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A importância da representatividade feminina nas premiações literárias e um breve apanhado sobre as duas últimas mulheres vencedoras do Nobel: Annie Ernaux e Han Kang

Inserido em 1 de novembro de 2024
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Por Felipe Cuesta

A recente indicação da escritora sul-coreana Han Kang ao prêmio Nobel de Literatura de 2024 parece confirmar, em boa medida, a reversão de uma péssima tendência que sempre predominou na Academia Sueca — a de desprestigiar as mulheres como protagonistas das escolhas. É um alívio verificar que, de maneira alternada, dos oito últimos vencedores, quatro foram do sexo feminino, o que diminui um pouco a diferença abissal entre o total de 103 homens contemplados, contra ainda apenas 18 mulheres.

Prêmio Nobel de Literatura – Wikipédia, a enciclopédia livre

Além do histórico de preconceito, nos últimos anos a Academia havia sido o centro de vários escândalos que reavivaram problemas de sexismo e corrupção dentro da instituição, abalando o prestígio e comprometendo a credibilidade junto à opinião pública sobre a autoridade moral de seus membros para decidir os rumos da história literária mundial e para escolher, a cada ano, o escritor que tenha “dado à humanidade uma maior contribuição na área”, conforme exige o testamento deixado pelo magnata Alfred Nobel, instituidor do prêmio — que é a Copa do Mundo das Letras de ficção.

As indicações da romancista polonesa Olga Tokarczuc em 2018, da poeta norte-americana Louise Glück em 2020, além da francesa Annie Ernaux em 2022 e agora da sul-coreana Han Kang, demonstram que os responsáveis pelo prêmio estão tentando limpar sua barra. Ainda bem, já que talvez isso indique um período de mais valorização e reconhecimento da escrita mulheril.

Historicamente, público e crítica sempre foram reativos aos textos de autoria feminina, que, em sua maioria, ficavam à margem de aceitação, o que levou muitas mulheres talentosas a usarem odiosos pseudônimos masculinos para se esconderem do mundo e poderem publicar seus romances. Jane Austen e as irmãs Brontë são exemplos de escritoras clássicas que não podiam meter a cara. Esperava-se que mulheres falassem de temas domésticos, temas de sentimentos amorosos e que transparecessem delicadeza na escrita. 

Seus textos deveriam presumir-se diferentes dos produzidos pelos escritores homens, estes sim com autoridade e conhecimento para abordarem temáticas relevantes e universais. A escrita feminina era associada a algo menor e de qualidade inferior, o que, em última camada, determinou ao longo do tempo, no imaginário coletivo, a formação de um cânone literário composto quase que somente por figuras do sexo masculino.

A sociedade, portanto, tem dever de casa para fazer e uma dívida com as mulheres escritoras, razão pela qual a tendência igualitária dos últimos anos deve ser exaltada e aplaudida, conquanto vigiada, para que não seja apenas um espasmo ocasional. Para tal fim, as premiações oferecem um dos melhores antídotos contra o preconceito, pois funcionam como um selo de qualidade ficcional, destacando determinados autores(as) e chamando atenção dos leitores para sua obra.

Vamos, em seguida, falar um pouco de Han Kang e Annie Ernaux:

A escritora Annie Ernaux, que tem seus livros no Brasil publicados pela editora Fósforo, foi a ganhadora do prêmio em 2022 por sua “coragem e acuidade clínica para descortinar as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal” e por refletir sobre “uma vida marcada por grandes disparidades de gênero, linguagem e classe”, segundo comunicado da Real Academia de Ciências da Suécia. 

A autora francesa pratica uma escrita de confissão dotada de um estilo narrativo próprio, que mistura romance, ensaio, novela, crônica e autobiografia experimental, trazendo para a literatura acontecimentos importantes que permitem refletir sobre a escrita feminina, por meio de temas tabu que não são abordados regularmente — dentre os quais o aborto, a submissão amorosa e sexual.

