Quando falamos em cibersegurança em ambientes institucionais de alta relevância, a imagem que geralmente vem à mente é: firewalls impenetráveis, salas de servidores refrigeradas e linhas de código complexas. Durante décadas, a indústria da tecnologia vendeu a ideia de que a segurança era um problema de software que poderia ser resolvido com mais software. No entanto, em 2026, aprendemos uma lição: sem um fator humano, a técnica é uma armadura vazia.
O paradigma de que o usuário é o “elo mais fraco” da corrente precisa ser aposentado ou, pelo menos, mitigado. No contexto de uma instituição que defende a cidadania, o ser humano deve ser, na verdade, o elo mais consciente. É aqui que surge o conceito de Cibersegurança Humanizada, onde o “afeto” — no sentido de zelo, cuidado e responsabilidade mútua — torna-se a ferramenta de criptografia mais potente.
Tradicionalmente, as políticas de segurança da informação foram baseadas no medo do erro e na punição. O resultado? Servidores e membros que vêem as normas de TI como obstáculos ao seu trabalho cotidiano, recorrendo a “atalhos” perigosos para ganhar agilidade.
A Cibersegurança Humanizada inverte essa lógica. Em vez de impor regras pelo receio de sanções, ela promove a conscientização pelo valor da proteção. Quando um promotor de Justiça ou um servidor entende que a sua senha não é apenas uma chave de acesso, mas o escudo que protege o depoimento sigiloso de uma criança vítima de violência ou os dados sensíveis de uma investigação contra o crime organizado, o comportamento muda. O cuidado deixa de ser uma obrigação burocrática e passa a ser um ato de afeto pela missão institucional e pelas pessoas que ela serve.
Os ataques modernos de engenharia social não exploram falhas no Windows, no IOS ou no Android; eles exploram falhas na psicologia humana: a pressa, o medo ou o desejo de ajudar. Em 2026, com o uso de IA para personalizar ataques (o spear-phishing em escala), o criminoso estuda o tom de voz e o vocabulário da instituição para parecer legítimo, por isso os golpes do “falso advogado” estão de vento em popa.
Uma cultura de segurança humanizada treina o olhar para o “estranhamento”. Ela incentiva um ambiente onde o servidor se sinta seguro para perguntar e confirmar uma informação, sem medo de parecer “leigo”. Se recebemos um e-mail urgente com ordens atípicas, a nossa melhor defesa não é um antivírus, mas a capacidade humana de parar, refletir e cuidar da integridade do processo. A segurança, portanto, é uma forma de empatia aplicada à tecnologia: eu protejo meus dados para proteger o trabalho do meu colega e o direito do cidadão.
Eis que surge a necessidade urgente da implementação prática da segurança como cultura de acolhimento e como transformar esse conceito em realidade dentro da estrutura jurídica? O caminho passa por três pilares fundamentais:
O primeiro pilar é a linguagem acessível e inclusiva. O “tecniquês” exagerado afasta as pessoas. A comunicação deve traduzir riscos complexos para o cotidiano. Em vez de falar sobre “ataques de força bruta em protocolos RDP”, devemos falar sobre “como proteger a porta da sua casa digital”, de forma simples e direta.
O segundo, é a educação continuada com foco no próprio cotidiano. A cibersegurança deve ser integrada à vida pessoal. Ao ensinarmos como uma pessoa pode proteger o celular de seus filhos ou os dados bancários de seus pais idosos, estamos criando hábitos de higiene digital que serão automaticamente replicados dentro da rede institucional. O cuidado com a família transborda para o cuidado com a instituição.
Por fim, o terceiro pilar, é o ambiente de resiliência e não de culpa. Os Erros acontecem. Uma cultura humanizada encoraja o usuário que clicou em um link suspeito a reportar o incidente imediatamente, em vez de escondê-lo por medo. A rapidez no reporte é o que diferencia um pequeno susto de um desastre sistêmico de grandes proporções.
Líderes e gestores têm um papel crucial nesses novos tempos. A segurança digital deve ser pauta das reuniões de planejamento, não como um ônus, mas como investimento. O “afeto” aqui se manifesta no suporte às equipes, provendo as ferramentas necessárias para que o trabalho seja feito com segurança sem sobrecarregar o profissional e, mais que tudo, sem sobrecarregar a pessoa.
Instituições que promovem a união e a defesa dos interesses de seus associados, são o solo fértil ideal para essa mentalidade. Onde há senso de comunidade, há maior vigilância natural. Cuidamos daquilo que amamos e daquilo que respeitamos e, principalmente, daquilo que pertencemos.
Em última análise, a segurança virtual não é só sobre máquinas; é também sobre preservar a vida em sociedade. Cada dado protegido representa um passo em direção à justiça. Ao humanizarmos nossos processos de segurança, não estamos apenas fechando brechas técnicas; estamos fortalecendo o tecido social que nos une.
Em 2026, a inteligência mais relevante é a emocional, ela nos permite entender que a segurança é, antes de tudo, um compromisso de cuidado mútuo. Afeto e técnica caminhando juntos de mãos dadas. Como proteger a sociedade sem proteger as pessoas?
Allan Julianelli é gerente de TI da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e policial civil do Estado do Rio de Janeiro desde 2002. Contato: allan.julianelli@amperj.org