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‘Cresci achando que Machado de Assis era branco’, diz Marcela do Amaral em debate sobre educação antirracista

Inserido em 27 de outubro de 2026
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Combater o racismo exige mais do que reconhecer sua existência: é necessário compreender suas raízes, questionar práticas naturalizadas e transformar a maneira como a sociedade educa as novas gerações. Essa reflexão marcou o evento sobre educação antirracista realizado nesta terça-feira (27), na Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj), que reuniu representantes do sistema de Justiça para discutir caminhos para a construção de uma sociedade mais consciente das relações raciais.

Entre as participantes, estiveram as promotoras de Justiça Marcela do Amaral e Roberta Rosa, coordenadora do Fórum de Gênero e Raça da Amperj, que falaram sobre a importância da educação antirracista na prevenção da discriminação, na valorização da identidade negra e na promoção da igualdade. A presença das integrantes do Ministério Público reforçou a relevância do diálogo entre as instituições de Justiça e a sociedade para o enfrentamento ao racismo.

“Cresci achando que Machado de Assis, de quem tanto gosto, era branco. Só fui descobrir que era negro aos 35 anos”, disse. Para ela, a educação antirracista também contribui para pessoas negras reconhecerem sua própria capacidade e potencialidade. “Se hoje sou promotora de Justiça, e tenho muito orgulho do cargo que exerço, é porque outros vieram antes de mim e me fizeram acreditar que era possível”, afirmou Marcela, para quem o acesso ao conhecimento pode desconstruir percepções naturalizadas e ampliar a representatividade. Ela destacou a valorização da identidade e o reconhecimento das contribuições históricas da população preta.

Ao abordar o papel da educação na transformação social, Roberta Rosa destacou a necessidade de fazer do combate ao racismo um eixo central dos projetos pedagógicos das escolas. “Quem dera tivéssemos espaços e escolas com o enfrentamento ao racismo e o acolhimento dessas crianças e adolescentes negros na centralidade do projeto político-pedagógico, para poderem circular nessa escola sem sofrer qualquer tipo de violência, não só física, mas também psicológica”, afirmou.

A mesa de abertura contou também com a participação do presidente do Fórum Permanente de Direito e Relações Raciais da Emerj, André Nicolitt. A palestra principal foi conduzida pela escritora e idealizadora da Escola Maria Felipa, Bárbara Carine Soares Pinheiro, que abordou a importância de construir, desde a infância, uma compreensão sobre raça, cor e o lugar que as pessoas ocupam na sociedade.

Bárbara chamou atenção para a necessidade de reconhecer a contribuição da população negra para a história e a produção do conhecimento, combatendo o apagamento de suas origens e referências culturais. “Somos a origem da humanidade, as primeiras formas de produção de conhecimento”, afirmou. Ao tratar da apropriação e da ressignificação de elementos culturais negros, acrescentou: “Você pode usar a sua trança, o problema é dizer que agora ela é viking. Isso é o que eu chamo de apropriação cultural. Essa prática precisamos deconstruir”.

As reflexões ressaltaram que a educação antirracista envolve tanto a revisão de conteúdos e referências históricas quanto a transformação das relações sociais. Nesse processo, a escola ocupa um papel estratégico na formação de cidadãos conscientes, no fortalecimento da autoestima de crianças e adolescentes negros e na construção de ambientes seguros e respeitosos.

A participação das promotoras de Justiça no evento reforça a importância de iniciativas permanentes de conscientização e formação para o enfrentamento ao racismo. Mais do que um tema de debate, a educação antirracista representa um compromisso coletivo com a valorização da diversidade, a igualdade de oportunidades e a garantia de direitos.