Nesta coluna, vamos nos aprofundar nas peculiaridades da escrita de um autor francês, eterno candidato ao Nobel, que oxigenou a literatura contemporânea de seu país. Pense em um sujeito polêmico, politicamente incorreto e explosivo, que não está nem aí para convenções sociais, nem para pautas consideradas mais adequadas. Ele é detestado por vários segmentos da coletividade, mas escreve de um jeito sensacional, a ponto de sobressair no cenário editorial apesar dessas ressalvas. Seu nome é Michel Houellebecq.
O francês vê o mundo com lentes próprias e muito especiais, desfocadas, quase sempre na contramão do politicamente correto e esteticamente afetado. Desconfiado das verdades humanas, considera efêmero o absoluto das tendências culturais dominantes. A regra de Houellebecq é bastante simples: nunca estar onde o esperam. Surpreender sempre.
Já o chamaram de moralista, xenofóbico, reacionário e imoral. Já o acusaram de praticar o grau zero do estilo, de fazer sociologia barata em lugar de romance, de copiar trechos inteiros de seus romances em plágios da Wikipédia e de confundir provocação com menosprezo. Feministas o odeiam, homens acham que ele escreve nesse estilo para atrair mais mulheres. Os muçulmanos querem sua cabeça. Mas por que tanta bronca?

Na lógica houellebecquiana, é tudo bastante simples: ele é o tipo de maluco sem noção que fala publicamente e sem qualquer ressalva que o islamismo é a mais idiota de todas as religiões. Está convencido de que as mulheres de quarenta anos são coitadas trocadas por duas de vinte depois de terem acreditado nas mitologias de 1968 (o ano mais enganoso do século XX), com o culto do prazer e do corpo, imaginando que desfrutariam de um capital sexual inesgotável. Por fim, acredita que os homens que não se reconhecem nele, validando o artifício da escrita como forma de conquista, ou estão mentindo, ou não devem ser levados a sério, ou então o criticam por não terem seu talento. Houellebecq diz só pensar em sexo. Descartados os exageros e os clichês representativos dos dois lados, sobra um magnífico escritor, tão vigoroso que ressuscitou a literatura francesa, nocauteada pelo Novo Romance, cujo longo sono parecia não ter fim.

Desde Jean-Paul Sartre, o termo enfant terrible não era tão bem empregado a um escritor francês. Isso mudou com a chegada de Michel Houellebecq à cena literária. Nascido na ilha de Réunion, um território francês ultramarino, em 1956, ele é o autor francês mais lido e comentado fora de seu país. Seus livros, ensaios, crônicas, coletâneas de poemas e romances foram traduzidos para mais de 30 idiomas.
Repleta de sexo e opiniões bombásticas sobre os mais variados assuntos, a ficção de Houellebecq não poupa ninguém. Nem a ele mesmo. Já teceu críticas aos hippies, ao seu hábito de fumar compulsivamente, às corporações que promovem turismo sexual, aos católicos, aos gays e aos ateus. Por livros como “Plataforma” e “A Possibilidade de uma Ilha”, foi acusado de pornografia, xenofobia e racismo.
Um dos eventos mais marcantes da vida de Houellebecq foi o abandono que sofreu por parte de seus pais, que perderam o interesse por sua guarda quando o escritor ainda era criança. Aos seis anos, foi morar com a avó paterna, de quem também adotou o sobrenome. O fato marcou a vida do escritor, e o desgosto pela mãe está presente em sua obra. Talvez parte de sua revolta, que descamba para uma metralhadora giratória de ideias e temas polêmicos, seja justificada, na origem, pelo abandono essencial sofrido. A ausência de acolhimento no berço da infância é um trauma do qual geralmente um ser humano não se recupera sem apresentar sequelas sensíveis a olho nu.

H. P. Lovecraft também influenciou a literatura de Houellebecq, cujo primeiro livro foi um ensaio sobre a vida e obra de Lovecraft do autor de contos de horror. O primeiro romance publicado por Houellebecq foi “A Extensão do Domínio da Luta” (1994), considerado por muitos autobiográfico: uma história provocante sobre a depressão psicótica causada pela miséria da afetividade nas relações contemporâneas. Houellebecq também é famoso por dar pistas falsas sobre seu paradeiro. Diz ter morado durante anos na Irlanda, mentira deslavada, e que atualmente reside na Espanha, fato jamais confirmado.