Annie Ernaux, escritora francesa, ganha Prêmio Nobel de Literatura 2022 | Pop & Arte | G1

O livro que destaco para ilustrar sua obra é “O Acontecimento”. Um soco no estômago. Uma obra visceral e necessária com pouco mais de 70 páginas em que a autora relata sua própria experiência ao realizar um aborto na França dos anos 60. Poderia também ser o relato de uma brasileira ou de uma africana quase seis décadas após. Impossível deixar de sentir empatia com a narrativa. A obra nos revela a solidão da mulher diante de uma decisão que deveria caber somente a ela e de como o fato é negligenciado por médicos, familiares, amigos, companheiros e até por outras mulheres, o que muito dificulta a adoção de políticas públicas de saúde capazes de salvar ou de minorar os traumas para as que suportam seus efeitos.

Como diz a escritora, “pode ser que um texto como esse provoque irritação ou repulsa, ou seja considerado de mau gosto. Ter vivido uma coisa, qualquer que seja, me dá o direito imprescritível de escrever sobre ela e, assim fazendo, estarei contribuindo para desobscurecer a realidade das mulheres e não me acomodar ao lado da dominação masculina do mundo. O verdadeiro objetivo de minha vida é que meu corpo, minhas sensações e pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência dissolvida na cabeça e na vida dos outros”.

O Acontecimento | Amazon.com.br

“O Acontecimento”, Annie Ernaux. Fósforo Editora, 1ª edição, 2022, 80 páginas, disponível com preço de capa a R$ 64,90.

Por fim, a sul-coreana Han Kang, acaba de ser anunciada como a vencedora do prêmio Nobel de literatura. Segundo a academia sueca, “por sua intensa prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana”.

Embora ela tenha outros livros publicados, a razão maior da conquista se chama “A vegetariana”, livro publicado no Brasil pela Editora Todavia, assim como “Atos Humanos” e “Ruido Branco”. “A Vegetariana”, que venceu o Man Booker Prize International (o Nobel inglês) em 2016, tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea e é uma narrativa psicológica que conta a história dessa mulher comum que, pela simples decisão de não comer mais carne, começa a sofrer um arco de degradação paulatina de sua psique e transforma uma vida aparentemente sem maiores atrativos em um pesadelo perturbador e transgressivo. 

Han Kang, escritora sul-coreana, ganha Prêmio Nobel de Literatura 2024 | Pop & Arte | G1

Narrado a três vozes, o romance apresenta o distanciamento progressivo da condição humana de uma mulher que decidiu deixar de ser aquilo que marido e família a pressionaram a ser a vida inteira. Partindo dessa premissa, a escritora nos apresenta uma joia da ficção contemporânea, enfrentando temas sensíveis de modo inovador, como rebelião, tabu, violência e até erotismo, escrito com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas, com pinceladas e elementos de fantástico, dando ao texto um traço ainda mais único e saboroso.

“…Eu tive um sonho”, diz Yeonghye, e desse sonho de sangue e escuros bosques nasce uma recusa vista como radical: deixar de comer, cozinhar e servir carne. É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos aqueles que estão próximos da protagonista.

“A vegetariana” é um livro forte e necessário. O impacto da mudança radical do estilo de vida da protagonista na vida das pessoas mais próximas é avassalador. Na obra, cada uma das partes é narrada por uma pessoa, o marido, a cunhada e a irmã. Curioso que o leitor termina de ler o livro sem conhecer o ponto de vista da protagonista, eis que a escritora não lhe dá voz narrativa, tudo que sabemos dela é através da opinião e das informações de terceiros.

Na esteira do sucesso cultural de vanguarda da Coreia do Sul nas artes cênicas com destaque para os Blockbusters “Parasita” e “Round 6”, o país agora também tem uma mulher vencedora do Nobel de Literatura.

A vegetariana - Prêmio Nobel de Literatura 2024

“A Vegetariana”, Han Kang. Editora Todavia, 1ª edição, 2018, 176 páginas, disponível com preço de capa a R$ 74,90.

O promotor de Justiça Felipe Cuesta escreve textos quinzenais no site e na newsletter da Amperj, nos quais comenta sobre tudo relacionado a literatura — de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.