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Dino Buzzati e O Deserto dos Tártaros: uma parábola sobre o tempo e o mito de Sísifo

Inserido em 17 de abril de 2026
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Por Felipe Cuesta

A forma como percebemos a passagem do tempo é sempre relativa. Para alguns, uma tarefa ou reflexão pode ser rápida; para outros, pode durar uma eternidade. Uma rotina com pouco espaço para novidades acarreta a sensação de lentidão no escoar das horas. Já uma sequência de eventos inéditos, dia após dia, transforma a percepção do tempo, conferindo-lhe um ritmo mais acelerado.

Essa sensação depende das circunstâncias e é familiar a todos nós. Trata-se de uma experiência subjetiva diante da duração dos eventos, refletindo a maneira como o cérebro se ajusta a diferentes escalas temporais da realidade.

Ampliando a discussão, o que definiria objetivamente o tempo e sua passagem? Seriam os marcos das estações do ano, os minutos e horas do relógio, os eventos que se repetem ou o lento arrastar da rotina? Talvez a resposta seja mais complexa, pois os seres humanos sempre sentiram a necessidade de medir o tempo, criando referências comuns e objetivas.

Não apenas como instrumento de organização, mas também para sustentar o próprio senso de existência linear. Sem o tempo, não há passado do qual se extraiam memórias, nem futuro sobre o qual se projetem expectativas. Resta apenas o presente — constante e, por vezes, monótono.

Em certos casos, passa-se a vida aguardando um momento que supostamente dará sentido à existência. Mas como aceitar que, justamente nesse instante, por um capricho do destino, não seja possível participar daquilo pelo qual se esperou a vida inteira? É sobre essas premissas que o italiano Dino Buzzati se debruça nesta obra magistral.

O Deserto dos Tártaros é um romance sobre o tempo e a espera. Narra a trajetória do jovem tenente Giovanni Drogo, que passa mais de três décadas servindo no Forte Bastiani, uma fortaleza isolada em uma região remota de fronteira. Trata-se de uma trama angustiante que apresenta uma poderosa metáfora sobre a busca de sentido na existência.

Dino Buzzati foi um renomado jornalista e escritor italiano, dono de um estilo inconfundível, alheio a modismos, que explora uma visão fantástica e, por vezes, absurda do real. Se fosse sul-americano, poderia ser associado ao realismo mágico. Trabalhou durante toda a vida como jornalista e foi correspondente do periódico Corriere della Sera, de Milão. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na África como jornalista da Marinha italiana. No pós-guerra, publicou sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros, alcançando reconhecimento internacional.

Trata-se de um livro tocante sobre a jornada humana e o sentido do tempo. Iniciei a leitura sem grandes pretensões — estava na fila havia anos, quase esquecido. Ainda assim, revelou-se uma das experiências literárias mais impactantes dos últimos tempos, digna de figurar entre as leituras mais marcantes.
A obra dialoga diretamente com A Montanha Mágica, de Thomas Mann, especialmente na construção do protagonista Hans Castorp e na exploração da percepção do tempo na vida dos personagens.

A narrativa acompanha a jornada existencial de Giovanni Drogo, que, ainda jovem, recebe com entusiasmo a missão de servir no Forte Bastiani — um posto remoto, isolado e aparentemente esquecido. O local, situado nos confins do território, vigia a fronteira contra uma possível invasão dos tártaros, inimigos invisíveis e hipotéticos. Inicialmente, o posto parecia apenas o primeiro passo de uma carreira promissora. Parecia.

Ao longo da narrativa, acompanha-se a transformação psicológica do protagonista, gradualmente absorvido pelo estranho poder de atração do forte. O ritmo da vida ali, marcado pela repetição de cerimônias militares, impõe-se sobre sua existência. Em determinado momento, durante uma licença, Drogo retorna à cidade natal. Ao reencontrar familiares e amigos, percebe-se profundamente deslocado.

A ausência da rotina do forte o aliena do restante do mundo, especialmente em relação ao tempo. Drogo já não mede os anos, mas apenas a longa espera pela invasão dos tártaros. Nada mais parece caber em sua antiga vida: família, amigos e afetos tornam-se distantes. O Forte Bastiani e suas rotinas passam a constituir sua própria identidade — ou o que restou dela.

O que inicialmente seria uma passagem breve transforma-se em uma permanência de décadas. Sem perceber, Drogo alimenta a expectativa de um confronto que nunca acontece, acreditando que ele trará glória e sentido à sua vida. A espera torna-se sua razão de existir, ao custo da juventude e da própria vida.
Aqui se revela a perfeita parábola do mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo, rei de Éfira, foi condenado por Zeus a empurrar eternamente uma pedra montanha acima; sempre que se aproximava do topo, a pedra rolava de volta ao ponto inicial, anulando seu esforço.

Por isso, a expressão “trabalho de Sísifo” passou a designar tarefas repetitivas, intermináveis e fadadas ao fracasso. Buzzati dialoga diretamente com esse mito ao retratar a angústia existencial de Drogo.

O livro explora com profundidade a alma humana, a espera e a busca por propósito. O leitor acompanha a trajetória emocional do protagonista, da empolgação inicial à melancolia de uma espera interminável. A obra convida à reflexão sobre o risco de se deixar a vida passar na expectativa de algo que talvez nunca aconteça.

O desfecho apresenta uma ironia amarga e comovente. Ainda que a morte do protagonista seja previsível, esse aspecto é secundário diante da mensagem central da obra.

Sobre o romance, vale destacar o comentário do cineasta Ugo Giorgetti:

“Um homem encerrado numa fortaleza espera por uma batalha decisiva, quando os tártaros chegarem. Em meio à monotonia da vida de quartel, a pequenos incidentes inócuos, a um lento escorrer do tempo, a vida vai passando. E os tártaros nunca chegam. […] A vida finalmente passa e o homem morre.”
Assim, o livro materializa uma poderosa reflexão sobre as armadilhas do tempo e desperta no leitor um senso de urgência para viver o presente. Afinal, o ontem já se foi, e o amanhã é apenas uma expectativa incerta.

O Deserto dos Tártaros é mais do que um romance: é uma experiência literária profunda, que ressoa muito além de suas páginas.

Boas leituras!