Por Felipe Cuesta
Pensem num livro inventivo e original, publicado no auge da ditadura militar brasileira, contendo uma história ao mesmo tempo cômica e dramática, que promove uma crítica inteligente, corajosa e pertinente à política da época. Um livro que cutuca a lógica absurda do governo militar com vara curta. Uma sátira deliciosa. Pensem agora no formato escolhido para realizar essa sátira: uma trama ambivalente, dividida em duas partes de estilos opostos e extremos. A primeira parte apresenta uma dinâmica narrativa tradicional; a segunda escancara as páginas para o desfile do realismo mágico, representando uma situação de escárnio inusitada e surreal, tratada como algo quase corriqueiro.
Pensem no que aconteceria se os mortos pudessem ressuscitar para acertar as contas com os vivos e com as pessoas envolvidas em sua morte, sem ter nada mais a perder. Agora pensem num escritor talentoso, de vocação originalmente regionalista (e depois consagrado nacionalmente), imbuído de uma prosa simples e sedutora, com grande sensibilidade para retratar o cotidiano, a vida singela e os dramas humanos da pequena burguesia das cidades brasileiras de médio e pequeno porte. Um autor que apresenta recortes muito bem trabalhados do estilo de vida dessa classe, emoldurando verdadeiras fotografias escritas do cotidiano da vida em sociedade.
Esse escritor foi o gaúcho Érico Veríssimo, e a obra da qual falamos é Incidente em Antares. Érico começou pelo jornalismo, escrevendo para o jornal Correio do Povo e para o Diário de Notícias. Veríssimo viveu períodos conturbados da história brasileira, como a Revolução de 1930 e a ditadura do Estado Novo, o que influenciou profundamente sua obra. A partir de 1930, com a segunda geração do Modernismo brasileiro, Érico começa a se destacar por sua prosa, com ênfase no regionalismo. Nessa fase, sua produção literária se sobressai, e a prosa se concentra no romance gaúcho, que serviria de inspiração para sua grande trilogia O Tempo e o Vento, outro clássico da literatura brasileira.

A essa altura, o autor já havia alcançado destaque e reconhecimento em todo o país, descrevendo sua terra, seus costumes e sua gente não com exaltação ufanista, mas de maneira centrada e reflexiva, buscando compreender os ciclos e legados históricos daquele povo. Além disso, analisava o momento presente, debatia as desigualdades sociais e refletia sobre a formação da elite dominante. Érico possui ainda outra característica que o torna amplamente aceito pelo público: a sobriedade equilibrada de seu texto, sem excesso de adjetivos ou preciosismos e livre de vícios traiçoeiros de escrita.
Érico traz sentimentos idealistas e um viés positivo e esperançoso. Em consequência, consegue investigar o aspecto humano do ser em suas relações com o meio, com a linguagem, a paisagem e a cultura, ocupando posição de destaque na literatura brasileira. Trata-se de um movimento literário de dentro para fora, ou seja, partindo de seu espaço local e regional — seu meio de crescimento e convívio social no Rio Grande do Sul — para ultrapassar fronteiras reais e imaginárias, físicas e políticas, alcançando a universalidade de sua obra pela transcendência e importância dos temas tratados e pela capacidade de enxergar o mundo sob diferentes ângulos, com interpretações diversas sobre a humanidade e o fazer literário.
Em síntese, a obra de Érico Veríssimo passa por três fases. A primeira é uma fase urbana, na qual a vida cotidiana da cidade serve de cenário para reflexões e discussões, marcada por um tom lírico e otimista. Em um segundo momento, questões históricas e de investigação social ganham relevo, especialmente em sua obra mais famosa, O Tempo e o Vento. Nessa etapa, o autor denuncia e expõe os padrões patriarcais arraigados na cultura gaúcha, criticando as estruturas de poder e a opressão de gênero. Na última fase da carreira, Érico concentra-se na temática política e em uma crítica contundente à corrupção. Ao enfrentar as consequências sombrias do período militar, utiliza corajosamente a escrita como ferramenta para denunciar o autoritarismo e as violações de direitos humanos.
Escrito e publicado em 1971, Incidente em Antares surge na terceira fase do autor, já no fim de sua vida. O livro foi inspirado em uma ideia que Érico Veríssimo teve ao ver a foto de uma greve de coveiros nos Estados Unidos, desenvolvida na segunda parte do romance. Para o leitor chegar até esse ponto, antes passa por um processo de ambientação e adaptação ao local do fato extraordinário que virá na sequência e que dará título à obra: o incidente.
Na primeira parte, somos apresentados a um vilarejo, um microcosmo que representa o Brasil e suas divisões políticas sob o poder oligárquico. Trata-se da pequena cidade fictícia de Antares, situada ao norte de São Borja, no Rio Grande do Sul. Ali, deparamo-nos com a estrutura de poder local concentrada nas mãos de figuras poderosas, corruptas e infames. Conhecemos famílias rivais que se odeiam, como frequentemente ocorre nas entranhas políticas das pequenas cidades: os Campolargo e os Vacariano.
