Por Patrícia Carvão
Estamos no momento de ver ou rever os filmes indicados ao Oscar! Muitos já estão nas plataformas de streaming! Fora da lista das produções que disputaram o Oscar deste ano, indico dois filmes que assisti recentemente.

O primeiro deles é a produção espanhola Corta-Fogo, um suspense que vai além do desaparecimento de uma criança e mergulha na tensão psicológica de uma família atravessada pelo luto. Mara, a protagonista, ainda profundamente abalada pela perda do marido, tenta lidar com uma dor que não foi elaborada — e isso transborda nas suas relações.
Ao longo do filme, fica evidente como o sofrimento de Mara se transforma em desconfiança e projeção: ela passa a atribuir aos outros aquilo que não consegue suportar em si mesma. Essa dinâmica intensifica o clima de tensão psicológica da narrativa, fazendo com que o perigo não venha apenas do incêndio, mas também das fragilidades emocionais dos personagens.
No fim, o filme sugere algo bastante humano: não existe um tempo certo para superar uma perda. Cada pessoa elabora o luto de forma singular, e forçar esse processo pode gerar ainda mais sofrimento. Diante da fragilidade e da incerteza, muitas vezes atacamos para nos defender, criando ciclos de culpa e perdão.
É um suspense que inquieta não só pela história, mas principalmente pela dimensão emocional que carrega. Disponível na Netflix.

O segundo filme também está disponível na Netflix e se chama Parque Lezama. Também dirigido por Juan José Campanella, que conquistou o Oscar com “O Segredo dos Seus Olhos”, essa produção argentina é um daqueles filmes delicados que nos lembram que nunca é tarde para construir vínculos ou para se deixar transformar por eles.
Ambientado no cotidiano de um parque, o encontro entre dois idosos, com trajetórias e modos de ver o mundo distintos, dá origem a uma amizade improvável, mas profundamente necessária. Entre silêncios e conversas, o filme revela algo simples e poderoso: todos nós precisamos ser escutados.
A direção aposta aqui em uma narrativa intimista, em que as histórias compartilhadas funcionam como pontes, não apenas entre os personagens, mas também entre passado e presente, dor e acolhimento. Cada lembrança narrada é também um gesto de sobrevivência.
Mais do que um filme sobre envelhecer, Parque Lezama é sobre a urgência do encontro humano. Sobre como a escuta pode ser um ato de cuidado e como, mesmo nas fases mais tardias da vida, ainda há espaço para afeto, revisão e recomeço.
Um filme sensível, que convida a desacelerar — e, sobretudo, a ouvir.
Já para quem gosta de teatro, tenho duas dicas:
A peça “Mulher em Fuga”, inspirada em obras do escritor francês Édouard Louis, é um espetáculo sensível sobre os desafios de romper com ciclos de violência doméstica. A montagem acompanha as lutas internas e as metamorfoses de uma mulher que tenta se libertar de uma relação adoecida, revelando o quanto esse processo é complexo, doloroso, muitas vezes não linear, e que pode se repetir em diversas relações.
A atuação da atriz Malu Galli é um dos grandes destaques. Com presença intensa, ela traduz com profundidade as oscilações emocionais da personagem — da fragilidade à força. Um recurso cênico especialmente marcante é o uso da bateria: nos momentos em que a personagem se mostra mais empoderada, é por meio da música e do ritmo que essa potência ganha corpo no palco.
O espetáculo também chama atenção pelo cuidado na abordagem do tema e pelo figurino da atriz, que contribui para dar forma ao sofrimento da personagem. Sem cair em simplificações, a peça respeita o tempo subjetivo de quem vive esse tipo de experiência, mostrando que sair de um ciclo de violência exige muito mais do que decisão — exige elaboração, apoio e tempo.

Em cartaz no Teatro Firjan SESI Centro, “Mulher em Fuga” é uma experiência atual, impactante e necessária — daquelas que permanecem com o espectador mesmo depois do fim. Não é mais do mesmo.

Termino com a peça “Eu Sou Minha Própria Mulher”, protagonizada por Edwin Louise e dirigida por Herson Capri. Em cartaz no Teatro Poeira, a montagem se baseia em uma história real para retratar a trajetória de uma travesti alemã que sobreviveu ao período da guerra, enfrentando violências, perdas e escolhas difíceis.
O texto revela não apenas os horrores de um contexto histórico extremo, mas também as renúncias necessárias para continuar existindo, o que torna a narrativa ainda mais impactante. Ao mesmo tempo, a peça evidencia a potência dessa personagem, que encontra maneiras de resistir e se manter viva, mesmo diante de um cenário tão hostil.
A atuação de Edwin Louise é um dos grandes destaques. Sozinho em cena, ele transita entre múltiplos personagens com fluidez e intensidade, criando um jogo teatral envolvente e sofisticado. Sua interpretação dá corpo e complexidade à história, mantendo o público profundamente conectado do início ao fim.
É um espetáculo de teatro de qualidade, que provoca reflexão sobre identidade, sobrevivência e memória.
Bom fim de semana!!