Assisti recentemente ao longa-metragem “O Drama”, do diretor Kristoffer Borgli, e saí do cinema atravessada por profundas reflexões. A obra dialoga de forma surpreendente com temas clássicos da psicologia e do existencialismo. Sem spoilers: às vésperas de seu casamento, Charlie (Robert Pattinson) descobre algo sobre sua noiva, Emma (Zendaya), que abala os alicerces da relação. É a partir desse momento que o filme começa a nos provocar de verdade.
Vou guiar esta reflexão a partir de três pontos:
1. É possível saber tudo sobre alguém? Definitivamente não. Talvez nem seria saudável saber, porque todos temos um lado mais íntimo, que não precisa ser revelado. Nem tudo que pensamos ou sentimos precisa ser exposto. Esse espaço também nos constitui. Relações saudáveis não pressupõem transparência absoluta. Existe uma intimidade legítima, um espaço interno que sustenta nossa individualidade.
2. O que fomos ou o que fizemos nos define para sempre? O segundo ponto interessante do filme é sobre a capacidade do passado de nos definir. Este é quase um eixo central da condição humana. Seria um olhar muito aprisionador acreditar que alguém está condenado ao próprio passado, sem possibilidade de mudança. Neste ponto, me vem à mente a frase de Guimarães Rosa: “as pessoas não nascem prontas, elas vão sendo terminadas.” A ideia de que estamos em constante construção rompe com visões deterministas e abre espaço para responsabilidade e mudança, essenciais à nossa travessia.
3. A necessidade de validação é o ponto mais doloroso e atual do filme. Quando sua identidade depende do olhar do outro, qualquer revelação é um risco. Isso cria um ciclo vicioso, no qual nos escondemos para sermos aceitos, mas ao mesmo tempo vivemos com medo de sermos descoberto. E isso, inevitavelmente, traz sofrimento. É impossível controlar o olhar alheio — e é muito perigoso atrelar a própria felicidade a essa aprovação externa.
Às vezes, na tentativa de ser aceito, revelamos algo íntimo, pessoal, sem termos qualquer controle sobre onde a informação irá chegar e, principalmente, sobre a leitura que será feita disso pelo outro. “O Drama” é um filme que não se esgota na tela. Ele continua em nós, nas perguntas que nos impõe. Vale muito a pena assistir, sentir e refletir.
E você… acha que é possível conhecer completamente alguém?

Minha segunda indicação é a série “DTF St. Louis”, disponível no HBO Max. À primeira vista, a narrativa parece uma história sobre traição e crime, mas se revela, ao longo dos episódios, como um retrato sensível da solidão e da ausência de conexão afetiva. A história gira em torno de três figuras centrais. Carol, Floyd e Clark estão presos, cada um à sua maneira, a vínculos que deveriam oferecer intimidade, mas que apenas aprofundam o vazio.
A relação entre Floyd e Clark se desenvolve a partir de um aplicativo de encontros sexuais, chamado DTF. O app é a maior potência da série. De forma inesperada, o que começa como traição se transforma em um espaço genuíno de escuta e acolhimento. Ao retratar dois homens de meia-idade que se permitem expor vulnerabilidades sobre corpo, virilidade, identidade e até a própria orientação sexual, a obra rompe com representações tradicionais da masculinidade, substituindo o silêncio emocional por confiança e presença.
O crime, presente desde o início, funciona como elemento de tensão, mas não é o centro da história. O verdadeiro foco está nos afetos e nas fragilidades que atravessam os personagens. Mais do que um suspense, DTF St. Louis convida à reflexão sobre a necessidade fundamental de conexão — e sobre o custo silencioso de sua ausência. Afinal, o que é “ser normal”?

Termino a coluna com “Rental Family”, novo filme da diretora japonesa Hikari, disponível na Disney+. O filme trabalha uma ideia curiosa — pessoas que podem ser alugadas para ocupar papéis afetivo. Mas o filme tem um interesse mais profundo. Ele toca nas ausências que carregamos em nossos corações e fala sobre um desejo silencioso de pertencimento.
A história acompanha um ator em crise, vivido por Brendan Fraser, que passa a trabalhar em uma agência japonesa assumindo o papel de parente para estranhos. O que poderia soar artificial ganha outra dimensão à medida que ele se envolve nessas vidas, criando vínculos que desafiam a fronteira entre o encenado e o real. O filme tem um ritmo delicado, quase contemplativo — não busca grandes reviravoltas, mas pequenos gestos: um olhar, uma presença, um silêncio compartilhado. E é nesses detalhes que ele se torna encantador.
Há também um desconforto que atravessa a narrativa: até que ponto um vínculo construído como trabalho pode se tornar verdadeiro? Essa ambiguidade nunca se resolve completamente, e talvez essa seja sua maior honestidade. No fim, “Rental Family” é menos sobre fingir ser alguém e mais sobre a necessidade humana de ser visto, reconhecido e, de alguma forma, pertencente. É um filme discreto, mas emocionalmente envolvente.
Bom feriado para você que me lê por aqui!