A procuradora de Justiça Patrícia Carvão escreve a cada 15 dias na newsletter da Amperj. Na coluna, ela comenta filmes e séries que assiste nos cinemas e plataformas de streaming.
Acompanhe as sugestões sempre inteligentes da colunista.
Leia mais: Aprovados no 9º Concurso de Ingresso no MPRJ celebram 34 anos de posse
Procuradora pede doações para a Bigodes do Bunker, ONG de amparo aos gatos
*Cinema do Irã*
Hoje sugiro aqui alguns filmes iranianos, que acredito terão boa receptividade.
A produção do cinema iraniano vem mudando ao longo dos anos, sempre refletindo a conturbada situação política do país, e seus inúmeros conflitos, que impuseram à cultura inúmeras restrições. O conteúdo de filmes produzido começará a mudar um pouco a partir da década de 80, após a Revolução Iraniana, ocorrida em 1979, que transformou o Irã, até então uma monarquia autocrática pró-Ocidente comandada pelo xá Mohammad Reza Pahlevi, em uma república islâmica teocrática sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini.
Uma nova proposta de cinema se inicia (Cinema Novo), com uma maior preocupação com a estética. Contudo, o conteúdo dos filmes sempre precisou ser aprovado pelo Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, organização governamental da República Islâmica do Irã, e submetido a uma quantidade enorme de regras, ainda hoje impostas aos cineastas. É possível afirmar que atualmente o governo tem um pouco menos de controle sobre a produção, por conta do acesso aos meios digitais, mas ainda assim o controle e a censura são muito intensos, o que faz com que muitos cineastas acabem produzindo suas obras fora do país.
As narrativas são construídas a partir de situações do cotidiano, refletindo ambiguidades humanas e sentimentos contraditórios, que acabaram por despertar a curiosidade do mundo ocidental, mesmo diante das diferenças culturais, o que reforça o poder da linguagem universal trazida pelo cinema. Apesar de ser uma sociedade muito diferente da nossa, o cinema iraniano traz valores que nos aproximam, como amor, solidariedade, amizade, responsabilidade e deveres.
“CRÔNICAS DO IRÔ – Caso alguém me pedisse para definir o filme “Crônicas do Irã”, em cartaz nos cinemas, em uma única palavra eu elegeria: OPRESSÃO. O filme reúne uma série de pequenas histórias sobre situações corriqueiras da vida. Mas nada é simples no Irã. Nada.
Falta liberdade, sobram preconceitos, machismo, opressões, censuras. Um pai vai registrar o filho recém-nascido no cartório, mas o registrador recusa o nome escolhido pelo casal. Uma criança vai com a mãe escolher uma roupa para a festa da escola e acaba saindo de lá praticamente apenas com os olhos de fora, aprisionada dentro de muitas camadas de tecido.
Um escritor precisa alterar o roteiro por ele escrito, pois a narrativa não cabe dentro dos costumes do país.
O filme segue, tornando quase que palpável ao espectador a sensação de opressão e aprisionamento que deve significar viver em uma sociedade onde a liberdade não é algo que seja reconhecido como um dos valores mais fundamentais do homem.
Vale conferir.
“SEM DATA, SEM ASSINATURA” – Um médico patologista se envolve em acidente de trânsito, atingindo uma criança. Apesar de prestar socorro na hora e recomendar que o menino fosse examinado por um médico, ele se surpreenderá no dia seguinte ao encontrar o corpo do menino no hospital onde trabalha, aguardando a autópsia para que fosse constatada a causa da morte. A partir daí surge uma narrativa muito bem amarrada e costurada, que me fez lembrar das aulas de Direito Civil, quando aprendi sobre a teoria da causalidade adequada… O que de fato teria sido a causa determinante da morte daquele menino?
O conflito ético vivenciado pelo médico, e a dúvida que o atormenta conduzem a narrativa de forma ímpar.

“O APARTAMENTO” – Já assisti muitos filmes do diretor iraniano Asghar Farhadi: “A Separação” (2012) e “O apartamento” (2017). Recomendo muito!
Ambos tangenciam em sua abordagem o que seria o conceito de Justiça. Comento aqui sobre “O Apartamento”.

No filme um casal vai residir em um imóvel. A mulher acaba sendo atacada por alguém no interior do apartamento. O filme segue com a constante indagação de quem teria praticado o crime. Quem é o culpado? Por que agiu desta forma? Quais foram os seus motivos? E por que o marido não procura logo a polícia para desvendar o mistério? Não há a mínima pista sobre quem praticou o delito (ok… algumas desconfianças bem soltas podemsurgir). No angustiante e complexo desenrolar do processo de busca pelo responsável, que culmina com a sua identificação (sim, sua identidade ao final é revelada!!), fica muito claro que o conceito de Justiça pode ser muito diferente para cada um. O que se busca quando se fala em Justiça? Não há resposta única, já que ela irá variar dependendo de quem seja indagado. Vingança para uns, auto responsabilização por parte daquele que não agiu da forma estabelecida pela lei vigente, para outros… Autoconscientização, exemplo para terceiros, prevenção, repressão…
A reação da vítima pode muitas vezes surpreender, como de fato acontece neste filme. Talvez a violência suportada possa ter sido tão grande que não necessariamente a vítima deseje replicar essa mesma violência sobre o algoz. Qual a justiça da vítima? Fazer justiça com o ofensor atende ao que a vítima de fato deseja?
Um filme interessante para se repensar sobre o que é fazer justiça e como a construção desse conceito requer um olhar individualizado pelo seu intérprete.
“UM HERÓI” – Também dirigido por Asghar Farhadi. Rahim está na prisão devido a uma dívida que não conseguiu pagar. Durante licença de dois dias, ele tenta convencer o credor a retirar a queixa contra o pagamento de parte da quantia. Mas as coisas acabam se complicando e saem do seu controle.

Há muitas outras opções que não foram aqui comentadas. “O Perdão”, “Táxi para Teerã”, “O Urso”.
“A Maça”, “Filhos do Paraíso”. Sempre há por trás das narrativas temas universais.
Bom final de semana!