Os promotores de Justiça Bruno Gangoni e Fabiano Cossermelli apresentaram um amplo panorama da exploração dos jogos de azar no “Amperj Debates” desta segunda-feira (23). Em cerca de duas horas de programa, a dupla — com muita experiência no Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO) do MPRJ — explicou como os bicheiros têm migrado do talonário para as apostas online.
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O bate-papo teve início com um apanhado histórico do jogo do bicho. Bruno falou sobre o surgimento da prática em 1892, no zoológico do Barão de Drummond, e sua expansão pelo Rio de Janeiro. À época, vale ressaltar, jogos de azar já constavam do Código Penal.
A contravenção seguiu por décadas sem grande coordenação, mas esse cenário mudou durante a ditadura, segundo Bruno. “Nesse período, a contravenção se organizou, cooptando vários membros das Forças Armadas, que agregaram disciplina e hierarquia. Vem dessa época um dos principais bicheiros do Rio de Janeiro: o Capitão Guimarães.”
Com o tempo, grupos criminosos explorando jogos de azar se estruturaram sob comando de figuras influentes, como Guimarães e Castor de Andrade. Perto do fim do regime militar, foram esses contraventores que organizaram uma “limpeza de reputação”. “A entrada dos bicheiros no Carnaval é uma típica lavagem de imagem. A LIESA foi criada em 1984 e teve como primeiros presidentes quatro bicheiros. O objetivo era claro: mudar a imagem que a população tinha deles”, afirmou Bruno.
A atuação dos bicheiros se tornou gradativamente mais sombria, com mando de assassinatos e corrupção de policiais. Para Fabiano, a contravenção é “uma das estruturas criminosas mais perniciosas que existem no Rio de Janeiro”. No programa, o promotor destacou que o jogo do bicho encontrou meios de seguir crescendo no meio digital, aproveitando novas tecnologias.
Nesta esteira, proliferam no Brasil as apostas esportivas, conhecidas popularmente como bets. Novos sites aparecem na internet com frequência, dificultando a fiscalização. “O jogo online ainda vai desafiar muito debate sobre seu alcance. É tudo ainda muito novo e por isso há tantas dúvidas e questionamentos”, pontuou Fabiano.
Por conta disso, a tramitação do PL 2.234/2022, que discute a legalização dos jogos e seus impactos, preocupa. “A regulamentação do jogo poderia aumentar a arrecadação do Estado, mas na contramão disso temos um problema muito sério de saúde pública, porque essas práticas têm grande capacidade de viciar”, disse Fabiano, que também citou o endividamento das famílias dos apostadores como efeito colateral.
Caso você tenha interesse em aprofundar seu conhecimento sobre o assunto, acesse a íntegra do “Amperj Debates” com Bruno Gangoni e Fabiano Cossermelli no canal de YouTube ou na Intranet da Amperj! A série documental “Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho”, do Globoplay, é outra dica.