Ao redor desses dois clãs, ergue-se o mecanismo de funcionamento social e político, desenvolvido como uma radiografia e um retrospecto histórico do próprio Brasil. Constatamos o entorpecimento e a opressão das massas trabalhadoras, que tentam se organizar em busca de melhores condições de trabalho, culminando na greve geral que dá origem ao “incidente”.
Assistimos aos horrores cometidos pelos poderosos para manter a estrutura de partilha do poder e perpetuar o status quo geracional, inclusive por meio da junção de interesses entre famílias rivais, seja para facilitar a participação do Rio Grande do Sul na política nacional, seja pela ameaça representada pelos “operários comunistas” que reivindicam seus direitos. Nos momentos mais críticos, são cometidas atrocidades entre esses adversários: assassinatos, torturas e até estupros. Na licença ficcional do autor, os conflitos só se apaziguam com a vinda de Getúlio Vargas à cidadezinha.
No contexto da política do café com leite, em que São Paulo e Minas Gerais se alternavam na indicação do presidente da República, Vargas almejava que o Rio Grande do Sul também participasse da política nacional a partir de sua eleição. Para isso, seria necessário angariar votos. Assim, o livro descreve que Getúlio teria comparecido a Antares para garantir a maioria dos votos no município, convencendo os patriarcas das duas famílias a deixarem as desavenças de lado e a se unirem pelo “amor ao Rio Grande do Sul”. Puro suco de Brasil.
Na segunda parte — a melhor — a criatividade e a genialidade de Érico decolam, e o autor dá vazão à narrativa fantástica. Como é sabido, não existe poder, domínio ou império que dure para sempre. E é pelas vias menos óbvias, pela tenebrosa ironia dos mortos apodrecendo e denunciando a podridão dos vivos, que se lança a primeira grande perspectiva de mudança nesse universo — para, ao final, tudo ser varrido como se nada tivesse acontecido, numa realidade que infelizmente destrói povos inteiros: a frágil memória histórica.
Na greve geral de 12 de dezembro de 1963, data fatídica que abre as portas para a segunda parte do livro e para essa deliciosa caixa de Pandora literária, os coveiros e demais trabalhadores deixam de exercer seus ofícios. Há, porém, um inconveniente perigoso: sete pessoas morrem na cidade, e os cadáveres precisam ser sepultados. Com os coveiros de braços cruzados, os enterros ficam suspensos por prazo indeterminado. Para azar dos vivos, os mortos resolvem se levantar e falar — na verdade, botar a boca no trombone.

Tudo o que se passa a partir da sexta-feira 13 transforma-se em um pandemônio de revelações e angústia, com uma sensação de sujeira e fedor que o leitor consegue abstrair com imensa facilidade graças à excelente descrição que Veríssimo faz dos corpos em decomposição. Mas a fedentina é ainda mais incômoda pelas revelações dos cadáveres do que por seus crescentes aromas putrefatos propriamente ditos.
É nesse ponto do livro que todas as informações da primeira parte fazem sentido e se justificam, ajudando-nos a compreender o contexto dos segredos trazidos pelo grupo de sete mortos. Não restará pedra sobre pedra: Quitéria Campolargo (matriarca da cidade, morta do coração), Barcelona (sapateiro anarquista, vítima de um ataque cardíaco), Cícero Branco (influente advogado, vítima de um AVC), João Paz (jovem pacifista, torturado até a morte pela polícia), Pudim de Cachaça (bêbado envenenado pela esposa), Menandro Olinda (genial pianista, gravemente deprimido, que se suicidou cortando os pulsos) e, por fim, Erotildes, a prostituta, vítima de tuberculose que não recebeu atendimento médico a tempo.
Os defuntos, já em estado de putrefação, passam a reivindicar o direito de serem sepultados; caso contrário, assombrariam a cidade com revelações tenebrosas sobre as figuras mais influentes do vilarejo e sobre as reais circunstâncias que antecederam a morte de cada um deles. Assim, seguem em cortejo pelas ruas e casas de Antares, desvendando vilanias e denunciando mazelas. A confusão se instala de vez, sem possibilidade de retorno ou de abafar verdades tão inconvenientes.
O exercício do poder e da justiça, a clara divisão entre o “momento da metáfora” e o “momento dos fatos” e a corajosa exposição da corrupção, do mandonismo, da paranoia política, do autoritarismo, do golpismo e da baixeza de certos pensamentos políticos e sociais no Brasil, atravessando classes, idades, gêneros e raças, são escancarados em Incidente em Antares. Trata-se de uma grande e ousada audácia do autor ao pôr fim ao baile de máscaras e enfiar o dedo na ferida em plena Ditadura Militar.
Ler os livros de Érico Veríssimo é uma experiência sensacional. Dentre eles, Incidente em Antares é, sem dúvida, o melhor de todos.