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‘Quase deu tempo’: um conto de Felipe Cuesta

Inserido em 7 de agosto de 2026
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O som da freada do carro estará em mim pra sempre, mais um momento de silêncio e, então, o choque. Dois segundos antes, de olhos fechados, cheguei vitorioso ao meio fio, com ele ao meu lado, são e salvo. Havia algo errado, sua mão não estava junto à minha. Em que ponto os elos se desfizeram? Abro o olho, vejo o capô do carro e o para-choques amassados, viro o pescoço e ele deitado imóvel no asfalto. Perco o chão. A cena passa, ao mesmo tempo, muito rápido e muito devagar. Há um filete de sangue escorrendo do ouvido esquerdo e a perna está bastante machucada abaixo do joelho. Sento no chão, apático, e levo as mãos à cabeça em desespero. Choro por dentro o maior choro da vida, apesar de não derramar uma lágrima por fora. Não sinto as pernas, as pálpebras e o canto da boca fibrilam descontrolados. Os sons abafados e as sombras do início de noite me tornam cego para as providências.

Naquela manhã de verão, acordei cedo e fui deitar ao lado de André, sentindo sua respiração infantil própria de um sono despreocupado. O quarto estava gelado do ar-condicionado e toquei na manga do pijama com aquele cheiro de meu filho. Os sábados de manhã tinham sabor de felicidade. Os vestígios da noite anterior estavam ali. Os controles do videogame e as peças do jogo da memória espalhadas no chão e enroladas na colcha ao pé da cama. Beijei sua bochecha e baguncei a franja com as mãos. Ele abriu os olhos e passou a mão no meu rosto. Virou de lado com os cotovelos apoiados no colchão, deitou a cabeça no travesseiro e cobriu a cara com a colcha. Abracei ele forte e fiquei ali dividindo preguiça. Depois de um tempo parados, dei um tapa leve em seu ombro e me ajoelhei no chão, chamando-o com as mãos. Ele conhecia o sinal. Levantou-se da cama e pulou em cima de mim. Brincamos de luta. Depois saí correndo pra cozinha. André tirou a camisa do pijama, jogou na cadeira e me seguiu pelo corredor. Ele ria um riso solto e adorava essa brincadeira simples. Resolvemos ir à praia.

Faltam poucos metros para a calçada. O sinal aberto pros carros e a mania de querer atravessar fora da faixa, driblando a cautela. Aflito, puxo o garoto pela mão e sinto que suas pernas não acompanham o ritmo das minhas. Voltar não é uma opção. O outro lado está distante e a rua, cheia de tráfego. Os carros aceleram furiosos, cada vez mais velozes em nossa direção. O lusco fusco de final da tarde deixa a cena embaçada e sinto os movimentos em câmera lenta. Ele me olha de olhos arregalados. Aumenta o ritmo, mas tropeça no asfalto segurando em meu braço úmido, que já quase arrasta seu corpo. O tempo congela, passa um filme na mente. A vida inteira suspensa naquele instante aflito, entregue ao aleatório. Mais alguns passos e tudo acabará bem. A boca seca, não vai dar tempo! As buzinas berram e os veículos crescem à nossa frente. Num derradeiro instinto, fecho os olhos e tento correr.

Estamos na praia aproveitando o sol matinal. Jogamos futebol e altinho na areia pelando. Mergulhamos no mar manso e gelado, aquela temperatura de água que a gente não consegue entrar direto, levanta e estica os braços dobrados em cima da cabeça e o tronco, toma coragem e se larga num mergulho de impulso. Ah, esqueci do protetor e com meia hora de brincadeira, já estávamos vermelhos e ardendo. Nunca prestei atenção em protetor solar e ele, como qualquer criança, também nunca prestou atenção no pai não prestando atenção no protetor solar. Nadamos, pegamos jacaré e boiamos sobre as ondas. Depois, deitados na areia, comemos tudo o que vem pela frente, biscoito de polvilho, milho na espiga, queijo coalho, salgado árabe e picolé. Depois bebemos mate/limão comprado dos vendedores de caçamba. Eu bebo umas cervejas. Na praia, come-se menos por fome e mais pelo sol na cabeça, o sal na pele e pelo ritual de prazer da comilança misturada com grãos de areia grudados nas mãos. Ficamos largados na areia embaixo da barraca curtindo uma leseira e, do nada, o tempo virou, ficou nublado e começou a ventar forte. Quando a areia subiu veloz em rodamoinho para arranhar o rosto e os olhos, já era hora de partir.

Não sei quanto tempo passa até eu voltar a ouvir os barulhos com clareza. Me vejo ali como protagonista da tragédia, demoro a entender o desdobramento dos fatos. Meu filho grita e escuto sirenes de ambulância próximas. Seguro a cabeça de André no meu colo até o socorro chegar. Não sei se posso, mas faço no instinto paterno de proteger a cria. Ignoro que esse movimento aumenta o risco de lesão na coluna. Me apego a todos os deuses e crenças, invento rezas que nem sei de onde tirei. Fico revisitando o momento anterior ao impacto. Se eu pudesse retroceder dez minutos, como tudo estava tão perfeito ainda agora. Estamos cercados de pessoas no centro de um círculo claustrofóbico. Quem dera ser apenas um transeunte passando curioso e deparando-se com mais um acidente de trânsito com vítimas. Olho a gente ao redor e percebo a curiosa morbidez que atrai pedestres e motoristas. As pessoas olham com distanciamento e sem empatia. Já estive do lado de lá. Somos o acidente, a causa do engarrafamento formado nas ruas adjacentes. Somos a estatística. As consequências também serão nossas. E de mais ninguém. Os carros passam devagar e a multidão se move e se entorpece ao sabor da tragédia. O ser humano se consola e se alimenta na dor alheia, fica aliviado por não ser a sua dor. Elas até se compadecem, mas predomina o alívio. Só queria poupar o menino.

