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Coluna da Patricia Carvão: Produções recentes de ‘true crime’ ganham destaque nas telinhas

Inserido em 25 de outubro de 2024
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por Patricia Carvão

Há várias opções de filmes e séries sobre crimes reais nas plataformas de streaming. Hoje em dia, é possível ter acesso a detalhes sobre a investigação criminal, sobre o julgamento… e por aí em diante. Escrevo, então, sobre três produções recentes que me chamaram a atenção.

“A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio”

Recordo que esse crime me impactou à época. Como essa vítima buscou ajuda! A maior parte do tempo foi classificada como uma aproveitadora — e seus apelos não receberam a devida proporção que o caso merecia. O goleiro Bruno continuou com seu emprego no Clube de Regatas do Flamengo, mesmo com todas as acusações que pendiam sobre ele. Era glorificado. A presidente do clube à época — uma mulher — legitimou a permanência dele na equipe, apesar de todas as evidências em seu desfavor.

Bruno mostrava sinais que revelavam comportamento misógino e uma necessidade infantil de autoafirmação masculina. Tinha várias mulheres ao mesmo tempo, bebia em excesso, era violento e grosseiro. Chegou a sair em defesa de um colega de equipe — o também jogador Adriano — com a pergunta “Quem de vocês nunca saiu na mão com uma mulher?”, como se qualquer tipo de violência contra uma mulher fosse justificável. Ainda assim, com toda sua masculinidade tóxica, continuava sendo ídolo, enquanto a mulher — no caso, a vítima — era tida como aproveitadora, com sua honra e comportamento questionados a todo tempo, inclusive com negativas no deferimento de algumas medidas protetivas solicitadas.

Fica o recado de que a violência contra a mulher precisa receber uma nova leitura, análise e compreensão totalmente diversa da que teve até hoje. Este tipo de violência ocorre na maior parte dos casos de forma velada, sem testemunhas — mas nem por isso deve ficar impune.

Na vida real, as estatísticas são assustadoras. Há mulheres morrendo e sendo agredidas o tempo todo — uma mulher é morta a cada seis horas no Brasil.

Disponível na Netflix.

“Maníaco do Parque”

Sempre que crimes brutais acontecem, tentamos entender de alguma forma o que leva alguém a agir daquela maneira. Doença psiquiátrica, descontrole emocional ou sociopatia, perversidade mesmo… o que se esconde por trás daquele crime?

Nesse sentido, achei interessante a abordagem do filme “Maníaco do Parque”. O criminoso é apresentado como um psicopata. Essa categoria de pessoas sabe exatamente o que fazer, o que precisa ser dito para capturar suas vítimas — mapeando sua vulnerabilidade emocional —, o que fazer para despertar seu interesse e atenção. São egocêntricos e também manipuladores, sedutores. Eles não têm as emoções formadas de maneira completa. Não sentem culpa, remorso, medo, vergonha ou raiva. Simplesmente não sentem nada. Silvero Pereira está bem no papel de Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido no fim da década de 1990 como Maníaco do Parque após ter praticado vários homicídios, além de abusar sexualmente de seus cadáveres, no Parque do Estado, em São Paulo.

A trama também dá protagonismo às vítimas sobreviventes e à sua coragem em denunciar e colaborar com as investigações, apesar do trauma. Ampliar a voz das vítimas — essa parece ter sido a proposta.

O filme é dirigido por Mauricio Eça, que também dirigiu “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais”, sobre o caso Suzane Von Richthofen.

Disponível no Prime Video.

“Um Silêncio”

Drama francês de Joachim Lafosse, que também dirigiu os excelentes filmes “A Economia do Amor” e “Os Cavaleiros Brancos”, ambos disponíveis no streaming, dentre outras produções.

O início de “Um Silêncio” é um pouco lento, mas a narrativa acaba por nos envolver com o caminhar da história. François — interpretado por Daniel Auteuil — é um famoso advogado que atua em um crime midiático de grande impacto na sociedade francesa. Em paralelo, François tem uma questão familiar do passado, que parecia ter sido superada pela família, mas volta à tona justamente nesse momento de tanta exposição.

Astrid (Emmanuelle Devos) interpreta o papel de uma esposa que fará de tudo para manter a família reunida, mesmo que isso importe em uma violência psicológica que ela levará anos para entender.

Será que tudo pode ser esquecido ou silenciado em nome de uma pretensa harmonia?

Disponível na plataforma Reserva Imovision.

Despeço-me hoje com o poema “Guardar”, escrito pelo Poeta Antonio Cícero, que nos deixou esta semana:

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

 

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

Bom final de semana!

A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões para o fim de semana!