A aula de Literatura e Teatro desta terça-feira (25), ministrada pelo professor André Dias, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal Fluminense (UFF), debateu o romance Caminhando com os Mortos, da escritora brasileira Micheliny Verunschk. A obra aborda assuntos atuais, como violência de gênero, intolerância religiosa e transtornos mentais.
“O romance que debatemos, Caminhando com os Mortos, é uma obra vencedora do Prêmio Jabuti de 2022, Micheliny Verunschk. Lá, a autora constrói uma narrativa profundamente humana e atual ao mostrar as consequências da intolerância religiosa, o impacto do trauma e o papel da memória na forma como cada sujeito elabora a própria existência”, disse André Dias.
O enredo do livro se passa em um vilarejo onde vêm ocorrendo crimes bárbaros, entre eles o assassinato de Celeste, queimada viva pela própria mãe, Lourença, por influência de um líder espiritual que usa a religião para amedrontar as pessoas, e não como instrumento de amparo espiritual.
A trajetória de Lourença — marcada por violência desde a infância, ausência de proteção e vulnerabilidade psíquica — ajuda a compreender como ela chega a cometer um ato tão extremo. É essa história de opressão contínua que a coloca como símbolo de mulheres que naturalizam abusos e vivem sem acesso a apoio institucional ou comunitário. Seus transtornos psíquicos, dissociação, delírios, ideação suicida e traumas, refletem a realidade de milhares de brasileiras que convivem com sofrimento mental sem diagnóstico, atendimento especializado ou redes de acolhimento. Esse aspecto foi alvo de discussões na aula de André Dias.
O romance dialoga ainda com problemas estruturais do país: a continuidade das violências patriarcais, a falta de políticas públicas de saúde mental, a sobreposição entre religião e poder político e o histórico de brutalidade policial. O vilarejo fictício retrata a realidade que vemos no Brasil.
O professor destaca ainda que Verunschk constrói em sua narrativa um país que expõe suas entranhas, feridas não tratadas e a incapacidade de romper ciclos de abuso e violência. Caminhando com os Mortos é, ao mesmo tempo, denúncia e reflexão sobre como a sociedade transforma dores individuais em tragédias coletivas quando as estruturas de cuidado falham, e sobre como manipulações religiosas e políticas podem agravar doenças psíquicas em vez de oferecer acolhimento.