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O Golpe da voz: como funciona, exemplos e alerta das autoridades

Inserido em 19 de novembro de 2025
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Nos últimos anos, a expansão de ferramentas de inteligência artificial tem possibilitado avanços significativos na comunicação e na automação de tarefas. Entretanto, essa mesma tecnologia criada para facilitar a vida e o trabalho tem  sido indevidamente utilizada por quadrilhas especializadas em fraudes, dando origem ao chamado “golpe da voz” ou “roubo da voz”. Em razão do avanço desse golpe, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro emitiu alerta sobre essa modalidade criminosa.

O golpe ocorre, de modo geral, em três etapas principais:

A primeira etapa é a coleta da Voz. Os criminosos iniciam o processo fazendo contato telefônico prévio com a vítima, geralmente com pretextos simples de realizar uma pesquisa, atendimento de supostas empresas de telefonia, reclamações de consumo simuladas, confirmações de dados bancários, entre outros.

O objetivo do contato é gravar a voz da pessoa por alguns segundos ou minutos, tempo suficiente para que softwares especializados extraiam o timbre e as características da fala.

Em seguida, acontece a clonagem e adulteração por inteligência artificial através da gravação obtida. Os criminosos utilizam softwares de clonagem de voz que permitem recriar falas completas, mesmo sem a pessoa ter dito aquelas frases ou palavras, além disso simulam emoção, entonação e pausas dramáticas, gerando áudios que se confundem com a voz original da vítima.

Em alguns casos, essa clonagem é utilizada junto de perfis falsos, deepfakes e aplicativos de mensagem, o que aumenta o poder de convencimento.

O próximo passo dessa engenharia fraudulenta é, com a voz clonada, os criminosos entrarem em contato com familiares, colegas de trabalho ou contatos próximos da vítima. As abordagens mais recorrentes envolvem pedidos de transferência bancária urgente, alegações de sequestro ou emergência financeira, solicitação de senhas e dados pessoais, entre outros.

Por se tratar da voz real da vítima, a confiança da pessoa que recebe o pedido é maior, aumentando o risco de prejuízo financeiro imediato.

No Rio de Janeiro, segundo o alerta divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio, vítimas têm relatado ligações onde parentes supostamente pedem auxílio financeiro. As vítimas somente percebem o golpe após realizarem a transferência, quando conseguem contato real com o familiar.

No Canadá, uma família transferiu cerca de US$ 21 mil após receber uma ligação supostamente do filho, cuja voz havia sido clonada a partir de vídeos publicados em redes sociais.

Em São Paulo, um empresário teve sua voz clonada a partir de postagens em videoconferências, e os criminosos conseguiram enganar fornecedores solicitando depósitos em conta fraudulenta, ou seja, os golpes aumentam e se potencializam exponencialmente na medida em que os softwares de reconhecimento de voz se aprimoram.

Embora seja uma modalidade criminosa relativamente recente, alguns levantamentos já indicam crescimento expressivo dessa modalidade de golpe, um estudo da McAfee (2023) apontou que 1 em cada 4 pessoas no mundo já teve contato ou conheceu alguém que foi alvo de clonagem de voz para tentativa de golpe. No Brasil, segundo levantamento da SaferNet, crimes envolvendo engenharia social aumentaram 18% em 2024, com forte ligação ao uso de recursos de IA. Os Órgãos estaduais de segurança pública relatam um crescimento contínuo de denúncias desde 2023, especialmente, no caso do Rio de Janeiro, na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI).

Para reduzir riscos, as autoridades sugerem evitar fornecer informações por telefone, principalmente a interlocutores desconhecidos; estabelecer palavras de segurança com familiares, a serem confirmadas em casos de emergência; sempre desconfiar de pedidos financeiros urgentes, especialmente realizados por mensagens, verificar a identidade por mais de um canal, preferencialmente retornando a ligação, se possível por vídeo, muita cautela ao publicar áudios e vídeos em redes sociais, comumente utilizadas como fontes para clonagem.

O “golpe da voz” tem representado uma evolução das fraudes por engenharia social, potencializada pela inteligência artificial. O alerta das autoridades evidencia a necessidade de conscientização coletiva, já que o golpe explora não apenas tecnologia, mas principalmente confiança e vínculo emocional entre a vítima e seus contatos.

Todo cuidado é pouco nesses novos tempos de IA.

 

Allan Julianelli é gerente de TI da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e policial civil do Estado do Rio de Janeiro desde 2002.

allan.julianelli@amperj.org