O típico personagem houellebecquiano é um homem branco, hétero, ocidental, burocrático, imaturo, sem nenhuma crença no transcendental, incapaz de manter relações duradouras e que, na casa dos quarenta anos, acha que sua vida já acabou. Por outro lado, sua escrita é tão sofisticada que faz com que o leitor não sinta nenhuma mudança brusca ou desconforto aparente ao ler certas descrições que, na pena de um artista menos talentoso, poderiam causar constrangimento. Tipo falar sobre os detalhes de uma casa de prostituição tailandesa, seguida da descrição da beleza paisagística da Ásia, e então voltar para as conversas dos turistas sobre como a vagina da mulher ocidental secou e não é mais páreo para a vagina molhada e confortável das orientais. É desse jeito que a banda toca com Houellebecq. Esse comportamento literário alimenta o mito em torno do escritor, assim como a excentricidade e a reserva em sua vida pessoal.
Ainda sobre seus personagens típicos, eles passam muito tempo em corredores de supermercados. Nas páginas iniciais de “As Partículas Elementares”, o personagem principal, deprimido, devora um filé pré-embalado, vendido sob a linha “gourmet” da marca de supermercado francesa Monoprix. Em “Submissão”, o narrador experimenta um momento fugaz de pavor existencial quando reflete sobre ter que escolher entre três opções de frango para micro-ondas. Depois de largar o emprego e se mudar para um hotel, o herói ainda mais desanimado de “Serotonina” encontra alívio ao descobrir a infinidade de sabores de homus disponíveis em seu Carrefour local. Mas talvez a representação mais brilhante de todas venha em “O Mapa e o Território”, quando o autor se refere a um shopping center e a um posto de gasolina Shell como os únicos “centros perceptíveis de energia” na cidade notoriamente sonolenta de Paris.
Para o romancista francês, esses templos do consumismo capturam o senso distorcido de liberdade da humanidade: eles são “as únicas proposições sociais que provavelmente provocam desejo, felicidade ou alegria”. Aqui, seus personagens podem se aquecer nas grandes luzes halógenas do progresso econômico, hipnotizados pela variedade de ofertas e confortados pela conveniência da experiência de compras. É aqui também que eles podem se conscientizar da pequenez de suas vidas, das vastas distâncias que os separam do processo de produção, de sua alienação do trabalho e dos bens que consomem.
Lendo essas cenas, encontramos Houellebecq no seu melhor: um crítico feroz da sociedade de consumo, ele também é um observador atento do absurdo da vida sob o capitalismo tardio. Um visionário do lugar-comum que pode encontrar tanto significado quanto sua ausência em qualquer coisa incrível ou banal. Ao contrário de sua imagem autocultivada como uma celebridade literária, reforçada por sua propensão a fumar o tempo todo em suas poucas aparições públicas, Houellebecq não é um misantropo; ele é, na verdade, um humanista decepcionado com tudo o que a humanidade tem a oferecer atualmente. Como um cão que ladra, mas não morde e, no fundo, precisa de um afago.
Houellebecq nunca poderia ser descrito, nem remotamente, como progressista. Mas, por anos, houve uma espécie de ambiguidade política em seu trabalho e em sua imagem pública. Enquanto seus livros criticavam o vazio espiritual do Ocidente e a tirania da escolha desenfreada imposta pelo liberalismo econômico, a questão do que viria a seguir ficou, em grande parte, sem resposta. E, embora suas obras parecessem detestar nossa atual era capitalista, elas expressavam suas críticas em termos que não eram tão materialistas por natureza. Ele não foi provocado pela injustiça social do sistema, mas pelo mal-estar geral que ele causou e pelas descidas, muitas vezes desconcertantes, à libertinagem e ao misticismo da Nova Era na literatura que ele mesmo provocou. Algo bastante paradoxal.
Aos 70 anos, famoso, premiado, controverso e rico, Houellebecq pertence a uma espécie de escritor cada vez mais incomum. Em vez de apenas contar uma história que entretenha, ele usa suas tramas como desculpas para palpitar sobre o que lhe interessa, externando idiossincrasias que vão da gastronomia e da pornografia à geopolítica do Mediterrâneo. Não tem qualquer freio na língua nem na linguagem. Como uma espécie de escritor-filósofo, usa as longas digressões típicas da literatura francesa para discorrer sobre religião, história, literatura e costumes. Seu olhar corrosivo se volta obsessivamente para a vida francesa, na qual enxerga apenas desmoronamentos. Apesar disso, os leitores o adoram. Houellebecq produz uma ficção controversa e provocadora. Seus romances lhe valeram reputação internacional e são considerados um sinal de renovação da cena literária de seu país.
