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Coluna de Felipe Cuesta: Como anda sua relação com a literatura e com o hábito de leitura?

Inserido em 18 de outubro de 2024
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Por Felipe Cuesta

O ser humano desde sempre teve a necessidade de contar e reter suas histórias, não somente com o objetivo de difundir e adquirir conhecimento, mas também para entreter as audiências, registrar os fatos do cotidiano e dos costumes, expressar sentimentos, pensamentos e trocar experiências. A literatura passa então a ser algo inseparável da própria vida, uma ferramenta capaz de destrinchar e escanear as muitas nuances e camadas da existência humana. Os romances, os contos, as peças de teatro, os poemas, ensaios, crônicas e novelas, dentre outros, são, portanto, tipos de texto que nos oferecem, de bandeja, as motivações e os conflitos que os seres humanos já viveram antes ou ainda viverão, elementos imprescindíveis a uma melhor compreensão da alma e da condição moral da espécie. A literatura faz as vezes de uma sessão de terapia escrita, concentrada e contínua. Através dela, o indivíduo lapida seu ego e se torna alguém melhor, mais autoconsciente e preparado para enfrentar os desafios do dia a dia.

Como conceito formal, a literatura é a arte produzida com o uso das palavras ou uma modalidade de expressão do homem que tem a escrita como matéria prima e o objetivo de contar histórias que exprimam emoções ou ideias. Um texto literário apresenta uma inclinação subjetiva e um perfil mais conotativo, cujo sentido se obtém em função de um contexto desvinculado da interpretação estritamente literal. Com o surgimento da escrita, as histórias, contadas por oradores hábeis, passaram a ser registradas em objetos. Inicialmente, escrevemos em pedras, tabuletas ou potes de argila, nos servindo da chamada escrita cuneiforme até chegar ao papiro egípcio, o precursor do papel. Dentre os primeiros textos literários da humanidade, de aproximadamente 2000 a.C., temos a Epopeia de Gilgamesh, um antigo poema épico da Mesopotâmia, e o Livro dos Mortos, um conjunto de orações e feitiços que os egípcios enterravam com seus entes falecidos para ajudar na viagem da alma rumo à eternidade.

Avançando até os dias atuais, em que a atividade da leitura, especialmente a de ficção, perde terreno em prejuízo de outras formas de entretenimento, numa época em que livrarias e bibliotecas vão sendo descontinuadas e substituídas por outros espaços mais rentáveis, a renovação do interesse e do gosto pela leitura e pela literatura são desafios da modernidade. Discuti-los, porém, foge ao objetivo deste ensaio. Há outra reflexão a ser trilhada igualmente sem resposta pronta. Como incorporar na rotina uma atividade que exige tempo e concentração absoluta em um mundo tão acelerado? Enorme paradoxo. A leitura é um gesto solitário e egoísta, e demanda foco total. Os livros induzem um hábito que não se coaduna com a pressa, pois para perceber as camadas de significado do texto, aprofundar as chaves de leitura e extrair o subtexto oculto em cada obra, é preciso se debruçar e deixar de lado as distrações paralelas.

Nessa perspectiva, fundamental a compreensão da relevância da leitura de ficção como ferramenta para aprimorar uma série de talentos já disponíveis em cada um de nós. Muitas pessoas não consomem literatura, pois dizem ter preguiça de ler « esse tipo de livro que não lhes acrescenta conhecimentos práticos » e preferem livros técnicos ou obras de não ficção, tudo porque a função destes seria apenas o de « ensinar » e os romances, contos, poemas e afins não cumpririam esse papel. A premissa não pode ser mais equivocada. Entender a literatura como um mero apanhado de histórias com personagens irreais e tramas de fantasia é um erro gravíssimo, que priva a pessoa de reiteradas epifanias ao encontrar a realidade escancarada e dita de forma tão clara e perfeita, quando se decodifica o sentido complexo do texto ficcional. A literatura é o jornal de ontem. Ela incrementa o raciocínio crítico, traz autoconhecimento, desenvolve a percepção de mundo, com toda a crueza das múltiplas realidades disponíveis, nos coloca diante de situações de vida que já vivemos ou que ainda vamos viver, expande o vocabulário, a capacidade de escrita e de raciocínio e a empatia pelos semelhantes, além de nos divertir e nos inspirar, interferindo positivamente na vida pessoal e profissional de cada um.