Fomos da praia direto para o cinema. Juli nunca toparia isso. “Tem que almoçar direito, tomar banho, tirar a areia e botar roupa limpa. Com os pés calçados nas havaianas, o ar gelado e nós dois tremendo de frio, ficamos encolhidos na poltrona assistindo ao homem aranha, dividindo uma pipoca tamanho gigante cujos flocos empurramos boca adentro no ritmo das cenas de ação, sem depender de fome ou vontade. O corpo frio e o coração aquecido pelo amor, alegria e troca de afeto. Nada podia ficar melhor.

O remédio faz efeito e eu relaxo, penso na imagem de meu filho e vejo seu rosto lindo e impassível deitado, sem vida. Não consigo aceitar a ideia nem o fato de nunca mais poder mirar seus olhos nem ouvir suas palavras. Tanto ainda por dizer. Forço a memória para enxergar cenas de brincadeiras entre nós dois. Imagens de resgate. Nada vem à mente. Escuto sua voz nítida, malgrado a boca cerrada. Tento gritar em grande esforço, pedindo silêncio. A voz não sai da garganta. As pessoas ao redor querem me consolar e se aproximam de mim. Esticam os braços sem conseguir me tocar. Todos choram um pranto baixo. Eu não entendo a razão do choro. Não estou mais ali. Estou longe. Escapo para outro lugar. Cruzo a dimensão do surreal. Melhor assim. Não quero contato físico. Não quero nada. Quero entender e lembrar de tudo. Quero o menino de volta.

Juliana entra esbaforida na recepção do centro cirúrgico. Com os saltos finos martelando o porcelanato do ambiente, marca seus passos e deixa um rastro. Chama pelo filho e pede notícias a quem puder dar. Ninguém responde. Olha ao redor e seus olhos me encontram no fundo do corredor. Vem correndo em minha direção com cara de pânico. Estou largado sobre uma cadeira sem encosto de cabeça e não consigo reagir à sua chegada, abatido e em silêncio. O corpo dói sem perdão, amassado e quase morto num campo de guerra, cheio de culpa e remorso. Isso me matará um pouco a cada dia dali por diante. Levanto e abraço a minha mulher. Choramos juntos aflitos. O corpo de Juliana chacoalha em catarse ao encontrar o meu. Explico a ela a situação de momento, que André está na cirurgia ortopédica e os médicos tentam reduzir o efeito das fraturas em sua perna. O risco de amputação não está descartado. Esse detalhe Juliana não saberá agora. É preciso aguardar mais notícias. Há uma preocupação maior, que eu revelo a ela. Ele bateu a cabeça no chão durante o acidente e será revirado em meticulosos exames. Embora lúcido desde o acidente, André apresentou um quadro de agitação e de confusão mental já na ambulância a caminho do hospital, e as pupilas muito dilatadas. Todo cuidado é pouco. Todos os demônios que habitam em mim acordaram e sopram um hálito de enxofre, pessimista e catastrofista.

Agora estou deitado no sofá-cama do quarto do hospital. Leito de acompanhante, ao lado da UTI. O menino superou a primeira noite. Evolui aos poucos e os médicos estão menos pessimistas. Pelo que dizem, não há mais risco de amputação da parte inferior da perna. A funcionária do setor de alimentação bate na porta logo cedo. Ela entra espalhando alegria e otimismo pelo cômodo, disponibiliza o desjejum e eu me deixo contagiar. Preciso de boas energias. Preciso de raios de sol e de claridade. Preciso daquele sábado de manhã que ficou perdido no tempo. Foi ontem, mas parece distante. A visita na terapia intensiva começa as onze horas. Vou fazer a barba e tomar um banho. Preciso que André me veja bem, mesmo sem abrir os olhos.

— Pai, pai! Acorda, pai, vamos brincar de luta e vamos na praia! – Tenho um calafrio. Olho ao redor e não sei onde estou. Não vai ter fisioterapia hoje? Os médicos tem que passar a visita. André pula na minha cama e eu abro os olhos. Estou no quarto de casa. Meu filho faz cócegas em minha barriga e não há qualquer vestígio do acidente. Tento comandar os movimentos e tomar as rédeas da situação. Deve ser exaustão. Fecho os olhos e lembro do horário de entrada de acompanhante no CTI. Escuto a voz do menino me pedindo suco de laranja e pão de queijo no quarto dele. Um médico me assiste naquele estado catártico e me sacode. Depois pergunta o que faço sentado naquele corredor de hospital. Não sei responder, me perdi entre as fronteiras do que talvez nunca tenha acontecido e do que aconteceu em excesso. Como vim parar aqui se estava em casa ainda agora? Preciso encontrar André…