Notícia

A fragilidade humana sob o olhar do teatro e do cinema

Inserido em 6 de março de 2026
Compartilhamento

Por Patrícia Carvão

Vamos começar as dicas de hoje com uma peça de teatro? O espetáculo “O Pai”, atualmente protagonizado por Fúlvio Stefanini, apresenta a história de André, um homem de 80 anos que começa a enfrentar os efeitos da demência associada à doença de Alzheimer. A narrativa acompanha sua relação com as filhas e com as pessoas envolvidas em seu cuidado, revelando as tensões, dúvidas e dilemas que surgem quando uma família precisa lidar com o adoecimento progressivo de um de seus membros.

Apesar de tratar de um tema difícil, a peça mantém um equilíbrio delicado: aborda a tristeza e a complexidade da situação sem se tornar excessivamente pesada. O texto é construído de forma inteligente, levando o próprio espectador a experimentar momentos de confusão sobre o que está realmente acontecendo em cena. Esse recurso dramatúrgico cria a sensação de estar dentro da mente de quem sofre com o comprometimento cognitivo, aproximando o público da experiência subjetiva da doença.

A montagem também provoca uma reflexão importante sobre o cuidado: até que ponto os familiares precisam reorganizar suas próprias vidas, desejos e projetos para zelar por quem adoece? Nesse contexto, a atuação de Fúlvio Stefanini — atualmente com 86 anos — se destaca pela intensidade e vitalidade, transmitindo emoção e profundidade ao personagem. Impressionante! A peça é baseada no texto do dramaturgo francês Florian Zeller, que também inspirou o filme The Father (Meu Pai), protagonizado por Anthony Hopkins.

Em cartaz no Teatro TotalEnergies, Sala Adolpho Bloch, até 22 de março de 2026.

No conforto de casa, sugiro algumas produções. Vamos lá!

Lembrei-me da frase de Tolstói — “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira” — ao assistir à minissérie “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, disponível no Globoplay. Em cinco episódios, a produção mergulha em uma história real em que fortuna, solidão e afeto se entrelaçam.

A trama gira em torno de Anita, empresária que durante anos esteve à frente das Casas Pernambucanas. Mulher poderosa, discreta e reservada, Anita construiu um extenso patrimônio, mas não necessariamente uma rede sólida de vínculos afetivos. Ao seu redor orbitavam poucas figuras constantes: Suzuki, que se tornou sua companheira de viagens e presença inseparável, e Cristina, braço direito responsável por administrar sua rotina.

Quando Anita sofre um AVC e entra em coma — estado que já perdura há uma década —, os conflitos se iniciam. O que antes parecia lealdade converte-se em disputa patrimonial. Tanto Suzuki quanto Cristina alegam ter mantido união estável com Anita, reivindicando direitos sobre o vasto patrimônio. Arthur, filho de Suzuki e reconhecido por Anita por meio da maternidade socioafetiva, acrescenta outra camada à complexa rede de interesses.

A série expõe como a ausência de alguém — ainda vivo, mas incapaz de manifestar sua vontade — pode transformar relações em campos de batalha. Para quem conhece os bastidores do sistema de Justiça, a narrativa é familiar: a herança e, no caso, a curatela, frequentemente revelam fissuras antigas e ambições silenciosas.

O segundo título que indico é o filme “Livros Restantes”, disponível no Prime Video. A personagem Ana (Denise Fraga) não está simplesmente mudando de país; ela atravessa uma mudança existencial. Ao decidir ir para Portugal, ela precisa lidar com algo simbólico: abrir mão de sua biblioteca, que representa sua profissão de professora de literatura e as memórias de toda uma vida.

Ela decide guardar cinco livros que contêm dedicatórias. Ao devolvê-los às pessoas que os escreveram, Ana realiza um ritual que a ajuda a se reorganizar emocionalmente. O filme é sensível ao mostrar que nem todos os vínculos resistem ao tempo, mas que alguns, embora não permaneçam na convivência, permanecem vivos na memória. Ao final, Ana encontra seu lugar no mundo, agora com autonomia e segurança. A mudança não é fuga, mas a realização de um sonho.

Termino com a série “O Psiquiatra ao Lado”, disponível na Apple TV+. Baseada em fatos reais, a trama dramatiza a relação entre Marty Markowitz e o psiquiatra Dr. Isaac Herschkopf (Dr. Ike). Ao longo de oito episódios, acompanhamos um homem fragilizado pelo luto que busca ajuda profissional e encontra, em vez disso, uma relação de dominação disfarçada de cuidado.

O psiquiatra interfere nos negócios, nas finanças e na vida afetiva de Marty, isolando-o de sua própria irmã. Não há violência explícita, mas uma manipulação ardilosa construída sobre a solidão do protagonista. A narrativa provoca reflexões fundamentais sobre ética profissional, transferência e abuso de poder — temas caros à psicologia e ao Direito. O fato de ser baseada em uma história real intensifica o impacto e nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: até que ponto a fragilidade psíquica pode abrir espaço para relações assimétricas e adoecedoras?

Bom final de semana!