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Conheça os filmes do diretor inglês Ken Loach, por Patricia Carvão

Inserido em 30 de agosto de 2024
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Patricia Carvão

Nesta semana, comento alguns filmes do diretor inglês Ken Loach, que particularmente acho muito impactantes. O trabalho dele foi influenciado pela chamada “New Wave” britânica, movimento impulsionado por um grupo de críticos que escreviam em uma revista especializada (Sequence) e passaram a atuar como cineastas. O foco do trabalho foi dirigido em especial para a região industrial do Norte da Grã- Bretanha, trazendo questões relativas a gênero e classe social. Ainda que o movimento tenha se dissipado com o correr dos anos, influenciou diretamente o trabalho de alguns diretores de cinema — dentre eles Loach.

O que impacta tanto na obra desse diretor, me parece, é a questão da injustiça social, da desigualdade, que nos faz refletir sobre quem somos como indivíduos integrantes de um coletivo social — e onde desejamos chegar como sociedade. A solidariedade também está presente, às vezes como solução, às vezes como mero paliativo ao sofrimento humano. Suas obras nos convocam a sair da condição de meros espectadores de um filme.

A procuradora de Justiça Patricia Carvão escreve uma coluna quinzenal na newsletter da Amperj, comentando filmes e séries aos quais assiste nos cinemas e plataformas de streaming. Conheça suas sugestões para o fim de semana!

“EU, DANIEL BLAKE” (2017)

Vencedor dos prêmios César, BAFTA, European Film Awards, Palma de Ouro do Festival de Cannes e exibido no Festival de Toronto.

No filme, como na vida, a burocracia imposta pelo Estado para a liberação de um benefício social é tamanha que causa revolta e indignação a quem dele precisa. De forma muito resumida, Daniel é cardiopata e, por recomendação médica, se vê incapacitado de retornar ao trabalho. Ele procura, então, auxílio financeiro do Governo inglês — e inicia uma luta diária para ter direito ao recebimento do benefício e atender a toda burocracia imposta, o que evidencia a precariedade do sistema. Na mesma situação, ele encontra uma mãe e seus dois filhos. O sofrimento de ambos trará algum alento à luta.

A luta que precisa enfrentar é desumana; o filme tem um final surpreendente.

Na época da pandemia decorrente do Coronavírus, o Governo estabeleceu uma série de entraves àqueles que precisavam receber o auxílio emergencial. A exigência do CPF regularmente cadastrado junto à Receita Federal, trouxe à tona uma realidade bem pior do que a prevista pelo Governo, que estimava um número bem menor de pessoas que seriam beneficiadas pelo auxílio. A exigência de regularização do CPF trouxe também tumulto às agências da Receita Federal em um momento no qual se recomendava isolamento social. Filas enormes se sucederam,  compostas por aqueles que precisavam regularizar seus cadastros como primeiro passo em busca da ajuda do Governo. O fato traz a triste constatação de que os benefícios sociais nem sempre conseguem chegar àqueles que precisam, ainda que venham acompanhados da palavra “emergenciais”.

A fome tem pressa, a obtenção de condições para um mínimo de dignidade tem urgência — e torna-se difícil em certas situações aguardar a burocracia estatal.

Disponível nas seguintes plataformas: Apple TV, YouTube, Google Play, Claro tv+ (antigo NOW) e Vivo Play.

“VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI” (2020)

Assim como em “Eu, Daniel Blake”, há neste filme um olhar social crítico, voltado desta vez para as relações de trabalho.

Ricky decide adquirir uma pequena van, na intenção de trabalhar com entregas, e sonha tornar-se autônomo para poder dedicar mais tempo à família e melhorar sua situação financeira. Sua esposa trabalha como cuidadora de idosos e o casal possui dois filhos ainda em idade escolar.

