Na coluna desta sexta-feira, trago por aqui sugestões de filmes sobre a vida e a obra de artistas, pintores em sua maioria, e também algumas produções que nos permitem compreender o papel da arte como instrumento de dominação cultural ou de transformação social. Afinal, qual é a proposta de um trabalho artístico? Servir de registro visual de uma época, funcionar como mero instrumento de contemplação (arte como estética), ou provocar reflexão e/ou questionamento na sociedade?
A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões para o fim de semana!
Nunca Deixe de Lembrar

O filme nos traz a história de um artista plástico alemão chamado Kurt Barnert, mas é, na verdade, inspirado na vida do pintor Gerhard Richter, ainda vivo aos 92 anos.
A narrativa é interessante e nos mostra vários momentos da vida do artista, desde a sua infância, o convívio com uma tia diagnosticada como portadora de esquizofrenia, os horrores do regime nazista, a sua ida para a escola de Belas Artes e a descoberta do amor. Apesar de longo (são quase três horas de duração), gostei do filme — e achei interessantíssimo acompanhar o processo de inspiração e criação artística do pintor: como se dá o surgimento de uma ideia, a inspiração do artista e, ao final, a materialização daquele sentimento, daquela força criativa, em algo concreto, palpável e visível. Acho maravilhoso como tudo isso acontece.
Onde assistir? Netflix (atenção! Só estará disponível até o dia 30 de novembro), Claro TV (Now) e Apple TV.
Hitler vs Picasso: a obsessão nazista pela arte

Assisti ao documentário há tempos, quando foi exibido nos cinemas. De início fui sem maiores expectativas, pensando que veria mais do mesmo, eis que a apropriação pelo regime nazista de diversas obras de arte, pertencentes em grande parte a colecionadores judeus, é um fato histórico conhecido. Fui surpreendida por uma produção que superou em muito o que eu esperava.
O documentário vai além da narrativa histórica e mostra como a arte pode ser utilizada pela política como forma de dominação e imposição de um ideal. A associação da arte unicamente ao conceito do que seria “belo”, esteticamente agradável e recomendável ao olhar de quem ocupa o poder, foi utilizada pelo nazismo como instrumento de segregação social e racial, a fim de fazer prevalecer a raça ariana e valores trazidos por Hitler. Uso da arte como instrumento de manipulação. Assustador.
Diversos pintores tiveram suas obras confiscadas após serem consideradas inadequadas sob o ponto de vista do regime que ocupava o poder. A exposição “Arte Degenerada”, amplamente retratada no documentário, é um marco do regime nazista contra a arte moderna e tinha como objetivo difamar grandes nomes (inclusive pintores expressionistas), que tiveram boa parte de suas produções destruídas pelos nazistas.
Onde assistir? Claro TV (Now), Apple TV, e canal Looke da Prime Video.
Maudie: Sua Vida e sua Arte

Prepare-se: este filme contém cenas de intenso amor, em sua forma mais pura, de resiliência e de superação. Eu adorei! Daqueles filmes que você ri, você chora, e acima de tudo se questiona sobre o que significa felicidade. Ah! Maudie é baseado em uma história real e ela pintou quadros lindos!
Onde assistir? Netflix, Claro TV (Now) e Apple TV.
Kobra Auto Retrato

É um filme/documentário sobre a vida do artista Kobra (@kobrastreetart). Eu sempre admirei muito o trabalho dele, espalhado por diversos países ao redor do mundo. O documentário é um relato sincero sobre uma personalidade apaixonante, um ser diferenciado. As dificuldades na relação com os pais, os problemas com o alcoolismo, que lhe trazia algum conforto para lidar com a medicação antidepressiva, o difícil percurso experimentado para dar conta das agruras do viver, especialmente para alguém de extrema sensibilidade, que é incapaz de entender, por força de sua estrutura, a violência e o ódio das pessoas.
O processo de criação de seus trabalhos, a busca de inspiração, as resistências e críticas vividas inicialmente, e também quando suas obras começaram a se espalhar pelo mundo (ele chegou a ser acusado de ter apagado uma obra do Banksy…).
A transformação trazida com a chegada do filho Pedro (“Hoje eu sou muito mais dependente dele do que ele de mim”), que trouxe novo significado à sua caminhada. A relação com Andressa, desde os tempos em que trabalhava no PlayCenter em São Paulo. Gostei muito!
Onde Assistir? Reserva Imovision, Prime Video.
A Musa de Bonnard

Este filme francês é de 2023 e tem roteiro e direção de Martin Provost. Trata da vida e obra do pintor Pierre Bonnard e sua relação com Marthe, retratada em várias obras do artista. A relação conturbada que existia entre ambos, que ao mesmo tempo que servia de inspiração ao artista, trazia grande sofrimento para Marthe. Mas apesar de todas as adversidades, o casal seguia em uma relação simbiótica e completamente instável. A rotina livre do casal se concretiza na casa onde passaram a residir — e onde recebiam amigos famosos à época, como Claude Monet. O filme tem um ritmo um pouco lento no início, mas a narrativa evolui ao longo da história.
Onde assistir? Claro TV (Now), Apple TV e Google Play.
O Museu (originalmente “Bellas Artes”)

Esta é uma série argentina de comédia dramática, criada por Gastón Duprat e Mariano Cohn. Termino a coluna de hoje com ela! A série é estrelada por Oscar Martínez, que interpreta Antonio Dumas, um prestigiado curador e historiador de arte que assume a direção de um museu de arte contemporânea em Madri. A série é IMPERDÍVEL. São episódios curtos, com um roteiro muito bem escrito, cheio de ironia, que aborda o impacto de pautas que atravessam a sociedade atual e sua repercussão no mundo artístico (gênero, raça, orientação sexual, pressões políticas). O que pode ser considerado como arte atualmente? Não deixe de assistir!!!!!
Onde assistir? Disney Plus.
Há muitos filmes que dialogam com o tema desta coluna — e trazem narrativas delicadas sobre artistas e suas múltiplas contribuições para a cultura mundial. Cito alguns exemplos: Frida (2002), No Portal da Eternidade (2018), Com Amor Van Gogh (2017), Camille Claudel (1988), A Dama Dourada (2015), Grandes Olhos (2014), Renoir (2012), Pollock (2001), Gauguin – Viagem ao Taiti (2017) e ainda muitos outros. Um mergulho na mente de artistas que deixaram ao mundo um legado de sensibilidade, beleza e reflexão durante sua existência, na maioria das vezes permeada por emoções demasiado fortes e incompreensão pela sociedade. Um sentir e um olhar diferente para o mundo ao redor.
Bom final de semana!