Poucas semanas atrás, o procurador de Justiça aposentado Norton Esteves Pereira de Mattos renovou sua carteira nacional de habilitação, para continuar a dirigir, como faz há décadas. Neste domingo (12), completou 100 anos. Em celebração à marca centenária, atingida com muita disposição e saúde, a Amperj prestou uma homenagem a seu associado ativo mais longevo na festa dos aniversariantes desta segunda-feira (13). Norton recebeu uma placa comemorativa das mãos do presidente da Associação, Cláudio Henrique Viana, em reconhecimento à sua dedicação ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, instituição na qual ingressou há mais de 60 anos.
“É uma grande alegria para a Amperj ter um associado como Norton Esteves. Vê-lo completar essa idade com tamanha vitalidade, memória e um físico incrível é, para todos nós, motivo de muita satisfação”, disse o presidente Cláudio Henrique.
O procurador aposentado agradeceu o carinho dos colegas e brincou que, com o primeiro centenário na conta, vai em busca do segundo! “Fico feliz com as palavras amáveis e bondosas dirigidas a mim nesta noite. Muito obrigado à Amperj, aos colegas e aos amigos presentes. Me disseram que completei 100 anos, então agora eu vou recomeçar do zero. Quero fazer mais um centenário. Posso dizer a vocês que o segredo para atingir essa idade é muito simples: estar ao lado da minha esposa, Luiza de Mattos (Diretora de Assuntos Relacionados a Aposentados e Pensionistas da Amperj), da família e de minhas netas. E, claro, contar com o convívio amável de vocês. Desejo a todos uma vida, como a minha, muito longa e feliz”, afirmou Norton.
Nascido em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1926, Norton Esteves Pereira de Mattos formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual UFRJ, em 1951. Trabalhou como advogado por mais de uma década, mas, antes mesmo de ingressar no Ministério Público, atuou como substituto de promotor por nomeação do governador, antecipando uma vocação que definiria sua vida. Suas primeiras funções ministeriais foram na comarca de Santa Maria Madalena, uma pequena cidade no interior.

Depois de tomar gosto pelas atividades do MP, prestou concurso para um cargo fixo na instituição em 1964, ainda no antigo Estado do Rio de Janeiro. O contexto político da época impunha alguns desafios aos candidatos, que precisavam passar por investigações rigorosas. Norton foi aprovado, mas, assim como os demais de sua turma, só tomou posse dois anos depois. Seu primeiro ofício foi em Natividade, na divisa com Minas Gerais. Como promotor, Norton atuou também em Niterói, mas construiu sua carreira principalmente em municípios da Baixada Fluminense, como São João de Meriti e Nilópolis. Seu trabalho ajudou a ampliar o acesso à Justiça nessas regiões, fortalecendo a defesa dos direitos fundamentais da população através da presença do Ministério Público.
Ao longo de sua longa e próspera carreira, Norton foi protagonista de uma série de casos importantes, cada qual a seu modo. Mas elege um deles como um dos mais emblemáticos e marcantes de sua atuação como promotor: o processo judicial contra Mané Garrincha, um dos maiores craques da história do futebol. O ex-jogador do Botafogo e da Seleção Brasileira, voltando de São Paulo em seu carro, sofreu um grave acidente, que resultou na morte de sua sogra, Rosária Maria da Conceição, mãe da cantora Elza Soares.
“Apesar de fã do Garrincha, como todo brasileiro que gostava de futebol, precisei me manter firme e me ater ao que constava nos autos do processo instaurado pela delegacia de São João de Meriti. A perícia feita produziu provas que o apontavam como culpado. Ele estava alcoolizado e em alta velocidade. O caso teve bastante holofote na época, inclusive com destaque nos jornais. No final, o jogador foi condenado”, disse o procurador aposentado.
Norton ascendeu gradativamente na carreira, sempre movido por um forte senso de retidão e espírito público. Em paralelo, manteve uma atuação associativa forte, em defesa das prerrogativas da classe. Questionado sobre os momentos mais marcantes de sua atuação junto à Amperj, ele não demora a pensar na histórica “Vigília Institucional” de 1980.
“À época, havia uma reivindicação da classe junto ao procurador-geral e ao então governador, Antônio de Pádua Chagas Freitas, que se mostravam relutantes às nossas demandas de melhores condições de trabalho para os promotores de Justiça. Juntos, organizamos um grande movimento que, embora não fosse uma paralisação propriamente dita, foi uma mobilização intensa. Essa iniciativa foi fundamental para que nossas demandas fossem acolhidas, marcando um episódio significativo na trajetória da Amperj e na história do Ministério Público”, recorda Norton. Os resultados da vigília erigiram pilares fundamentais das bases atuais do parquet, como a escolha do procurador-geral pelo governador a partir de uma lista tríplice eleita pela classe.
Aposentado há mais de uma década, Norton Esteves Pereira de Mattos, depois de uma grande contribuição à democracia e à sociedade fluminense, agora aproveita a vida ao lado dos filhos e da esposa. Apaixonado, ele a classifica como chave para sua longevidade. “Eu penso em minha vida em duas etapas: de solteiro até o casamento e depois do casamento, que mudou completamente a minha vida. Constituí uma linda família, tenho três filhos e mais netas. Acredito que cheguei a essa idade por causa desse apoio familiar. Sou muito feliz!”, disse.

Mas se engana quem pensa que o procurador está distante do Ministério Público. Gozando de plena saúde aos 100 anos de idade, Norton continua sendo figurinha carimbada nos eventos da Amperj, sobretudo nos almoços dos aposentados, organizados por sua esposa, a procuradora aposentada Luiza de Mattos. Com contato constante com as novas gerações do Ministério Público, Norton deixa um recado simples, mas poderoso, para os novos promotores, que carregam a responsabilidade de guiar a instituição nos próximos anos.
“O promotor de Justiça não é um acusador sistemático, mas um agente da Justiça. Ele deve se orientar sempre pela Constituição e pela Lei Orgânica do Ministério Público. A função ministerial é claramente definida nesses marcos, e é fundamental trabalhar em consonância com esses princípios. Este é meu maior conselho para os novos integrantes da carreira: sigam aquilo que a lei determina”, disse o procurador aposentado.