Ora, vejamos. Para discutir feminismo, mazelas e consequências de uma sociedade machista e patriarcal, como desprezar os ensinamentos de Jane Austen em obras como Orgulho e preconceito, Persuasão, Emma, ou Razão e sensibilidade. Como refletir filosoficamente sobre injustiça e vingança sem tomar em pauta as lições de Os Miseráveis, de Victor Hugo, ou do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Quem melhor do que Eça de Queiroz se investindo como crítico social da hipocrisia dos costumes e das contradições da igreja e do Estado. Tudo está dito em Os Maias, O Primo Basilio ou O Crime do Padre Amaro. Se você quiser conhecer a história detalhada do tráfico negreiro, do candomblé e da era escravocrata no Brasil, nenhum livro de história te dará tantos detalhes e elementos quanto Um defeito de cor, de Ana Maria Goncalves. Como conhecer a rudeza e os desafios da vida sertaneja e os hábitos da jagunçagem, senão recorrendo ao Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ao Quinze de Rachel de Queiroz ou às Vidas Secas de Graciliano Ramos. Como ter a pretensão de entender o submundo das neuroses humanas e prescindir das obras monumentais de Fiodor Dostoiévski, o primeiro grande psicanalista da humanidade, capaz de influenciar toda a doutrina de Sigmund Freud. Crime e Castigo nada mais é senão uma grande discussão literária e moral sobre causa supralegal de concessão de licitude a um homicídio com base no exercício regular de um direito. Pois Raskolnikov acredita ter o dever moral de tirar a vida da velha usurária, e assim o faz em prol da humanidade. E o que dizer dos ensaios de Montaigne e do Decameron de Bocaccio, dois grandes blogueiros da vida cotidiana na idade média. Não vou nem citar Shakespeare, merecedor de um texto apenas seu. Os exemplos são infinitos.

Enfim, buscando inspiração no prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o fato é que, embora em menor escala, todas as ficções fazem o leitor viver o impossível, tirando-o do seu eu particular, ultrapassando os limites da sua condição e fazendo-o compartilhar, identificado com os personagens da ilusão, uma vida mais rica, mais intensa, mais abjeta ou simplesmente diferente daquela em que estão confinados, nesta prisão de segurança máxima que é a vida real. As ficções existem por isso e para isso. Porque só temos uma vida e os nossos desejos e fantasias nos exigem ter mil. Porque o abismo entre o que somos e o que gostaríamos de ser precisa ser preenchido de alguma maneira. Para isso nasceram as ficções, para que possamos incorporar o possível ao impossível e nossa existência seja ao mesmo tempo realidade e irrealidade, história e fábula, vida concreta e aventura maravilhosa.

Fica o convite então para tratarmos desses temas neste canal de comunicação que hoje se apresenta. Queremos discutir e incentivar o gosto e o prazer pela boa literatura e pela leitura dos livros de ficção, clássicos ou contemporâneos, dando dicas de autores, de livros por países, por continentes, dicas por gênero ou por outras categorias elegíveis. Vamos comentar ainda sobre livros aclamados e que fazem parte da nossa história como leitores e da história da literatura de um modo geral, bem como apresentar resenhas de obras em destaque e falar sobre autores e obras contemplados em concursos e prêmios literários. Por fim, queremos relacionar romances, contos e peças de teatro também com temas afins, como viagens, gastronomia, geopolítica, guerra, artes, cinema, vinho e com a história dos países e dos próprios escritores.

Com este texto, o promotor de Justiça Felipe Cuesta estreia sua coluna quinzenal no site e na newsletter da Amperj, na qual comentará sobre tudo relacionado a literatura, de reflexões sobre leituras impactantes a recomendações de livros.