu padrasto.
Sobre a ambiguidade do sentimento de amor perturbado de Riobaldo por Reinaldo, há talvez uma das frases mais lindas do livro e de toda a literatura nacional. Curta e direta: “Diadorim é minha neblina”. Tudo fica explicado em quatro palavras.
Mas porque o livro é tão difícil de ler? A primeira razão é pela sua linguagem diferente, elemento causador de estranhamento no começo. Algo com que rapidamente se acostuma. Mas há outra razão importante. Maior. Rosa começa a contar a história com o trem já em movimento acelerado, sem que o leitor seja avisado disso e possa se preparar para se dar conta da confusão temporal desordenada dos acontecimentos. Em outras palavras: se fosse um jogo de futebol, o livro começaria a história aos 15 minutos do segundo tempo, num momento cronológico bastante adiantado.
Mas poderia se objetar que vários autores se servem dessa técnica de ir e voltar na narrativa e adiantar seu tempo para tornar a leitura mais interessante e dinâmica ao leitor e nem por isso os livros que assim acontece serão necessariamente indecifráveis. Ok, verdade, mas quem se serve da técnica, acaba dando pistas mais evidentes ao leitor. O autor pode alternar capítulos, intercalar em blocos separados os momentos da narrativa ou então variar os tons do discurso e a presença deste ou daquele personagem.
Guimarães Rosa foi bem menos generoso com seu público. Ele não explica nada e nem divide o texto em capítulos que ajudariam o leitor a se organizar melhor. Ele mistura tudo e o público que se vire para separar o tempo e decifrar o que está acontecendo. E a coisa é ainda mais complexa pois muitas coisas estão acontecendo misturadas ao mesmo tempo na forma como ele revela. A primeira parte do texto, ocupa mais ou menos o primeiro quinto do romance (cerca de oitenta e poucas páginas) e se disfarça num pântano narrativo.
Aos poucos, a trama vai sendo desembaralhada e Rosa retorna de repente ao início cronológico da narrativa e da vida do narrador Riobaldo, permitindo que o arco narrativo siga mais ou menos linear na ordem temporal até o final. E no meio das guerras entre os jagunços rivais, das andanças, dos acertos de contas e do pano de fundo da história, ele vai jogando pro leitor toda a metafísica e a filosofia dos temas chave que quer discutir.
Há quem diga que o livro seria uma releitura Rosiana de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. De fato há certos aspectos similares. O grande professor Antônio Cândido vai por esse caminho, e defende que a literatura brasileira chegou ao seu grau de independência e de ápice no momento em que uma obra anterior de alta envergadura, engendrou uma posterior de maior amplitude. De fato, o cenário comum, a análise da realidade brasileira e a intenção de expor o subdesenvolvimento advogam a tese. Mas os contrastes se sobrepõem, na minha visão. Pois a obra de Cunha é um relato histórico e cientificista sobre a Guerra de Canudos, enquanto a de Guimarães Rosa é um romance experimental que explora a linguagem e os dilemas humanos em um sertão mais metafisico do que real.
Antes de encerrar, não podemos deixar de discutir outro tema essencial da obra. A questão da existência do Diabo. Rosa se ocupa o tempo todo deste tema e estabelece quase oitenta formas de nomeá-lo: Cão, Capeta, Cramulhão, Tinhoso, Coisa-Ruim, Demônio, Lúcifer, Belzebu, Maligno, Morcegão, Fancho-Bode, Muitos-beiços, Faca-fria, Azinhave e etc. A questão do Diabo em “Grande Sertão: Veredas” é central e revela toda a incerteza sobre sua existência real e sua natureza.
Riobaldo, o narrador, se angustia com o dilema entre acreditar ou não no Diabo e questiona se o mal existe como uma entidade separada ou se é uma manifestação do próprio homem. Questiona também o pacto e suas possíveis consequências. Ao longo da obra, essa incerteza é explorada como um dos temas centrais, culminando na famosa frase “O diabo não há! É o que digo, se for, eiste é o homem humano”. O diabo seria o mal que habita dentro de nós. A metáfora da imperfeição do humano.
Em resumo de tudo que foi dito: A questão do sentido da vida em Grande Sertão: Veredas é a espinha dorsal da narrativa, conduzindo a jornada de Riobaldo em uma busca incessante por respostas e explicações. A obra de Guimarães Rosa explora essa temática por meio dos conflitos, dúvidas e revelações que se entrelaçam com as vivências do protagonista no sertão. Temos quatro chaves principais: A questão da travessia como autoconhecimento, a dualidade e a ambiguidade do conceito de sertão, o papel do amor e do diabo na vida das pessoas e a questão da coragem ao longo da experiência da existência. Desse tema resulta outra das frases mais emblemáticas do livro:
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Isso é puro suco de João Guimaraes Rosa.
Rosa pediu licença da vida em 1967, apenas três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Adiou por quase quatro anos a formalizacao de sua investidura entre os imortais, pois cismava que desencarnaria assim que cedesse. Ironicamente, tinha razão, ja que a profecia se cumpriu de imediato. Morreu ao se tornar imortal. Enorme paradoxo. E Grande Sertão: Veredas ficou vivo para sempre como um dos maiores romances que o mundo já conheceu.
Temos todos uma dívida de gratidão com ele e quase a obrigação de conhecer, se não a extensão completa de sua obra, pelo menos o seu ato literário principal. Sorte nossa poder ler Rosa no original. Sem traduções. Obrigado, João! Seu legado tem valor inestimável e você nos atira sem ensaio no grande carrossel de emoções da existência humana!
Foto: Instagram/Museu Guimarães Rosa

Ficha técnica
Título original: Grande sertão: veredas
Páginas: 560
ISBN: 978-85-3593-198-3
Selo: Companhia das Letras