Mesmo trabalhando por conta própria com a van recém-adquirida, Ricky decide prestar serviços para uma empresa de entrega de encomendas e, aos poucos, começa a descobrir que a tão almejada autonomia é uma realidade ainda muito distante. A esposa, por sua vez, lida diariamente com a pesada tarefa de cuidar de pessoas que residem sozinhas e precisam de ajuda — em sua maioria idosos. Junto com a árdua rotina, entre idas e vindas de uma residência para outra, ela precisa ainda lidar com a culpa de deixar os filhos sozinhos em casa para poder trabalhar, controlando a rotina diária da filha através de telefonemas ao longo do dia, nos quais ela cobra a realização de tarefas escolares, bem como a hora de dormir.

O filho mais velho, por sua vez, já adolescente, sente muito a falta dos pais na rotina diária, ainda que só consiga expressar esse sentimento através de violência e atitudes transgressoras.

A vida da família se transforma em um verdadeiro pesadelo, já que Ricky passa a dedicar-se cada vez mais ao trabalho, sem que a melhora financeira tão almejada aconteça. Sem qualquer reconhecimento ou compreensão por parte da tal empresa de encomendas, Ricky começa aos poucos a ter consciência da armadilha em que estava preso.

O filme evidencia que trabalhadores ainda são vistos por algumas empresas apenas como peças descartáveis de uma engrenagem, na qual o lucro e a produção econômica são os únicos objetivos. A descartabilidade do indivíduo é a filosofia que passa a conduzir o sistema.

A obra faz refletir ainda sobre a relação que temos com o próprio trabalho. Qual é o lugar que o trabalho ocupa em nossa vida? O que é fundamental estar presente na relação de trabalho? O salário representa tudo ou existem outros valores que são tão fundamentais quanto o salário para sustentar uma boa relação trabalhista?

Como combater uma cultura nociva de desvalorização do empregado que ainda é presente em muitos ambientes corporativos, trazendo em substituição um olhar mais cuidadoso, mais humanizado, ainda que seja imperioso reconhecer que o regime jurídico de trabalho esteja passando por significativas mudanças ao redor do mundo?

Investir em melhores formas de comunicação, bem como no aprendizado de habilidades socioemocionais, pode ser um grande negócio, bom para ambos os lados. Quando o filme “Você Não Estava Aqui” chega ao fim, só nos resta suspirar e desejar, de verdade, que nunca se perca a capacidade de olhar o outro como um semelhante.

Disponível nas seguintes plataformas: Apple TV, YouTube, Google Play, Claro tv+ (antigo NOW) e Vivo Play.

“O ÚLTIMO PUB” (2023)

Dave Turner é dono de um pub numa cidade inglesa cuja economia era baseada em uma mina de carvão existente no local, atualmente desativada. A maioria dos moradores leva uma vida mecanizada, sem muitas expectativas ou anseios, permeada apenas por lembranças do que fora um dia aquele local.

Um grupo de refugiados vindo da Síria chega à cidade e não é bem recebido pelos moradores, principalmente por um grupo que frequenta o pub The Old Oak, pertencente a Dave.

A jovem síria Yara, que chega com a família à cidade, é atacada gratuitamente por um morador, que danifica sua máquina fotográfica, praticamente um de seus únicos pertences. A partir desse ato de violência, Dave começa a se aproximar — primeiro de Yara, depois dos outros refugiados — e percebe que em vez de serem olhados como ameaça, o grupo poderia, na verdade, trazer algum propósito para a vida dos demais moradores da região, inclusive as crianças.

Esse movimento desencadeia uma série de reações, algumas positivas e outras de rejeição, e nos mostra o que se esconde muitas vezes por trás de atos de xenofobia. Um filme muito impactante, que mexe em sentimentos profundos, ao mesmo tempo em que traz uma mensagem de fé e esperança.

Em cartaz nos cinemas.

Ken Loach já dirigiu muitos outros filmes! Alguns estão disponíveis nas plataformas de streaming.

Bom final de semana!