“Garota Canhota” é o primeiro trabalho solo de direção de Shih-Ching Tsou. A cineasta taiwanesa já fez outros trabalhos com Sean Baker, produzindo filmes como o ótimo “Projeto Flórida” e “Red Rocket” ao lado do diretor vencedor do Oscar por “Anora”. Achei o filme muito bom! Três gerações de mulheres de uma família tentam se adaptar à vida na cidade grande e aos inúmeros preconceitos à sua volta neste elogiado longa taiwanês, um dos favoritos para a indicação a filme estrangeiro no Oscar. O que o filme tem de melhor é envolver seu intenso drama familiar em tons leves, ensinando que a vida pode ser muitas vezes absurda, mas é preciso seguir em frente e engolir o próprio desespero. Como diz a poesia de Fernando Pessoa (“Tanto sentimento”):
“Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar”
Vamos viver a vida que temos, a que é possível. Sem muitos sonhos e expectativas. Talvez seja essa a melhor leitura do filme.
A pequena protagonista Nina Ye é um show à parte de talento e fofura.

O drama “Sonhos de Trem”, filme da Netflix que também está cotado para o Oscar 2026, estreou recentemente na plataforma de streaming.
“Sonhos de Trem” conta a história de Robert Grainer, um homem simples e introspectivo que vivia exclusivamente para a família e para o trabalho. Ambientada no oeste americano no início do Século XX, a narrativa fala sobre o processo de luto vivido por Robert após a perda da família.
O filme tem um ritmo mais pausado e tranquilo, assim como a personalidade de Robert, mas ao mesmo tempo se torna interessante ao mostrar a passagem do tempo na vida do protagonista, sua transformação e amadurecimento, assim como os desafios em lidar com as memórias e dores que o acompanham desde a infância.
A história é contada justamente a partir dos fatos mais significativos que marcam a sua vida aparentemente simples e comum: lembranças boas e outras nem tanto, como é a vida de todos nós, e fazem com que nos tornemos exatamente quem somos.

Sob este aspecto da narrativa de “Sonhos de Trem”, a saber, sobre a passagem do tempo, é possível fazer aqui um paralelo entre este título e um outro que de alguma forma com ele se conecta, e que também está disponível na Netflix: “Jay Kelly”, o novo filme de Noah Baumbach (“História de um Casamento”), diretor indicado ao Oscar, e conta com um elenco liderado por George Clooney, Adam Sandler, Laura Dern (“História de Um Casamento”) e Billy Crudup (“Quase Famosos”). O longa acompanha o famoso ator de cinema Jay Kelly (Clooney) e seu empresário Ron (Sandler) em uma jornada intensa e profunda pela Europa. Ao longo do caminho, os dois são forçados a confrontar as escolhas que fizeram, os relacionamentos com seus entes queridos e os legados que deixaram para trás.
O início do filme traz muitos diálogos, rápidos e difíceis de acompanhar às vezes. Parece que não vai engrenar. Mas com o correr da narrativa fica evidente a crise existencial de Jay Kelly quando ele se depara com a concretude da passagem do tempo e com a impossibilidade de alguns acertos com o passado, especialmente no que se refere ao relacionamento com suas filhas. Assumir o custo sobre escolhas individuais e sobre o estabelecimento de prioridades definidas ao longo do tempo, que podem não ter levado aos melhores caminhos, é na maior parte das vezes algo bem difícil de lidar.
Analisado sob esse aspecto, o filme pode prender a atenção do espectador.
Um abraço e bom final de semana!