Para ele, a liberdade de expressão não tem a vocação de manter a coesão social ou a unidade nacional. Os anos passam e ele continua o mesmo, uma estranha mescla de simplicidade, sofisticação, ironia e afetividade. Embora, por isso, as feministas justificadamente o detestem e os muçulmanos europeus leiam seus livros com preocupação, Houellebecq é mais que um provocador reacionário. Ele escreve muito bem, tem um olhar atento e lúcido sobre as questões contemporâneas, move-se como um tubarão faminto nas águas da cultura francesa, devorando o passado e o presente. Como escritor, lembra os personagens dos faroestes de Clint Eastwood. Vaga sozinho, repleto de desprezo viril pela sociedade afeminada a seu redor.
Michel Houellebecq é um escritor do depois — depois da história, depois de Deus, depois da política, depois do romance e depois da felicidade. Houellebecq captura esse pós-mundo sem adornos. Seus personagens são solitários e impotentes. Eles buscam algo mais elevado e raramente o encontram. Tentam escapar de sua condição, mas não conseguem. Para Houellebecq, a impossibilidade de escapar é a característica definidora de nossa era.

Como ele diz em “Plataforma”: “Tudo pode acontecer na vida, principalmente nada”. Não é apenas que nada acontece, mas que nada vai acontecer. Como civilização, podemos ter feito coisas no passado. Mas nosso presente impede o tempo futuro. Para enfrentar nossa insignificância, nos consolamos com histórias. É isso que grande parte da literatura contemporânea faz — ela dá vida à inércia. Houellebecq, por sua vez, não quer dar vida a nada nem a ninguém, tampouco a si mesmo. Sempre que aparece em público, ele o faz desgrenhado, cigarro na mão, rosto enrugado e olhos vazios.
Ao longo dos anos, Houellebecq teve muito a dizer, atraindo admiração e advertências. Entusiastas o chamam de subversivo, até mesmo profético. Os críticos o chamam de reacionário, deprimido e deprimente. De qualquer forma, Houellebecq fascina porque seus romances anunciam a chegada de catástrofes como uma profecia misteriosa. “Plataforma”, que termina com um ataque terrorista, foi publicado poucos dias antes do 11 de setembro. “Submissão”, sua distopia que prevê uma tomada islâmica do poder na França, foi lançado no dia do massacre do Charlie Hebdo, em 2015; “Serotonina”, que explora a miséria dos fazendeiros franceses, antecipou os protestos dos gilets jaunes, em 2019. Houellebecq nos diz quem somos, às vezes antes mesmo de sermos e, às vezes, tão incisivamente a ponto de apagar a linha tênue entre fato e ficção. A arte imitando a vida ou a vida imitando a arte.
“Eu simplesmente quero dar conta do mundo”, diz. Dar conta é fazer sentido. Houellebecq também quer “dar conta do mundo”. Em um ensaio sobre H. P. Lovecraft, ele escreve: “A vida é dolorosa e decepcionante. Inútil escrever novos romances realistas. Sobre a realidade, sabemos mais do que o suficiente; e não queremos saber mais nada”.
Houellebecq confronta a realidade e explora o que está além, por trás de nossos medos, frustrações e loucuras. Ele deplora o vazio e a mediocridade da modernidade, seus excessos e neuroses, suas tentações e contradições. Ele gosta de culpar a revolução sexual, o capitalismo, o secularismo, o individualismo, o liberalismo e os outros suspeitos de sempre. Ao contrário de muitos reacionários, Houellebecq entende que todas essas coisas não vão a lugar nenhum. Elas são parte de nós, tão inescapáveis quanto a água é para os peixes. Não podemos capitular diante delas, pois isso seria renunciar à nossa humanidade.
Presos nesse desconforto, resta-nos viver religiosamente sem Deus, buscando a transcendência enquanto sabemos que não podemos mais alcançá-la. Em outras palavras, devemos fazer as pazes com a modernidade, mesmo enquanto travamos guerra contra ela.
Para conhecer o trabalho do escritor, leia, dentre outros, “Submissão”, “Serotonina”, “Aniquilar”, “O Mapa e o Território”, “Plataforma” e “As Partículas Elementares”. Todas essas obras farão você encontrar vários dos aspectos ressaltados neste ensaio. Boa leitura.